Guilherme de Almeida chamava São Paulo de cosmópolis

Geraldo Nunes

28 Abril 2014 | 00h58

Recebi de um amigo, Ademir Medici, um livro que ele obteve com o ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Tito Costa, 91 anos e agora um estudioso de assuntos e personagens da história recente.

Escrito pelo poeta Guilherme de Almeida, a obra reúne um conjunto de crônicas sobre os bairros de São Paulo, feitas em 1929 para o jornal O Estado de S. Paulo, que as publicava nas edições de domingo. A coluna tinha o título Cosmópolis e a Companhia Editora Nacional republicou o trabalho, em 1962, para a venda em livrarias.

Integrado ao movimento modernista se notabilizou como poeta da Revolução Constitucionalista de 1932 na qual também foi combatente. Sua grande obra de amor a São Paulo é o conhecido poema “Nossa Bandeira” que se inicia… “Bandeira da minha terra, bandeira das treze listas, são treze lanças de guerra, cercando o chão dos paulistas…”

Nascido em Campinas, a 24 de julho de 1890, Guilherme de Almeida foi também advogado, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e tradutor. Escreveu a letra do “Hino Constitucionalista de 1932/MMDC” e a belíssima letra da Canção do Expedicionário – “pelos campos que eu percorra, não permita Deus que eu morra sem que volte para lá…” Sua morte aconteceu em 1969 após completar seus 79 anos e está sepultado no Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932, no Parque do Ibirapuera. Entre seus livros está Cosmópolis,  palavra cujo significado designa a concentração de pessoas de todo o mundo em uma só cidade, uma publicação de 1962 da Companhia Editora Nacional, reunindo as crônicas sobre os bairros que ele  escrevera décadas antes.

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A leitura aos olhos de hoje impressiona pela transformação da cidade nesses 85 anos, a ponto de algumas referências terem se perdido no tempo, como os letões, estonianos e húngaros que viveram em São Paulo e deles e suas tradições hoje quase não se sabe mais nada. Já não há mais uma moradia, uma identidade que os caracterize, como era o caso da Vila Anastácio, no passado.

“Confusão báltica” 

“Esthonia (com ‘h’?)… Lettonia (com dois ‘tt’?)… Lituânia (sem ‘h’?)… Tudo confuso.,Onde? Na Europa Oriental? No Báltico? No golfo de Finlândia?… Tudo confuso. E a confusão escura da minha geografia caminha comigo, no lusco-fusco de um crepúsculo dúbio, pelos barulhos da Rua Guaicurus, caminho de Vila Anastácio, porta de São Paulo, bairro da gasolina. Postos claros e bombas vermelhas… Barulho confuso, de autos, bondes e trens, sob o nariz de São Paulo – o Jaraguá – cheirando de longe o cheiro da gasolina queimada, do ozone, da Logjht e da fumação de carvão – de – pedra…” (07 de abril de 1929)

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Imigrantes húngaros já estiveram em grande número no Alto da Mooca onde ficaram reminiscências apenas dos italianos.

“Rapsódia Húngara”

“Rosa-dos-ventos. Alto da Mooca. É aqui em cima moram todos os ventos de São Paulo. Rua do Oratório: que não é rua e não tem nenhum oratório. Uma subida alongada, cansada,arrastada. Vai, não vai… Em segunda não vai. Em primeira; vai. Foi. Pronto! O bairro húngaro de São Paulo. Domingo, o céu está azul e a terra está seca. E venta e venta no céu e na terra. Rosa-dos-ventos. Dos pneus sobe uma nuvem vermelha que fica atrás, morrendo. O meu cigarro dura um minuto só, todo fumado pelo ar inquieto da altura. De poste a poste os fios dançam, sem expressão, a sua dança bamba e paralela. Rosa-dos-ventos. O bairro húngaro de São Paulo….” (10 de março de 1929)

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 Em 1912 os imigrantes orientais começaram a se mudar para a Liberdade e a primeira rua escolhida foi a Conde de Sarzedas, uma ladeira íngreme cujo final dava em um riacho e uma área de várzea. Perto dali permanece de pé a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, construída no século XVIII e venerada pelos mais pobres. Curiosamente o autor não cita o nome do bairro.

 “O bazar das bonecas”

 “Japonerie: uma lista de preços de gêneros – giz branco no quadro-negro – escrita em japonês. Um avanço mais pela Rua Conselheiro Furtado e a Rua Conde de Sarzedas rasga, sobre os telhados pretos, velhos, tristíssimos, da Rua da Boa Morte, lá embaixo, o seu corte íngreme e reto. Telhados da Boa Morte… Que ar de Semana Santa, que quietude de defunto, que recolhimento de família enlutada, que roxa lembrança do ‘finado Fagundes’ (tenho a impressão de que na Boa Morte todos os homens se chamam Fagundes e são finados) vivem pasmadas, ali, sobre e sob aqueles telhados pretos, velhos, tristíssimos da Boa Morte…”(17de março de 1929)

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 A rua Santa Ifigênia, especializada na venda de produtos elétricos e eletrônicos, é uma marca registrada de São Paulo mas só durante o dia, porque à noite a clientela é outra.  Talvez seja essa a única referência boêmia que restou ao bairro do mesmo nome, ainda que decadente e degradante, bem diferente, por sinal,  da espécie de Vila Madalena do início do século XX que foi Santa Ifigênia, lugar preferido dos imigrantes alemães.

 “Chope Duplo”

 “O relógio alemão dos beneditinos, marcando 11 longos roncos de bronze, encheu de fantasmas a noite. As almas seráficas dos pacientes relojoeiros de Strasburgo voaram das pedras bizantinas de São Bento nas notas do cobre temperado. Já passaram espantadas, um viaduto atirado, como um arco – de -aliança de igreja a igreja. Roçaram o românico cinzento de Santa Efigênia, ficaram no ar, um instante, rondando, pasmadas… É o bairro rasteiro dos bares. É o bairro dos pianos. É o bairro alemão. É o bairro do chope. Em cada bar há um piano. Em cada piano há um alemão. Em cada alemão há um chope. Dois chopes duplos. Vinte chopes duplos…” (24 de março de 1929)

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O Bom Retiro, entretanto, manteve suas referências embora  acrescido de outras comunidades de imigrantes.

O “guetto”.

Quarta-feira de trevas. Senti subitamente essa verdade de calendário litúrgico quando o automóvel atravessou uma nuvem suja, quase compacta, que subia dos trilhos para a ponte de ferro marrom da Estação da Luz. Treva: uma treva amarelada, com um cheiro forte de carvão-de-pedra, e toda cortada de apitos, escapou dos dois lados da ponte, enovelou- se no ar, caiu na rua e asfixiou o carro. Quando a nuvem suja se esgarçou toda, puxada por um vento quente e horizontal, já começava a tremer, na tarde escura, o filme da Rua José Paulino. Baixa, comprida e cheia. De todos os lados, casas de roupas-feitas, casas de móveis e pelerias. Como eu venho do Centro, os seres que rodam pelas calçadas, de volta do trabalho e que vão no mesmo sentido em que vou, não têm caras e para mim têm só costas. Costas diferentes, pequenas e grandes, claras e escuras, rápidas e vagarosas, direitas e arqueadas… – aquelas costas nas quais o dia bem trabalhado pesa com uma cruz…”(31 de março de 1929)

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Ao todo oito crônicas compõem livro Cosmópolis.