Os 250 anos de Bocage, o poeta de Setúbal

Geraldo Nunes

13 Abril 2015 | 06h34

Neste ano se comemoram em Portugal os 250 anos do nascimento de Manoel Maria Barbosa Du Bocage que, ao lado de Camões, figura no ponto mais alto da poesia lusitana. Bocage foi um crítico implacável da sociedade de seu tempo, se transformando no mais popular dos poetas portugueses. Sua vida foi repleta de aventuras e atribulações, tanto que, apesar do respeito que desfrutava nos meios literários, morreu na mais extrema penúria com apenas 40 anos e no momento mais criativo de sua curta existência. As comemorações contam com o apoio, na Pátria Mãe, da Câmara Municipal de Setúbal e do Centro de Estudos Bocageanos, cujo representante no Brasil é o jornalista João Natale Netto que integra a Academia Paulista de História.

A obra completa de Bocage, foi reunida em sete volumes pelo intelectual Daniel Pires, atual presidente do Centro de Estudos Bocageanos. Ele acredita que o Brasil, como país de língua portuguesa, participará desses comemorações com o envolvimento dos setores ligados à cultura e às artes, além dos acadêmicos e universitários, bem como das principais entidades literárias de todo o país, para as quais estarão sendo enviados os respectivos lembretes da tão nobre data a se dar em 15 de setembro.

Natale, é um dos maiores especialistas brasileiros em Bocage, depois que se analisa a obra desse artista lusitano, se chega à conclusão que ele foi vítima de sua fama e dos preconceitos da época. “A forma despojada de escrever, o senso crítico e o conflito existencial que ele estabelece, entre o amor físico e a morte, formam o seu modo poético de ser de maneira indelével e hoje de profundas raízes fincadas na literatura portuguesa”, comenta Natale apresentando de exemplo os seguintes versos bocageanos, “… Já, Bocage não sou!… à cova escura meu estro vai parar desfeito em vento… eu aos céus ultrajei o meu tormento… Leve – me torne sempre a terra dura….”

O jornalista entende que a maneira de escrever do poeta levou seu nome a figurar entre um número ainda expressivo de anedotas de péssimo gosto atribuídas a ele que lhe turvam, em parte, a monumental criação literária e cita o poeta brasileiro Olavo Bilac como grande admirador de Bocage e que este, em vida, já lamentava com tristeza o fato do poeta português ser visto como um humorista, em vez de um crítico social de sua época, conforme palestra proferida em março de 1917, no Teatro Municipal de São Paulo. “Essa palestra de Bilac, diga-se de passagem, foi de tal importância que a Junta Distrital de Setúbal a incluiu no volume histórico que publicou em 1965, para comemorar o 2º centenário do nascimento de Bocage”, explica o jornalista lembrando que no Brasil, Bocage sempre foi tratado com respeito pelos intelectuais a ponto de em 1870, através de uma campanha, terem sido levantados os fundos necessários para a construção do magnífico monumento que o homenageia no centro de Setúbal, sua terra natal.

João Natale Netto espera agora esse mesmo respeito por parte dos brasileiros nas comemorações dos 250 anos do nascimento do notável Bocage, cujos momentos mais altos das festividades ocorrerão durante todo o mês de setembro deste ano. Para promover os eventos ele corre ainda atrás de patrocinadores. Finalizando, leia Bocage descrevendo a si mesmo.

Autorretrato

“Retrato gravado a buril e água-forte por Joaquim Pedro de Sousa
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais, letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.”

— Bocage