Você já foi à Bahia? Eu fui e visitei o sertão

Geraldo Nunes

05 Abril 2014 | 12h48

O sol é o mesmo que brilha em Salvador, forte e quente o ano todo, mas no agreste ele chega a ser dilacerante, sem o frescor das praias e as belezas naturais bem distantes. No sertão a realidade é outra, embora o povo seja atencioso e hospitaleiro como na capital, porém mais acanhado. O trabalho é intenso seja no comércio da cidade ou no roçado da zona rural, e lá, de fato, se luta pelo pão de cada dia todos os dias. “O nordestino é antes de tudo um forte”, escreveu Euclydes da Cunha em “Os Sertões” e a frase continua atual.

Caetité é um município localizado no sudoeste da Bahia, distante quase 500 quilômetros de Salvador, que vive a expectativa do desenvolvimento, mas encontra as dificuldades impostas pela lentidão da máquina pública e a falta de planejamento por parte de determinados órgãos do governo federal. A seca é um problema antigo na região e há três quase não chove. O município dotado de rede de água retirada de poços artesianos, esgoto e coleta de lixo, estabeleceu um racionamento no fornecimento d’água encanada na região urbana. Um dia as torneiras funcionam e no outro não. Na zona rural a população está na esperança de resultados do programa “Água Para Todos”, do governo federal cuja finalidade é implementar tecnologias para captação e armazenamento de água da chuva para a produção agropecuária, com a instalação de cisternas. Cheguei a ver essas cisternas que obviamente estavam desprovidas do bem natural que a natureza oferece porque quando cheguei já não chovia há três meses.

Durante minha estada fui acordado às seis horas da manhã do dia 19 de março, dia de São José, pela cantoria de uma procissão. Diz a tradição nordestina que quando chove no dia de São José o restante do ano será de grande fartura. A procissão pedia chuva e apesar das orações, infelizmente não choveu naquele dia, mas veio uma chuva forte, dois dias depois, ainda assim pouca para resolver tudo. De todo modo houve louvores e missas em ação de graças ao pai adotivo de Jesus Cristo.

Na cidade de Caetité o que se diz é que a população rural tem recorrido ao dinheiro do bolsa família para comprar água potável. São 48 mil moradores entre zona urbana e rural. A prefeitura depois de pressionada passou a buscar água por vias indiretas e obteve junto com a empresa Bahia Mineradora, uma licença ambiental para a extração de ferro em mais uma mina localizada dentro do município. Serão 20 milhões de toneladas de minério de ferro retirados por ano e a previsão é que o projeto de extração denominado Pedra de Ferro se inicie ainda em 2014, o que transformará o Estado da Bahia no terceiro maior produtor de minério de ferro do Brasil. O acordo prevê a construção pela mineradora de um sistema para o suprimento de água através de uma adutora que partirá da cidade de Malhada, nas margens do São Francisco, atravessando outros municípios baianos como Iuiú, Palmas de Monte Alto e Guanambi, numa distância de 150 quilômetros e a decisão se estabeleceu por motivos políticos.


Caetité possui a única mina de urânio em produção no Brasil, uma unidade de mineração e beneficiamento que é explorada por uma estatal, Indústrias Nucleares do Brasil S.A. – INB, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Acredita-se existir cem mil toneladas do minério e a produção anual é de 400 toneladas do concentrado de urânio que depois passa por diversos processos industriais, gerando energia nas usinas nucleares brasileiras. No primeiro semestre de 2011, a energia nuclear foi a segunda fonte de geração de eletricidade no país. Implantada em 1997, essa unidade de mineração de urânio funciona com autorização permanente de operação concedida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear e com licença de operação emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. As duas entidades fiscalizam as atividades de todo o setor nuclear.

A estatal foi acusada de contaminar a água da cidade. Em 2009, o Greenpeace levou o assunto ao então ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc e no ano seguinte foi estabelecida pela justiça uma multa diária cinco mil reais à INB, prefeitura caetiteense e governo da Bahia, caso não fornecessem água potável na área do entorno da mineração. A construção da adutora foi, portanto, negociada com a mineradora para se resolver o problema com o abastecimento de água. A nova mina de ferro terá área de aproximadamente quatro mil hectares e fica em Brejinho das Ametistas, na zona rural, cujo início das extrações depende ainda de um último estágio de liberações ambientais no plano estadual e federal.

A cidade também já recebeu aproximadamente 200 aerogeradores eólicos de energia elétrica, divididos em 14 parques, faltando ainda a instalação das últimas unidades, mas falta a conexão com as torres transmissoras e cerca de 300 megawatts que já poderiam estar sendo produzidos em quantidade suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Brasília, se perdem por falta de planejamento porque está tudo parado. Construído pela Renova Energia, empresa com participação da Light e da Cemig, o complexo Alto Sertão 1 já custou R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos. Embora a Renova tenha cumprido o prazo para entrega do complexo eólico, a estatal Centrais Energéticas do São Francisco – Chesf, do Grupo Eletrobrás, não honrou o compromisso para a construção do sistema de transmissão e agora culpa o governo federal que ainda não realizou o leilão de transmissão. A Chesf também reclama do licenciamento ambiental, apesar de ter entrado com o pedido poucos meses antes dos parques serem entregues.

Sem a obra é triste ver as hélices dos geradores paradas no alto dos morros no meio do sertão. Cada aerogerador pesa 243,7 toneladas. A torre que suporta o gerador e as três pás mede 80 metros de altura e é sustentada por uma base de concreto de quase três metros de profundidade. Carretas que partem do interior do Estado de São Paulo viajam milhares de quilômetros transportando as pás e os geradores – deparei com algumas no caminho – até chegar à região. O local para instalação de cada torre foi milimetricamente calculado no topo dos morros, a 860 metros acima do nível do mar. Para chegar até lá, tiveram de abrir estradas e ao mesmo tempo o peso das carretas deteriorou a ligação viária entre Caetité e a cidade vizinha de Igaporã num total de 40 quilômetros de sucessivos buracos.

A Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel considera que a Chesf deve de ser responsabilizada pelo atraso na entrega dos sistemas de transmissão de energia e encaminhou à Procuradoria Geral da República pedido de ação judicial contra a Chesf.  Na cidade de Caetité a expectativa é que as obras, tanto da Bahia Mineradora para a jazida de ferro e a adutora, quanto à da Chesf, gerem empregos diretos e indiretos no sertão baiano. Pela estrada se percebe a vegetação, misto entre cerrado e caatinga, totalmente seca e a expectativa do prefeito de Caetité, José Barreira Alencar Filho, é que a abertura de um processo de contratação de mão de obra reverta em parte o drama da seca, por garantir maior bem estar à população empregada, porém a burocracia ou sabe-se lá mais o que dificultam o processo de desenvolvimento para uma região tão carente.