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A vida é melhor em fatias

Haisem Abaki

17 Maio 2014 | 11h20

Pilotando o carrinho do supermercado tive um momento de reflexão sobre minha vida e uma visão do futuro. De repente, entre gôndolas e viradas pra um lado e pra outro, escolhendo produtos e sendo atendido pelos funcionários da loja, vi minha existência passar como um filme.
Fiquei absorvido por tantos pensamentos que nem percebi o preço da batata querendo fritar o meu bolso, o tomate vermelho de vergonha por custar tão caro, a banana prata a quatro reais (seria o efeito Daniel Alves?) e uma bandeja de vinte ovos por quase nove reais ciscando e cacarejando no meu orçamento. Só reparei tudo isso em casa.
A reflexão existencial começou na prateleira da água mineral, quando um estoquista chegou pra reabastecer e viu que eu queria um engradado do produto que ele estava trazendo. “Pra que fazer força, senhor? Deixa que eu ponho no carrinho pro senhor”. E, depois do meu agradecimento, disse gentilmente um “até logo, senhor”.
Perto dali, fui pegar alface, que é moleza comprar. São folhas verdes com a inscrição “crespa”, “lisa” ou “americana” na embalagem. O problema é a confusão que faço entre salsinha e coentro. Se o meu nariz sente algum cheiro é coentro, se não sente é salsinha. Mas naquele dia uma atendente solícita se aproximou querendo saber se “o senhor precisa de ajuda”. Agradeci e ela respondeu com um “fique à vontade, senhor”.
Na fila do pãozinho quentinho, finalmente, eu deixo de ser “senhor”. Minha nova identificação é “próximo”. Os dez que estavam à minha frente também eram todos “próximos” e acabei me distraindo num rótulo de pão italiano. Não percebi que havia chegado a minha vez e o garoto do balcão, impaciente, já parecia gritar com dois “ss” e alguns “o”s a mais, me transformando em “próssimooo”. Pedi, esperei, agradeci e ele, educadamente, respondeu com um “próximo”. É, a fila anda… Mas pelo menos ele voltou à pronúncia correta.
Fui para o açougue, onde sempre sou tratado com um “pois não, chefe”. Pedi um quilo de alcatra pra bife. “Um quilo, chefe?”, a confirmação sempre vem assim. O rapaz termina o serviço, me entrega a embalagem e… “Mais alguma coisa, chefe?”. Aí eu peço um quilo de patinho moído na hora e não do que está no balcão “pra não apanhar em casa”. O cara ri, mas não deixa de lado a certificação. “Um quilo de patinho moído, chefe?”. E na volta… “Mais alguma coisa, chefe?”. Agradeço, empurro o carrinho e ouço um “bom fim de semana, chefe”.
Na gôndola do papel higiênico pensei que não seria ninguém. Papel higiênico é papel higiênico para todos os mortais, embora alguns venham com folhas duplas, perfumes e texturas que fazem um cara se sentir um rei no trono. E não é que um funcionário me solta um “esse aqui tá na promoção, doutor”?
E pra encerrar, vou para a fila dos frios. Surge uma simpática balconista, toda sorridente e me manda um “bom dia, moço”, seguido de um “o que vai hoje, moço?”. Ela pega os 300 gramas de presunto que pedi, pesa e embala, sempre sorrindo pra mim. “Mais alguma coisa, moço?”. E lá vai a garota buscar 300 gramas de mussarela (apesar de o correto ser muçarela). Era só aquilo mesmo, mas, como a pergunta se repetiu para “o moço”, fui de 250 gramas de mortadela. Ela insistiu com “o moço” e me deu uma vontaaaaade de comer queijo branco. Encerrei a minha “curta” permanência ali ouvindo um “volte sempre, moço”.
Tudo isso me fez reavaliar alguns hábitos. Talvez aquele “senhor” não precise de tanta água, né? Acho que o mesmo “senhor” está exagerando nas verduras. Além desses “dois”, percebi que o “próximo” tem comido muito pãozinho e que o “chefe” deve ser menos carnívoro. Quanto ao “doutor”, tudo bem, já que papel higiênico fora da promoção é o maior rolo.
Mas foi ali que repensei tudo e vislumbrei meu futuro. O “moço” quer a vida com mais presunto, mais mussarela (apesar de o correto ser muçarela), mais mortadela, mais queijo branco… Essas coisas têm mesmo um efeito rejuvenescedor. Caramba, ainda faltou o salaminho! Preciso voltar lá com urgência…