Anchieta agora pode ser venerado na semana santa

Geraldo Nunes

17 Abril 2014 | 00h09

O padre José de Anchieta que ajudou a fundar a cidade de São Paulo é santo no entender da Igreja Católica desde 3 de abril de 2014,  por decisão do papa Francisco, que dispensou a comprovação de um milagre recente, dispositivo normalmente exigido.  Nascido em Tenerife, nas Canárias e, portanto espanhol, Anchieta passou a ser o terceira santo a ter laços estreitos com o Brasil, seguindo o caminho de Madre Paulina, natural da Itália e santificada em 2002 e pelo Frei Galvão – este genuinamente brasileiro de Guaratinguetá (SP) – proclamado santo Antônio de Sant’Anna Galvão, por Bento XVI, que visitou seu santuário pessoalmente em 2007.  Esses predecessores tiveram milagres recentes reconhecidos pelo Vaticano.  Do padre Anchieta, foram colocados no processo de canonização relatos deixados há mais de 400 anos apontando esses feitos e Francisco decidiu canonizá-lo por seu trabalho missionário feito no Brasil, principalmente de catequização dos índios no período de colonização, além da organização de missões jesuíticas em diversas partes do país.

Nascido em 1534, era filho de pai basco e mãe natural daquelas ilhas. Com 14 anos seguiu a Portugal para estudar em Coimbra e lá conheceu a Companhia de Jesus, da qual passou a fazer parte em 1551, dois anos antes de embarcar para o Brasil numa expedição de missionários portugueses. Eram tempos em que o fundador dessa entidade evangelizadora, o militar convertido ao cristianismo Inácio de Loyola, ainda vivia. Sob comando do padre Manuel da Nóbrega, o então noviço José de Anchieta, partiu de Portugal em missão de catequese para as novas terras lusitanas. Logo demonstrou facilidade em entender e se comunicar com os índios a ponto deles ensinarem somente ao padre a maneira mais fácil para se subir a Serra do Mar. Naqueles tempos em que não havia estradas, subia-se a serra de cócoras, agarrando-se nas pedras. O traçado ensinado aos demais jesuítas passou a ser chamado de “Caminho do Padre José” passando em locais onde hoje estão parte da Calçada do Lorena e da Estrada Velha São Paulo – Santos (SP- 148).  Em Piratininga ajudou a fundar o primeiro colégio de jesuítas no Brasil, no ano de 1554, data da conversão de São Paulo, 25 de janeiro. Ele ensinava a língua portuguesa aos indígenas e aprendia com eles a falar o tupi – guarani. Chegou a escrever um dicionário desse dialeto para a compreensão dos demais padres. Ouvia os pajés e aprendeu com eles a lidar com as ervas medicinais que ajudavam amenizar dores causadas pelas feridas provocadas pela varíola, doença que assolava fortemente o Brasil colonial.

Foi assim ganhando fama de milagreiro. “Até morto ele ressuscitou, mas na verdade reanimou um menino que os nativos consideravam já morto”, escreveu José Maria Mayrink, em um artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, acrescentando que “de todo modo, foi o ‘milagre’ mais estupendo do missionário que também dominava as ondas do mar, desviava tempestades, amansava animais ferozes, previa acontecimentos futuros e curava qualquer tipo de doença”. Foram tantos os testemunhos e tão grande a lista de fatos extraordinários atribuídos ao jesuíta que a Igreja dispensou a comprovação de um milagre mais recente, quando a Congregação para a Causa dos Santos deu o sinal verde à beatificação. Mas só depois de João Paulo II ter dado a Anchieta o título de beato, em 1980, que uma família relatou uma graça alcançada 20 anos antes, a recuperação de uma menina, hoje médica, que nasceu sem um osso no calcanhar. Houve também o testemunho de uma mulher que atribuía ao beato o desaparecimento quase instantâneo de um câncer no rosto, após ter pedido a cura em oração. Porém outros três casos semelhantes foram resolvidos pela medicina, sem nenhuma mediação do santo e isso impediu a comprovação de um “novo milagre”.

 Há relíquias de São José de Anchieta disponíveis no acervo dos jesuítas, como fragmentos da cabeça do fêmur esquerdo, que está guardado na capela do beato, na cidade de Anchieta (ES), onde ele morreu. O fêmur direito se encontra na Igreja do Pátio do Colégio. Outros ossos supostamente autênticos foram levados para Portugal e lá se perderam antes que pudessem ser repatriados.  Anchieta morreu em 1597, aos 63 anos, depois de passar boa parte da vida evangelizando, batizando índios, falando e escrevendo na língua deles e até servindo como refém dos Tamoios para que os demais jesuítas provassem não terem interesse nas terras. Os padres tinham o propósito apenas de evangelizar, algo difícil já naqueles tempos e talvez dispensável nos dias de hoje por uma nova visão surgida, a de respeito à cultura nativa. Enfim, mas foi em poder dos índios que ele escreveu o Poema à Virgem, fugindo das tentações, pois as mulheres indígenas não compreendiam essas coisas de celibato. Anchieta superou essas dificuldades pelo propósito de divulgar a fé dos Cristãos, buscando de maneira diferente dos demais, entender as tradições daquele povo que habitava o Brasil colonial.