As sete meninas da Casa Verde

Geraldo Nunes

21 Abril 2014 | 14h47

Até 1947, cerca de cinqüenta ruas da Casa Verde tinham nome de mulher. Eram as ruas Adelaide, Amélia, Célia, Elza, Gilda, Helena. Dessas, apenas sete mantém a denominação original, ou seja, Antonieta, Dulcelina, Lucila, Olímpia Rudge, Paulina Rudge, Orminda e Zilda. Não se sabe direito porque os loteadores escolheram esses nomes, mas pode ser por causa das sete meninas que moravam numa Casa Verde no centro e passavam suas férias no bairro, isso há muito tempo.

Na passagem do século XVIII para o XIX, sete meninas costumavam passar os finais de semana em uma chácara, de propriedade do Tenente General José Arouche de Toledo Rendon, de quem eram irmãs. O referido militar foi pessoa importantíssima em São Paulo. Além de ter inúmeras propriedades foi o primeiro diretor da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e hoje dá nome ao Largo do Arouche.

Da casa sede desta chácara, localizada às margens do Rio Tietê, onde hoje está o bairro da Casa Verde, nada ficou, a não ser a lenda de que a casa teria a cor que hoje dá nome ao bairro, o que não é correto, pois a verdadeira casa verde ficava no centro da cidade, onde moravam essas sete meninas, mais propriamente na travessa do Colégio, hoje Rua Anchieta.

Paulo Cursino Moura, em seu livro São Paulo de Outrora, aponta que as sete irmãs chamavam a atenção porque eram graciosas e atraentes: “Eram pudicas, recatadas, olhos baixos de soslaio rapidíssimos, inquietos aos primos sedutores, de anquinhas gorduchas em adoráveis saias balão”.

Cursino Moura conta, ainda, que “as meninas partiam em revoada aos finais de semana ou feriados”.

Quem sabe o que faziam  naquelas bandas?  Com certeza, banhavam-se nas águas do Tietê, ainda livre, limpo e curvilíneo; desfrutavam da equitação e de tudo aquilo que a natureza quase intocada pode oferecer. Oficialmente, no entanto,  ninguém jamais poderá responder. Sabe-se que as meninas eram vítimas dos boquejadores, aquelas pessoas cuja maior diversão, é falar da vida alheia. É que os passeios das meninas despertavam a curiosidade na pacata São Paulo.

No burgo paulistano, do Pátio do Colégio e do Triângulo,  comentava-se que as meninas faziam muita algazarra quando saíam e quando voltavam. Viviam felizes,  rindo. Essa alegria despertava a inveja dos alcoviteiros, que faziam comentários maldosos nas boticas e nos armazéns: “Lá vem as meninas da casa verde”, diziam com ironia.

Como as noticias correm, o povo da roça, onde as meninas passavam os finais de semana também ficava de olho nelas para depois poder falar das “meninas da casa verde”.

A verdade é que nenhuma casou. Isso mesmo, todas elas morreram solteironas, talvez porque falassem demais delas, diga-se de passagem sem o menor fundamento. Ernani da Silva Bruno explica em seu clássico da literatura paulista, História de Tradições da Cidade de São Paulo – Volume I, que por serem solteiras, “as irmãs viviam do dinheiro de aluguéis e da lavoura da chácara… na casa onde moravam, no centro,  as sete irmãs fiscalizavam o trabalho de 39 escravos, entre homens e mulheres.”

Quem eram elas: Caitana, Ana, Pulquéria, Maria Rosa, Gertrudes, Joaquina e Rudesinda.

Todas,  irmãs do tenente – general José Arouche Toledo Rendon, um dos mais notáveis cidadãos de sua época. Em São Paulo foi tudo de importante que alguém poderia ser. Entre alguns cargos destaca-se o de primeiro diretor da Academia de Direito do Largo São Francisco, cargo que ocupou entre 1828 e 1833, e o de constituinte da Carta Magna redigida no Primeiro Império. Em outras palavras; o tenente – general Arouche era muito influente,  e de algum modo, não se sabe porque, institucionalizou o celibato na família, pois nenhuma das sete meninas se casou.

O sítio para onde se refugiavam as mocinhas pertencia ao irmão delas, o “todo poderoso” Arouche Rendon,  que no entanto,  não foi o primeiro possuídor de terras no além Tietê. Um levantamento de Eduardo Britto no livro São Paulo tem a Casa Verde, dá conta que “Amador Bueno da Ribeira, o Aclamado, juntamente com o pai Bartolomeu Bueno, receberam três concessões de sesmarias, que iam de Guarulhos até o Limão.”   A sede da fazenda dos primeiros proprietários se localizava onde é hoje o cruzamento das ruas Zanzibar e Kiel, na Casa Verde Baixa, ponto aliás por onde passava o Tietê, três séculos antes de sua retificação. Com a morte de Amador Bueno, toda a região foi sendo passada a sucessores.

Em 1750 Maria Tereza Araújo Lara, tetraneta de Amador Bueno, casa-se com Agostinho Delgado e Arouche. São eles os pais das sete meninas da Casa Verde e de mais quatro varões entre eles o tenente general José Arouche de Toledo Rendon, de saudosa memória.

Caitana, (assim mesmo com “i”) a mais velha entre as sete, nasceu em 1752. Ela é uma das irmãs remanescentes quando da assinatura de documentos relativos à transferência das terras, em 1830. Tinha ela 78 anos. Outra informação,  é que das sete irmãs, duas morreram bem novas.  “Entre 1830 e 1857 há um hiato de escrituras”, conforme  Aureliano Leite em Pequena História da Casa Verde,  também apontando que, em 1857,  as terras do sítio das sete meninas já aparecem no nome de Francisco Antonio Baruel, que, em seguida as vende para o tenente coronel Fidélis Nepomuceno Prates. De lá até 1882, passam por mais quatro proprietários até serem adquiridas por João Maxwell Rudge, que morre em 1897. Seus filhos, do primeiro casamento, Horácio, Olímpia, Ana, Luíza e Paulina Vergueiro Rudge, decidem lotear o sítio com o nome de Vila Tietê. O nome não vingou e a região que já estava conhecida pelo nome Casa Verde, em razão das sete meninas, ficou definitivamente com esse nome.

Em São Paulo tem a Casa Verde, o autor Eduardo Britto dá conta que “algumas informações equivocadas de antigos moradores,  apontam que o nome do bairro deriva de uma antiga casa que serviu de sede a um sítio pertencente a João Maxwell Rudge,  demolida por volta de 1963”.  No lugar hoje está um supermercado, mas a casa, é bom ressaltar, não pertenceu à família das sete meninas, que viveram em um período bem anterior.

O falecido  jornalista Ary Silva, proprietário do jornal Gazeta da Zona Norte, garantia que a Casa Verde era mais importante politicamente que Santana até a inauguração do Metrô. “Todos os políticos preferiam fazer comícios na Casa Verde porque em Santana havia menos gente”.

A Casa Verde  começa com a Ponte da Casa Verde, na Marginal do Tietê, fazendo divisa com Santana, pela Avenida Brás Leme e pelo Campo de Marte. Segue pela Avenida Engenheiro Caetano Álvares., onde faz divisa com o Limão.  Por ruas pequenas limita – se também  com a Vila Nova Cachoeirinha, com o  Mandaqui e o Imirim. No cruzamento da Avenida Imirim com a Engenheiro Caetano Álvares, a Casa Verde volta a fazer divisa com Santana. O Parque Peruche está dentro da Casa Verde e sem nenhum demérito, é um sub – distrito do bairro. O boxeador Éder Jofre morou no Peruche e outros esportistas residem na região, como o campeão olímpico Ademar Ferreira da Silva e os corintianos Solito e Basílio, porque o bairro teve muitos times de várzea. Vale citar: Corinthians da Casa Verde, Paulista, Universal, União Casa Verde,  Democrático, São Paulinho, 21 de Abril,  Benfica, o Az de Ouro, Vasco da Gama da Casa Verde e a Ponte Preta.

Com o crescimento do bairro, os campos de várzea foram se extinguindo, mas a bola nem por isso parou de rolar.  Uma das poucas áreas que permanecem para o futebol amador é a que fica ao lado do Campo de Marte. Ali existem cinco campos de futebol, em um terreno de propriedade do Ministério da Aeronáutica. Os clubes que ali jogam são os seguintes: Cruz da Esperança,  Baruel Futebol Clube, Pitangueira e Empresa Saade. Feliz do bairro que ainda mantém campinhos e seus clubes.