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A república, o trem e o ônibus

Haisem Abaki

09 Junho 2016 | 11h39

A tragédia dos estudantes na Mogi-Bertioga é o retrato atualizado de uma cidade que passou por muitas transformações, mas nunca deixou de ser universitária. Os estudantes de hoje têm um perfil diferente daqueles de 30, 40 anos atrás. Só que a alegria, a barulheira e principalmente os sonhos parecem ser os mesmos de sempre.

Quando era criança, eu via aqueles bandos de alunos andando pelas ruas e queria ser um deles e viver em uma república. Ainda era muito novo pra entender que dificilmente iria dividir um lugar daquele tipo com alguém. Ao contrário deles, eu não tinha vindo de longe. Morava lá em Mogi mesmo, onde nasci.

Nos primeiros anos na Faculdade de Jornalismo da UMC nossa casa era em Braz Cubas e eu já ficava feliz de pegar o “trem dos estudantes” e descer duas estações depois, na porta da universidade. Oito minutos contagiantes e divertidos. Literalmente, pegava o trem andando. E eu tinha que ser rápido pra entender e embarcar nas piadas, nas gozações e talvez naquilo que hoje chamam de bullying.

Na hora de ir embora, também precisava ser ágil nas tiradas pra cima dos colegas. Afinal, eram apenas duas paradas. E eles seguiriam viagem pelo menos até o Tatuapé, onde começava a linha do metrô. Mas fiz amizades com gente que morava em repúblicas e dava um jeito de me enfiar nelas e, claro, nas festas.

O tempo passou e no caminho do trem foram surgindo outras universidades. A cidade passou a atrair menos “gente de fora” e imóveis que poderiam ser repúblicas foram ficando vazios e com placas de “aluga-se”. Vizinhos que às vezes reclamavam do excesso de bagunça e barulho passaram a conviver com um silêncio melancólico.

Com oito anos como jornalista, “virei” professor de rádio. Quase 21 anos em sala de aula e estúdio. Onze anos na Braz Cubas. Treze na UMC. Quatro anos nas duas ao mesmo tempo. E internamente acompanhei várias discussões sobre formas de trazer novos alunos, já que o perfil havia mudado. Não era mais gente que vinha pra morar por um tempo na cidade e às vezes se apaixonar e ficar para sempre.

O trem continuava sendo uma porta de entrada, apesar da precariedade e do perigo, herança maldita do país das estradas. Tenho na memória dois trágicos acidentes ferroviários com muitos mortos. No primeiro, nos anos 70, era criança e tive medo. No segundo, era um repórter imaturo em início de carreira e vi pela primeira vez pessoas mortas e mutiladas, em Itaquera.

O que separa as duas universidades mogianas é a linha do trem. No entorno delas ficam os barzinhos da turma alegre do “não vai ter aula”. E as ruas próximas são tomadas por ônibus com gente que vai e volta no sonho diariamente. Gente de São Paulo, do ABC, do litoral, do Vale do Paraíba.

As mortes de ontem à noite na Mogi-Bertioga me trouxeram lembranças e saudades amplas, gerais e irrestritas de muitos alunos e de um tempo que passou. Mas nada que possa se parecer com a dor das famílias que não verão formaturas festivas. Desta vez o “não vai ter aula” não vai virar alegria nos bares. É o silêncio das repúblicas que não existem mais.