São Paulo: os primeiros cronistas eram críticos e bem humorados

Geraldo Nunes

07 Dezembro 2014 | 13h05

Não podemos analisar um cronista por ele mesmo, mas pela cidade onde vive e para isso temos que voltar ao ambiente da época em que textos bem feitos sobre São Paulo eram escritos de forma bem humorada e ao mesmo tempo repletos de crítica. Essa fase acontece entre 1915 a 1930 e dois nomes se destacam Juó Bananère e Antônio de Alcântara Machado. Eles viveram a fase em que os edifícios assobradados do centro começaram a ser demolidos para dar lugar aos arranha – céus. Foi nesse período que uma lagoa pertencente a um tal Zunega foi aterrada, para a construção no lugar da atual igreja do Largo do Paissandu.

Alcântara Machado denunciava pelos jornais: “Estão destruindo a nossa cidade”! Ele sabia que no fundo havia o interesse político de se retirar as pessoas pobres do centro. A igreja, antes localizada no Largo do Rosário, foi erigida à Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e colocá-la no Paissandu era a melhor saída para a administração pública pois, a Rua XV de Novembro, então a mais elegante de São Paulo, uma espécie de Oscar Freire dos nossos dias, havia se transformado em ponto de encontro da elite. No outro lado do Anhangabaú aquela igreja e seus fiéis não iriam mais incomodar ninguém. Ele também reclamava da agitação exacerbada da cidade ante a metrópole que emergia, em concordância a Mário de Andrade que a chamava de “Pauliceia Desvairada”. O autor aparece bem humorado em especial no livro Brás, Bexiga e Barra Funda, porque via com carinho e graça o modo de ser dos “novos paulistanos”, especialmente dos imigrantes italianos. Nos jornais criticava a pressa em querer crescer de uma cidade que começava a mudar de rosto. Alterações drásticas no cotidiano de um lugar costumam despertar sentimento de perda nas pessoas, daí o expressar da memória afetiva pelo cronista, às vezes feliz e em outros momentos nervosa. Por esses aspectos Antônio de Alcântara Machado está juntamente com Juó Bananère, entre os maiores cronistas da cidade de São Paulo em todos os tempos.

Juó Bananère era o pseudônimo usado pelo escritor brasileiro Alexandre Marcondes Machado, o primeiro a levar para os textos a linguagem falada pela numerosa colônia italiana de São Paulo até a primeira metade do século XX. Nasceu em Pindamonhangaba a 11 de abril e 1892 e apesar de não ter ascendentes italianos, o escritor Alexandre Marcondes Machado apaixonou-se pela cultura surgida nos bairros centrais da capital paulista após a grande onda imigratória que fez com que a população da cidade passasse de 130 mil habitantes em 1895, para 580 mil em 1920, dos quais mais da metade eram estrangeiros e outro quarto, filhos desses nascidos no Brasil. Formado em engenharia pela Escola Politécnica de São Paulo, como jornalista, passa a escrever artigos para o jornal O Estado de São Paulo e, em outubro de 1911, começa a assinar uma coluna na revista semanal “O Pirralho”, um periódico literário, político e de humor recém lançado por Oswald de Andrade, passando a usar o pseudônimo Juó Bananère, que era o nome de um personagem criado pelo escritor.

A principal obra de Bananère foi o livro “La Divina Increnca”, editado pela primeira vez em 1915 e reeditado em 1994. Todos os seus textos, desde artigos para periódicos a panfletos, eram marcados por uma linguagem satírica e autolaudatória que Alcântara Machado batizaria de “sotaque macarrônico”. Juó Bananère auto – intitulava-se “Gandidato à Gademia Baolista di Letteras” (Candidato à Academia Paulista de Letras). Um trecho interessante é o poema “Migna Terra”, onde Bananère escreve:

“Migna terra tê parmeras, che ganta inzima o sabiá, as aves che stó aqui, tambê tuttos sabi gorgeá. A abobora celestia tambê, chi tê lá na mia terra, tê moltos millió di strella, chi non tê na Ingraterra. Os rios lá sô maise grandi, dus rio di tuttas naçó; I os matto si perdi di vista, nu meio da imensidó. Na migna terra tê parmeras, dove ganta a galligna dangolla; Na migna terra tê o Vapr’elli, chi só anda di gartolla.”

Juó Bananère não deixou filhos e morreu em São Paulo, cidade em que passou a maior parte de sua vida, acometido por uma “anemia perniciosa”, em 22 de agosto de 1933. Está sepultado no Cemitério da Consolação, também em São Paulo, ao lado da esposa Diva.

A grande mudança que influenciaria esses cronistas começa em 1900, quando foram instalados os primeiros bondes elétricos em São Paulo e o número de fábricas aumentou por conta da eletricidade dando início a um crescer cada vez maior. “Claro que tudo isso impressionava, a cidade mudava a passos largos e apressados”, explicou certa vez Hernâni Donato, presidente de honra – e perpétuo – do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre o pensamento crítico e ao mesmo tempo bem humorado dos cronistas do início do século XX. “Até o final da década de 1920 a expansão foi contínua obrigando a adaptação rápida do imigrante também ao modo de ser do brasileiro gerando nisso tudo muita confusão, daí o bom humor dos cronistas”, nos disse Donato, não obstante que a crítica até exagerada acontecia pelas transformações surpreendentes da geografia urbana que se enchia de obras públicas e construções que traziam mudanças ao cotidiano de todos. “Ainda assim a cidade se permitia tempo suficiente para ver um guarda montado em um cavalo na Praça do Patriarca a orientar o trânsito. Este senhor fardado, sem apito e sem nada, comandava tudo apenas pelo manejar de um bastão e os motoristas obedeciam. O bonde Vila Buarque fazia trajeto pela Avenida São João e Avenida Angélica, passando pela Praça Ramos e atendendo a população bem posta de Higienópolis, Santa Cecília, Campos Elíseos e da própria Vila Buarque. Nessa linha, além do motorneiro, havia o condutor um senhor geralmente negro com uma luva branca apenas na mão esquerda para facilitar o acesso de subida ou descida das senhoras da época que saíam para visitar as lojas famosas da Rua Barão de Itapetininga. Esaa era a São Paulo em transformação de cidade para metrópole que impressionava os cronistas e não era por menos”, apontou Hêrnani Donato, arguindo que a partir de 1929, com a crise do café, se daria uma cisão com muitas fazendas no interior paulista sendo entregues como pagamento de dívidas aos bancos credores. “Em 1930 cai a política do café com leite e Getúlio Vargas cria o Instituto Brasileiro de Café tomando dos paulistas o controle dos preços. Propriedades inteiras do interior acabam parando nas mãos dos imigrantes italianos que permaneceram no trabalho agrícola. De empregados passam a ser patrões, fazendo surgir na política os primeiros sobrenomes estrangeiros de descendência italiana, espanhola, árabe, etc.” Donato argumentava que o rugir dos paulistas tradicionais a esses acontecimentos serviria de apelo à Revolução Constitucionalista de 1932, embora houvessem outros motivos e até maiores para a eclosão daquele movimento. “A revolução colocaria um final a essa fase bem humorada da crônica paulistana”, explicou o mestre de saudosa memória.

Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira nasceu em São Paulo, em 1901, numa família de antigos participantes das campanhas do Império: juristas, senadores e professores. Preferiu contudo escrever. Começou fazendo crítica literária para o Jornal do Comércio. Foi redator e colaborador das revistas Terra Roxa e outras Terras, Antropofagia e Nova, ligadas à corrente modernista. Seu primeiro livro é Pathé Baby, ilustrado por Paim e prefaciado por Oswald de Andrade, com quem romperia algum tempo depois. Além de ficcionista e historiador foi jornalista, atuando como superintendente da Rádio Sociedade Record de São Paulo. Durante as batalhas da Revolução Constitucionalista de 1932, redigiu os comentários da retaguarda que eram os “comunicados do front” que a emissora transmitia nas vozes dos locutores Cesar Ladeira e Nicolau Tuma e essa experiência lhe revelou a força do rádio como arma de propaganda política. O trabalho em rádio levou-o à política partidária que o obrigou a transferir-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, mas ainda assim escrevia o rodapé de crítica literária dos Diários Associados. De tendência liberal, foi eleito deputado federal pelo Partido Constitucionalista de São Paulo, mas não chegou a tomar posse, vindo a falecer no Rio de Janeiro, em 1935 com apenas 34 anos de idade. Dá nome a uma importante avenida de São Paulo, a Radial Leste e no município batiza uma EMEI – Escola Municipal de Ensino Fundamental Alcântara Machado no bairro Moinho Velho, distrito do Ipiranga, na qual esse jornalista foi aluno. É autor das seguintes obras de ficção: Pathé Baby (1926); Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), Laranja da China (1928), Mana Maria (romance inacabado, 1936); Cavaquinho e Saxofone (1940). Escreveu também obras históricas: Anchieta na Capitania de São Vicente (1928); Comemoração de Brasílio Machado (1929).

Dois trechos do livro Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado, escolhidos para essa reportagem, servem de exemplo para mostrar como era a crônica paulistana bem humorada do início do século XX.

Gaetaninho, o menino surdo*

Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho Vem pra dentro. Grito materno sim : até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
– Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre! Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho… O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando. O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou. No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
Agurizada assustada espalhou a notícia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boléia de nenhum dos carros do acompanhamento. Lá no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha. Quem na boléia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.”

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O empastelamento do jornal*

“Aristodemo Guggiani aprendeu a roubar no jogo de bolinhas do Grupo Escolar da Barra Funda. Saindo do grupo foi trabalhar na oficina do cunhado. Sempre malandro foi expulso do time de futebol por falta de pagamento e começou a usar calças compridas porque deixara de ser criança. Amou Josefina e por isso apanhou do primo dela. A primeira demonstração de patriotismo foi ter ajudado a sabotar o jornal “La Fanfulla”, dos próprios imigrantes italianos, empastelando-o, isto é, misturando as gavetas com os tipos para a impressão. O jornal falara mal do Brasil. Já com vinte anos brigou com o cunhado, foi trabalhar na companhia Auto Viação Gabrielle D’Anunzzio, na linha Praça do Patriarca-Lapa. Arranjou uma namorada que vinha para vê-lo quando o ônibus passava pela rua onde ela morava. Um dia a revista A Cigarra publicou texto de uma mademoiselle Miosótis (pseudônimo da mulata Benedita Guimarães), intitulando indiscrições da Rua das Palmeiras. Por que será que o jovem A.G. não é mais visto todos os dias entre vinte e vinte e uma horas no portão da linda senhorinha F.R. em doce colóquio de amor? A formosa Julieta anda inconsolável! Não seja assim tão mauzinho seu A.G.! Olhe que a ingratidão mata…”

(*) Títulos criados pelo autor dessa matéria
Ouça nas madrugadas na Rádio Estadão o programa Estadão Notícias apresentado por Geraldo Nunes em FM 92,9 ou AM 700 e no portal: www. estadão.com.br