Projeto Tietê mobilizou a população de São Paulo através do Rádio

Geraldo Nunes

08 Janeiro 2015 | 13h21

4 de janeiro foi o aniversário de 57 anos da Rádio Eldorado que hoje tem um ramo a mais em sua história que é a Rádio Estadão, responsável agora pela cobertura jornalística. A mudança de nome, nessa área, foi uma estratégia de mídia embora a marca Eldorado permaneça vinculada à programação musical operando na freqüência de 107,3 MhZ, enquanto que a Rádio Estadão abraçou o tradicional 700 KhZ em AM e os 92,9 FM.

Para que a população paulistana despertasse para a necessidade de se ter rios limpos foi preciso um empurrão de dois milhões e meio de assinaturas obtidas pela Rádio Eldorado através de um abaixo assinado em 1990, um tempo em que ainda não havia internet nem as redes sociais. Toda a mobilização foi obtida graças às chamadas da emissora. Isto não pode ser esquecido. Sinto-me orgulhoso por ter feito parte dessa equipe, de ter saído às ruas pedindo assinaturas e de ter feito inúmeras reportagens sobre o tema. Tal iniciativa ocorrida a partir de 1990 veio sensibilizar o governo do Estado, que em 1992, após um sobrevôo comigo no helicóptero da emissora, o então governador Luiz Antonio Fleury Filho, deu início ao Projeto Tietê que aprimorava tentativas infrutíferas do passado.

Quando este rio, chamado pelos índios de Anhembi, morreu definitivamente para as competições esportivas, na década de 1950, começaram a surgir “remédios milagrosos” para ressuscitá-lo, mas nada foi além de palavras vãs. A primeira iniciativa foi um plano elaborado pela empresa americana Hazen & Sawyer, que previa uma estação de tratamento às margens da represa Billings, na zona sul de São Paulo, e mais três pequenas estações, algo coerente visto aos olhos de hoje pelo grau de poluição desta represa e de seu principal alimentador, o Rio Pinheiros, mas insuficiente para livrar a bacia do Tietê como um todo. De todo modo, nunca saiu do papel. Depois veio o Convênio Hibrace, uma união de três empresas que começaram a colocar em prática outro plano elaborado por uma consultoria americana, chamada Greeley e Hansen. Os americanos erraram feio na previsão do crescimento populacional, calculando que no ano 2000 a cidade de São Paulo teria 5 milhões de habitantes (na verdade passava dos 10 milhões). Mesmo assim, chegaram a ser construídas duas estações de tratamento primário dos esgotos, Vila Leopoldina e Pinheiros, que existem até hoje.

Um projeto ‘genial’ apareceu na década de 1970, com o nome de Solução Integrada. A ideia era canalizar todo o esgoto para coletores às margens dos rios e jogar a sujeira numa enorme lagoa de estabilização num vale da Serra da Cantareira, que margeia as zonas norte e oeste da cidade. Seria literalmente uma represa podre. Também não saiu do papel. Em seguida veio o Projeto Sanegran – Saneamento da Grande São Paulo, que aproveitava a idéia dos coletores ao longo dos rios, com a diferença de que o esgoto seria levado a três estações de tratamento — Suzano, Barueri e ABC. Chamado de faraônico na época, mas até coerente para os dias de hoje, embora também não abrangente na capacidade da bacia, previa uma estação gigantesca em Barueri com capacidade para tratar 60 metros cúbicos por segundo, esse projeto discutido durante o governo Paulo Egídio Martins e elaborado no final dos anos 70, arrastou-se por mais de uma década, amarrado por ações populares na Justiça, geralmente encaminhadas por vereadores paulistanos que eram contrários à obra, ora pela falta de verbas.

Enquanto se discutia, a quantidade de esgoto jogado ao rio, a poluição não parava de crescer. O atual Projeto Tietê, é um Sanegran revisado, com cinco estações de tratamento em lugar das três originais, e bem mais modestas. O Projeto Tietê hoje vive sua terceira fase a ser concluída em 2018 quando se espera ter de volta o oxigênio às águas que passam pela Grande São Paulo, embora o projeto tenha sido feito antes do alargamento da marginal e sem o aumento considerável da frota viária. Neste ano de 2014 de poucas chuvas, o mau cheiro do Tietê foi impressionante. Verdade também é que em Barra Bonita se voltou a pescar, algo que não acontecia mais há coisa de doze anos. A limpeza começou no sentido contrário. Daí a dizer que estaremos livres da poluição, isto parece ser um sonho ainda quase impossível.