Eu vi Adoniran Barbosa

Geraldo Nunes

31 Dezembro 2014 | 05h39

Eu vi de perto e fiquei ao lado do compositor de “Trem das Onze” e “Saudosa Maloca” pessoalmente, foi em 1979, na redação da Rádio Jovem Pan, eu trabalhava lá. Adoniran gostava de visitar as emissoras e, naquele dia, procurei me aproximar para ter certeza que sua voz era mesmo rouca. Me diziam que ele fazia tipo porque se tornou famoso interpretando naquela maneira de falar um personagem chamado “Charutinho”, em antigos programas de rádio e de TV. Cheguei até ele e Adoniran foi me pedindo que lhe fizesse uma ligação, “porque me atrapalho com os números”, justificou. Naquele tempo os aparelhos telefônicos eram unicamente fixos, não tinham teclas, somente um disco giratório com os números.

Depois fiquei sabendo que quando se dirigia a alguma cantina do Bexiga para almoçar, Adoniran seguia depois até a Rádio Eldorado que ficava na Rua Major Quedinho, e ali fazia a “cesta” dormindo em um sofá no corredor de entrada da emissora. Este sofá virou relíquia e permanece conservado na atual sede da Eldorado FM 107,3, no bairro do Limão, levando uma placa com os dizeres: Sofá do Adoniran.
O produtor musical Zé Nogueira, que já trabalhava na emissora nessa época, conta que o compositor não só dormia como roncava neste sofá. “Os funcionários já estavam acostumados com ele e até passavam de mansinho para não perturbá-lo”, explica. Nogueira se lembra que os problemas começavam depois, quando ele acordava. “Então, era um tal de pedir as coisas, primeiro cafezinho e depois cigarro”. É que ele estava proibido pelos médicos e pela esposa Matilde de fumar, por causa de um enfisema pulmonar. Então, só fumava escondido. “Se comprasse teria que aparecer com o maço em casa e isto já era motivo de briga”, recorda Nogueira acrescentando que o compositor adorava passar trotes pelo telefone e ligava da Eldorado para a casa dos amigos. “Ele falava alguma asneira, desligava rapidamente o aparelho e depois ria pra valer”. Quando o relógio apontava cinco da tarde, Adoniran saia do prédio da Eldorado e ia para um restaurante ao lado, o Mutamba, que já não existe mais e ali ficava com os amigos no mais tardar até nove da noite conversando. Depois ia para casa, justificando que ainda era boêmio, mas em final de carreira. “Mesmo assim foi ali que ele compôs, com Carlinhos Vergueiro, uma de suas últimas canções: Torresmo à Milanesa”, completa o produtor musical da Eldorado.

Adoniran Barbosa, durante boa parte de sua carreira artística atuou como ator, por isso sabia ler e escrever muito bem e tinha boa caligrafia. Dizia que é preciso saber falar errado, e “prá escrevê uma boa letra de samba a gente tem que sê em primeiro lugá anarfabeto”, brincava. Em 1953 durante as gravações do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, onde atuou como coadjuvante, Adoniran conheceu os integrantes do conjunto Demônios da Garoa e daquele encontro surgiu uma grande amizade, visto que este grupo vocal e instrumental acabou dando forma ao “jeito de ser” dos sambas de Adoniran, gravando e fazendo os arranjos de seus principais sucessos: Tiro ao Álvaro, Joga a Chave, Samba do Arnesto, As Mariposas e a melhor de todas, Trem das Onze, campeã do carnaval de 1965. “Não posso ficar, nem mais um minuto com você, sinto muito amor, mas não pode ser. Moro em Jaçanã se eu perder esse trem que sai agora, às 11 horas, só amanhã de manhã…”. Entendo que os Demônios da Garoa aprenderam a “falar errado” com Adoniran Barbosa e vice-versa.

Em seis de agosto de 2010 foram comemorados os 100 anos de nascimento do grande Adoniran. Lembro-me das homenagens dessa data e do lançamento do livro Adoniran Barbosa, Uma Biografia, de Celso Campos Junior e também de sua despedida em 23 de novembro de 1982, semanas depois de ele ter ido ao Morumbi onde recebeu de presente a camisa oito do jogador Sócrates. O Corinthians seu time predileto, havia sido campeão paulista.