Lina Bo Bardi, música, poesia e arquitetura

Geraldo Nunes

19 Dezembro 2014 | 08h54

Uma italiana de nome Achilina Bo, nasceu em Roma em 1914 e se formou arquiteta durante a segunda guerra, período em que também foi militante do partido comunista e combateu o fascismo de Mussolini, mas foi o Brasil a Pátria escolhida para viver.Chegou ao país em 1947, acompanhando o marido Pietro Maria Bardi, convidado pelo empresário Assis Chateaubriand para criar o Museu de Arte de São Paulo que funcionou primeiro na Rua Sete de Abril e só depois se transferiu para a Avenida Paulista, em um prédio projetado pela arquiteta que é considerado verdadeira obra prima de reconhecimento mundial. Os mais jovens talvez não saibam, mas o prédio do Masp, possui um vão livre de 75 metros, ou seja, de um extremo ao outro do edifício, não uma pilastra sequer, nenhuma viga de sustentação e tudo construído sobre um aterro por onde passam os dois túneis da Avenida Nove de Julho.

Outra obra grandiosa projetada pela arquiteta italiana que no Brasil passou a usar o nome Lina Bo Bardi, é o Sesc Pompeia, uma oficina cultural criada dentro de uma antiga fábrica. O prédio instalado na Rua Clélia, 93 tem todos os móveis do teatro e do centro de convivência projetados por ela.
Nascida em um 5 de dezembro, naturalizou-se brasileira em 1951 e se ainda estivesse viva teria completado 100 anos. Na Bahia, dirigiu o Museu de Arte Moderna de Salvador e fez o projeto de recuperação do Solar do Unhão. Apesar da importância de suas obras Lina Bo Bardi nunca demonstrou orgulho em ter projetado o Masp. Ela dizia que a família proprietária do terreno exigiu que houvesse uma construção nos moldes do belvedere que antes ocupava aquele espaço que permitia uma ampla visão do centro da cidade. “Minha preocupação passou a ser não com a beleza do edifício, poderia ser feio, desde que fosse útil aos usuários”, dizia ela sobre o formato retangular da construção. Os especialistas, no entanto, não se cansam de elogiar Lina Bo Bardi. Para o arquiteto Marcelo Ferraz, a importância dela está em transferir para a arquitetura um olhar antropológico. “Que é aquele de antever como se dará o convívio das pessoas com aquilo que está sendo construído”. Lina Bo Bardi morreu em 20 de março de 1992, aos 78 anos. No dia seguinte o jornal O Estado de S. Paulo publicaria: Morre Lina Bo Bardi, poeta da arquitetura.

Para comemorar seu centenário, o Instituto Bardi reuniu várias iniciativas entre exposições e eventos também no decorrer de 2015. Para acessar: www. instituto bardi .com .br e até uma música foi composta para Lina Bo Bardi, por Adriana Calcanhotto, a partir de um poema de Waly Salomão, que escreveu uma passagem interessante sobre a arquiteta. “A Lina me pediu que eu retribuísse pela Bahia com um poema para a sua obra da Fundação Gregório de Mattos, em Salvador. Infelizmente, eu não consegui fazer enquanto ela vivia, porque o poema não tem essa encomenda; só uns anos depois realizei ‘A Fábrica do poema’, pensando nos materiais que ela usava, pensando na fábrica do Sesc Pompeia. E eu fiz intencionalmente esse poema anti-musical, anti-facilidade, de forma que as palavras não fossem palatáveis, digeríveis, musicáveis e aí Adriana Calcanhotto, que estava na época interessadíssima na Lina Bo Bardi, foi avisada de meu poema por Susana Moraes, filha do grande Vinicius – nós somos todos filhos de Vinicius de Moraes!– me pediu o poema e eu enviei por fax totalmente descrente de que ela pudesse musicá-lo, porque tinha introduzido espinhas de peixe na garganta da palatividade. Por incrível que pareça Adriana musicou a letra de forma maravilhosa, e eu, para fazer pirraça aumentei intencionalmente o poema…” Waly Salomão, foi poeta e Secretário Nacional do Livro e Leitura, nasceu em 1943, na cidade de Jequié – BA e notabilizou-se por escrever poemas depois musicados em gravações de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Cazuza, Lulu Santos e João Bosco, entre outros. Morreu em 2003.

Fábrica do Poema – letra: Waly Salomão
Música: Adriana Calcanhotto

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oximoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

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