Os novos personagens de Sampa II

Geraldo Nunes

29 Janeiro 2015 | 12h48

Caetano Veloso definiu em 1980 quando lançou seu grande sucesso, Sampa, que Rita Lee é a mais completa tradução do que é São Paulo. Antes, outra cantora ostentou o título, Isaurinha Garcia, pelo seu modo de ser e de falar com o sotaque todo macarrônico que adquiriu no bairro onde nasceu, o Brás. Sucessivamente os personagens vão mudando, mas o pano de fundo continua o mesmo, a cidade de São Paulo com suas contradições e prazeres.
Na semana passada embalado pelas comemorações dos 461 anos, comecei a falar dos personagens atuais que caracterizam a cidade e o primeiro foi João Lellis, o imigrante nordestino que chegou sem grandes planos e hoje comanda um trio de restaurantes, além de dar nome a outro do qual já foi proprietário. Agora apresentarei outras figuras.

Do grafite à arte em fachadas

Descobri Eduardo Kobra quando ele exibiu em um muro da Avenida 23 de Maio um belíssimo projeto que ele deu o título de “Muro das Memórias”. Na época o ex-prefeito Gilberto Kassab comandava o cumprimento da “Lei da Cidade Limpa”, contra a pichação e critérios para o tamanho das placas comerciais e prestigiou a inauguração do projeto, por tratar-se de uma obra de bom gosto. . Apesar de conhecido em outros países, Kobra diz que São Paulo é sua grande inspiração: “sempre antes de qualquer viagem faço questão de fazer alguma obra nas ruas de São Paulo. É a cidade que me inspira, onde tenho meus grandes amigos e referências”, afirma. Suas obras juntam nostalgia e modernidade, por meio de pinturas cenográficas.

O artista também desenvolve o projeto Greenpincel, onde mostra a destruição da natureza e a agressão aos animais, sobre o qual afirma. “se no Muro das Memórias mostro a beleza e convido à contemplação, no Greenpincel mostro o horror e convido para a tomada de posição e para a ação”. Ele é um expoente da neo-vanguarda paulistana dos grafiteiros surgidos na década de 1980.
Atualmente Eduardo Kobra tem sido procurado para decorar paredes de edifícios e também pintar restaurantes, bares e residências. Participou de várias edições da Casa Cor e da Bienal de Arquitetura de São Paulo. Nos últimos anos tem desenvolvido carreira internacional em murais como “O Beijo”, em Nova York, e “A Bailarina”, em Moscou.

O resgate do gosto pela mortadela

Os irmãos comerciantes José Maurício e José Carlos Freitas, descentes de portugueses, ficaram conhecidos por oferecer o sanduíche de mortadela mais nutritivo da cidade. Eles são os donos do Bar Mortadela Brasil inaugurado em 2004, no Mercado Municipal da Rua Cantareira, o conhecido Mercadão, que depois de uma grande reforma passou a ter um mezanino com uma praça de alimentação. Assim os lanches de mortadela que antes eram vendidos a quem trabalhava na região, ganharam fama junto ao segmento da classe média, pela simplicidade, pelo gosto e pela quantidade capaz de suprir em calorias a um almoço. Apaixonados por gastronomia e turismo, os dois irmãos visitam outros bares e restaurantes para buscar novidades e como diz um dos irmãos Freitas, o José Carlos, “para também dar dicas instigantes aos milhares de turistas que diariamente passam por São Paulo”. Ele acrescenta: “Nossos lanches e chope são ótimos, mas uma atração a mais é o Mercadão, um lugar diferenciado dos demais por todas as especiarias e ainda uma arquitetura maravilhosa dos anos trinta”.

O Mortadela Brasil recebe cerca de 600 pessoas por dia, entre apaixonados pelas delícias do bar e turistas do exterior e do Brasil, além das pessoas que visitam a Rua 25 de Março, conhecida no país todo pelos produtos de bazar e armarinhos. “Esses fazem da casa um ‘pit stop’ obrigatório dentro de um roteiro gastronômico inesquecível, que é o de visitar o Mercadão de São Paulo.
Mortadela Brasil – Rua da Cantareira, 306 mezanino Box 4. Tels: 11-3311-0024/3229-9457.

Goldfarb, um ativista cultural

José Luiz Goldfarb é professor de História da Ciência da PUC-SP e quem comanda o culto da sinagoga do clube “A Hebraica”. Ecumênico e versátil foi curador por 22 anos do Prêmio Jabuti e um dos idealizadores da campanha de doação de livros, iniciada no twitter, que chegou a 900 mil livros em quatro anos, além de coordenar os ETCs – Encontros dos Twitteiros Culturais. Agitador cultural de diversos programas de incentivo à leitura, passa também várias horas semanais ouvindo rádio para obter notícias do seu querido Santos Futebol Clube. Diz ele que desce a Santos para comer peixe e ver o Peixe na Vila. Orgulhoso, Goldfarb diz ter uma camisa do clube, que não deixa ser lavada, porque está autografada pelo Rei Pelé.

Este professor foi durante 18 anos sócio – proprietário da livraria Belas Artes, na Av. Paulista, a primeira a ter um café e espaço cultural, verdadeiro ‘point’ de políticos, artistas e intelectuais de São Paulo. Assume ser apaixonado pela cidade de São Paulo, especialmente pelo Itaim Bibi bairro onde nasceu, cresceu e nele acompanhou inúmeras transformações urbanas. “Foram mudanças algumas para melhor, outras nem tanto, mas no Itaim quero passar a minha vida inteira porque aqui, ganho inspiração e busco energias para prosseguir”. Ele observa São Paulo como uma metrópole dividida em pequenas aldeias que são os bairros e “graças a eles ainda encontramos espaço para a naturalidade de ter um habitat”.

Além de cuidar de seu próprio twitter (@jlgoldfarb), com cerca de 28 mil seguidores, Goldfarb coordena o @riodeleitores, com quase 8.800 seguidorese e o @etc_sampa. É coordenador do projeto #RedeMIS, do Museu da Imagem e do Som, onde desenvolve oficinas e debates, sempre com foco principal nas redes sociais.

Todos esses personagens da São Paulo de hoje servem de exemplo que a cidade continua rica na formação de valores humanos. Viva São Paulo e assim seja!

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