Os Novos Baianos ainda passeiam na garoa de Sampa

Geraldo Nunes

15 Dezembro 2014 | 05h54

Nos anos 1960 começou a crescer no Brasil o número de jovens com formação universitária e isto significou aumento no senso crítico aos valores tradicionais e contra o poder militar e econômico. Quase que no mundo todo viver em comunidade era um ideal de protesto e quem buscava essa forma de viver se recebia o nome de hippie. Usar roupas velhas e cabelos compridos virou regra e o lema “paz e amor” passou a ser a postura política dos hippies e também de um novo grupo musical surgido no final dessa década, Os Novos Baianos, nome escolhido para designar uma nova safra de baianos que surgia na música para conviver com os baianos que já faziam sucesso como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé, os chamados “tropicalistas”.

A história desse bando de jovens irreverentes e talentosos está sendo contada no livro, Novos Baianos – A História do Grupo que Mudou a MPB, de autoria de Luiz Galvão, poeta, membro-fundador e parceiro em várias letras do grupo. Lançado originalmente em 1997 com o título Anos 70 Novos e Baianos, se esgotou rapidamente e agora uma nova edição, publicada pela Lazuli Editora, foi toda reescrita, com novos capítulos e um apêndice com as letras das músicas gravadas pela banda, além da reprodução em miniatura das capas dos 14 discos lançados.

Tudo começa com uma garota chamada Bernadete que, nascida em Niterói, segue em férias para Salvador e lá faz amizade com dois músicos iniciantes Luiz Galvão e Moraes Moreira que a apresentam a outro amigo, Paulinho, cujo apelido era e ainda é, Boca de Cantor. Este por sua vez incorpora ao elenco Pepeu Gomes, único até então, músico profissional. Bernadete que já sonhava em ser cantora profissional tendo vencido um concurso de canto aos 14 anos, se integraria ao grupo com o nome artístico Baby Consuelo, mais tarde Baby do Brasil. Tom Zé, amigo de Pepeu, os inscreve no Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, de 1969 e no palco dessa emissora paulista o grupo defende a canção “De Vera”.

Este é só o começo da história, depois, chegaria junto a eles empresário Marcos Lázaro, que anuncia o primeiro long play, que leva o nome “É Ferro na Boneca”, e o disco, acreditem vendeu bem. Novo disco foi encomendado para 1971 quando então o grupo conhece outro baiano ilustre, João Gilberto, que sugere a busca dos caminhos de casa, ou seja, o samba da Bahia mesclada ao rock emergente. Dessa fusão de gêneros, sugerida por João Gilberto, a guitarra de Pepeu Gomes, aparece como o ponto mais consistente, tanto que o álbum “Acabou Chorare”, lançado pela Som Livre, em 1972, é considerado pela revista Rolling Stone, como o melhor disco brasileiro da história.

Alguns leitores poderão achar que foi exagero da revista, mas ouvindo faixa a faixa percebe-se a qualidade inovadora das canções que misturam samba, choro e rock n’ roll. Além disso, algumas das melhores canções dos Novos Baianos estão nesse disco como “Preta Pretinha”, inspirada em uma das musas de Luiz Galvão.

Morando em Juazeiro, na Bahia, onde ele também morava – Galvão jogava futebol de salão e era o artilheiro do Spartacus, time que além de pentacampeão possuía a maior torcida da cidade e namorar uma moça e paquerar uma outra era quase comum naqueles tempos. Assim, ele fez “Menina Dança”, para a namorada e “Preta Pretinha” para a paquera.

A influência de João Gilberto na banda porém, é sentida em, “Quando Você Chegar”, uma das mais belas e “Brasil Pandeiro”, é outra instituição nacional.

Luiz Galvão nos explicou em uma entrevista pelo telefone que as canções do grupo eram diferentes das dos tropicalistas. “Não tínhamos conotação política, o momento deles era outro, o do impacto do AI-5 e nós tivemos influência do movimento hippie, por isso nas nossas músicas buscávamos passar uma mensagem de paz e amor”, explica o autor avisando que a comunidade se desfez em 1979 após cada um de seus integrantes seguir carreira solo. A discografia deixada reúne outros trabalhos importantes que merecem citação como “Novos Baianos Futebol Clube”, “Caia na Estrada e Perigas Ver”, entre outros. Janete Galvão, produtora e esposa de Luiz Galvão comenta que Os Novos Baianos deixaram sua marca na história da MPB através das canções que se tornaram inesquecíveis como “Farol da Barra”, na voz de Baby Consuelo.

O livro traz imagens do acervo de fotografias pertencente a Luiz Galvão e vinte novas fotos do arquivo pessoal do fotógrafo Mario Luiz Thompson, que acompanhou o grupo durante toda sua trajetória, registrando tanto o lado profissional, em espetáculos, como a intimidade da comunidade em casa, com as crianças e nas peladas de futebol. “A pesquisa cresceu bastante, em relação a uma edição publicada dos anos noventa e está saindo com mais de 300 páginas mas a história ficou completa, desde o início da banda, em 1969, até os dias atuais; informa o autor acrescentando que foi rememorando tudo que a comunidade viveu e anotando e cita que não fez entrevistas com os outros integrantes para pode contar uma versão única sobre a história da banda. “Se outra pessoa fosse contar sairia diferente, cada um tem a sua visão dos acontecimentos”, disse Galvão revelando que eram pacíficos em relação à política, mas anárquicos na forma de se expressar fosse pela imprensa falada ou escrita, nas apresentações artísticas e nas aparições em público. “A vida em comunidade foi algo inédito entre os grupos musicais”, finaliza Luiz Galvão que como bom baiano decidiu depois de muitas andanças, fixar residência em São Paulo para assim passear em sua garoa quando ela ainda surge.