O cinema brasileiro tem história no Jaçanã

Geraldo Nunes

17 Janeiro 2015 | 16h55

Durante os anos 1950 São Paulo se transformou no maior pólo cultural e intelectual do país, por atrair pessoas de todos os tipos e e países do mundo. Entre os jovens a proposta de fazer cinema como nos Estados Unidos era um sonho que alguns quiseram tornar realidade, entre eles, Mário Boeris Audrá Júnior, falecido em 2004, hoje uma lenda, entre os apreciadores do cinema nacional feito com arte e profissionalismo. Sua ideia era produzir filmes a baixo custo, aliando qualidade com economia. Para que tudo ocorresse dessa maneira procurou alugar os equipamentos e não comprar, buscando também o máximo possível de tomadas externas e abrindo os estúdios a co-produções, coisa que outras companhias como, por exemplo, a Vera Cruz, de São Bernardo do Campo, se recusava a fazer, subsistindo com o capital investido pelos seus fundadores, entre os quais Ciccillo Matarazzo. Assim a lucratividade única e exclusiva era com a venda dos filmes e o sucesso nas bilheterias. “Por esses e outros motivos a Vera Cruz fechou cedo”, avaliava Audrá.

Aberta a parcerias, a Companhia Cinematográfica Maristela nasceu com nome inspirado em uma sobrinha ainda menina, que Mário Audrá queria bem. A primeira dificuldade encontrada por “Marinho”, como também era conhecido nas rodas de cinéfilos, foi encontrar um lugar para instalar seus estúdios. Por causa disso e meio por acaso, o Jaçanã entrou para a história do cinema. Afastado do centro, o bairro oferecia grandes lotes a um custo baixíssimo. Melhor ainda foi o fato de uma antiga fábrica estar fechando suas portas, possibilitando ao novo empresário do cinema comprar, em vez de apenas um terreno, uma construção já pronta que possibilitava a instalação dos estúdios de maneira quase imediata. Uma das parceiras da companhia foi a TV Record que emprestava seus atores como Durval de Souza, Chocolate, Maria Thereza e Adoniran Barbosa a vários filmes que deste modo promoviam a emissora da família de Paulo Machado de Carvalho.

Como a ideia era gastar pouco, as externas eram feitas nas ruas do Jaçanã tendo como fundo edificações conhecidas da região, como a fachada do hospital São Luiz Gonzaga, ou ainda a antiga estação do velho trenzinho da Cantareira. Mário Audrá afirmava que a música “Trem das Onze”, maior sucesso do compositor Adoniran Barbosa foi composta certamente pelas idas e vindas dele ao bairro, uma vez que também ator, mas boêmio por excelência, Adoniran dispensava o carro que conduzia os atores do centro até o Jaçanã para muitas vezes seguir de trem até os estúdios. “Nestas idas e vindas no trenzinho, que por sinal era muito charmoso, deve ter surgido a inspiração para compor o famoso samba”, contou certa vez Audrá.

A chegada da Companhia Cinematográfica Maristela ao Jaçanã, possibilitou também que moradores do bairro se tornassem funcionários da empresa, como no caso do fotógrafo José do Amaral, já falecido, cuja família mantém o acervo de fotos tiradas por ele durante várias filmagens. “As costureiras, porteiros, cozinheiros e até continuístas eram pessoas da vizinhança”, lembrou o antigo empresário em depoimento, salientando que mesmo assim precisou buscar no exterior, a mão-de-obra especializada. “Da Argentina trouxemos maquiadores, editores e câmeras, porque na época os portenhos também faziam um bom cinema. Mais tarde húngaros, mexicanos e italianos trabalhariam conosco nos estúdios do Jaçanã.

Nunca foi fácil fazer cinema no Brasil, mesmo assim em oito anos, a Maristela produziu quinze filmes de longa metragem, alguns de grande sucesso como “O Comprador de Fazendas”, recorde de bilheteria, “onde a procura do público de tão grande causou tumulto na porta de alguns cinemas”, informou Audrá em entrevista que nos concedeu pela Rádio Eldorado, em 2000, onde salientou à época que o grande atrativo de seus filmes era o elenco constituído de nomes conhecidos, como os de Procópio Ferreira, Tônia Carreiro, Ruth de Souza e além destes um principiante que depois ganharia fama, Carlos Zara. Procópio que era pai de Bibi Ferreira e foi o protagonista de “Quem matou Anabella?”, interpretando um detetive nesta produção, cuja estrela foi Ana Esmeralda, atriz de renome no cinema nacional e casada com Audrá até o fim de sua vida.

Mesmo com sucesso no resultado das produções, não foi possível se impedir que a Cinematográfica Maristela fechasse suas portas oito anos depois da inauguração, “pelo fato de esbarrarmos sempre em barreiras impostas pelo próprio governo brasileiro que além de não liberar nenhum tipo de verba, ainda obrigava o tabelamento dos ingressos”, lamentou o produtor cineasta, explicando que para se assistir a um filme premiado norte-americano com o Oscar, o público pagava pelo ingresso, o mesmo valor pago para assistir a um filme brasileiro. “Não poderíamos dar desconto, nem se quiséssemos”, acrescentando que desta forma o governo federal obrigava os produtores brasileiros a concorrer diretamente com o cinema norte-americano tornando o processo inviável. “Quando um filme norte-americano chega ao Brasil, ele já está com os custos de produção praticamente pagos”, disse. “Daqui eles só tiram lucro da bilheteria enquanto que nós, que não dispomos do mercado que eles possuem, dependemos unicamente do nosso público e, muitas vezes no passado, valia a pena cobrar menos, para lotar um cinema”, definia o dono da Maristela, cujos estúdios, não mais existem. “O lugar foi demolido e parte do terreno hoje dá fundos para algumas casas que surgiram depois do fechamento da companhia, hoje restam somente as lembranças dos mais antigos moradores”, conta Sílvio Bittencourt informando que Mário Boeris Audrá Júnior, faleceu em 2004 e que antes de morrer deixou um depoimento gravado em DVD para o Museu de Memórias do Jaçanã, organizado por ele e disponível também no youtube sob o endereço: www.youtube.com/watch?v=gUXapLCeQXA

Para manter a produtora que criou no contexto histórico do cinema nacional, Mário Audrá Júnior escreveu o livro: “Cinematográfica Maristela – Memórias de um Produtor”, da editora Silver Hawk.Ler este livro é também um convite a quem quiser saber um pouco mais da história do cinema feito em São Paulo, em especial no bairro do Jaçanã.