Aclimação renegada pela prefeitura e amada pelos moradores

Geraldo Nunes

26 Maio 2014 | 01h05

Fui procurado por um estudante da terceira série da Emei Faria Lima, localizada na Rua Pedra Azul, no bairro da Aclimação, que me pediu uma entrevista sobre o bairro, já que ele soube pelos pais que eu apresentei na Rádio Eldorado um programa que contava a “história dos lugares”, me disse. Como também moro no bairro marcamos o encontro, mas antes, fiz uma rápida pesquisa a respeito da região e foi aí que eu descobri que o subdistrito da Aclimação, criado em 1938, não existe mais. Foi extinto faz tempo, em 1986, pelo então prefeito Jânio Quadros quando o município de São Paulo foi reorganizado em 96 distritos. Contudo, existe ainda o Cartório do Registro Civil do Subdistrito da Aclimação, por competência do Poder Judiciário estadual.

Por isso é que no Código de Endereçamento Postal dos Correios – CEP as ruas aparecem como pertencentes a regiões vizinhas como Liberdade, Cambuci, Ipiranga, Paraíso e Vila Mariana. Sempre estranhei o fato da estação de Metrô que serve a Aclimação ser chamada Vergueiro. A região pertence a duas subprefeituras, metade é da Sé e outra parte da Vila Mariana e o resultado são ruas sempre esburacadas e péssima conservação das faixas de sinalização de trânsito para o lado que pertence à Sé, mais preocupada com as questões do Centro. Quando é feito um recapeamento logo vem uma concessionária de água ou energia e quebra o asfalto.

Mas percebo que os moradores adoram a Aclimação porque eu também gosto. O lugar tem muito verde, os pássaros cantam o ano inteiro e a partir de agosto os sabiás começam a cantar por volta das três da madrugada. Lá é perto de tudo, Paulista, Centro, Jardins.  Agora aumentou a vida boêmia, com barzinhos abertos até uma da manhã. Nicho de tranquilidade, pessoas de outras regiões procuram a vida noturna da Aclimação onde o número de assaltos é pequeno se comparado a outros lugares.

Na recente chuva de granizo, a Rua Pedra Azul recebeu cerca de três toneladas de granizo e a prefeitura trabalhou um dia inteiro para retirar o gelo da região que foi embora na carroceria de trinta caminhões. Depois disso, bem no dia seguinte, a cavalaria da Polícia Militar ocupou a Aclimação e alí ficou de prontidão para agir, se necessário fosse, nas manifestações que aconteciam na Avenida Paulista. Naquele dia foram quinze manifestações toda a cidade, mas nenhuma na Aclimação, cujo charme são as ruas, desse bairro excomungado, que levam nomes de pedras preciosas como Safira, ou Topázio e ainda planetas de nosso sistema solar, como Saturno e Urano. Os poetas Castro Alves, Machado de Assis e José do Patrocínio são denominações de logradouros que também pertencem à Aclimação que segundo um amigo, o jornalista Claudio Amaral, “ainda é o bairro mais aprazível de São Paulo”. Ele costuma frequentar o parque e lá faz seus exercícios físicos assim como milhares de pessoas.

 No ano de 2009, depois de um forte temporal, rompeu o sistema de circulação de água do lago do Parque da Aclimação, de 33 mil metros quadrados, vazando pela tubulação até o Rio Tamanduateí. A força da água levou peixes, cisnes, gansos e tartarugas que nadavam no lago, resultando no pior desastre ecológico da história na região. O problema ocorreu com o rompimento da base de sustentação do vertedouro, que controla o nível da água que o abastece, pelo córrego Pedra Azul, que é canalizado. Uma obra para evitar a repetição do problema foi feita, mas levou meses até que tudo voltasse ao normal. Ainda hoje o nível da água do lago é mais baixo que outrora e dificilmente voltará ao normal, pois cresceu uma vegetação que antes não existia. Felizmente o lugar não ficou mal cheiroso e assim continua sendo possível passear livremente pelo Parque da Aclimação e nele curtir suas belezas.

 Mas o menino estudante queria a história da Aclimação, então recorri à breve pesquisa dando conta que em 1892, o médico Carlos José Botelho, nascido em Piracicaba, adquiriu uma grande extensão de terras cobertas de áreas verdes na região, chamada Sítio Tapanhoim, e resolveu reproduzir ali o Jardim D’Acclimatation de Paris. No local havia espaço para aclimatação e exposição de gado leiteiro importado, o que logo atraiu o interesse de pecuaristas.

Na região também foi criado o primeiro zoológico paulista, onde viviam um camelo e um urso polar. Contradições, porque um animal é do deserto e outro da região mais fria do planeta, não poderiam ficar em um mesmo lugar sem estufas de aclimatação. Deste modo o zoo não perdurou e a família Botelho iniciou o loteamento da região, principalmente das terras de propriedade particular adjacentes ao parque. Começaram a ser povoadas as ruas e alamedas, formando os bairros que depois se tornariam subdistritos da Aclimação. Em 1939, o Parque da Aclimação, cuja área era de 182 mil metros quadrados, foi comprado pelo então prefeito Prestes Maia, pois os filhos de Botelho passavam por dificuldades financeiras. Hoje poderia haver críticas a esse procedimento, mas a decisão é louvável. Prestes Maia tornou público um belíssimo parque e presente melhor a cidade não poderia ter. Vieram depois biblioteca, concha acústica, playground e um campo de futebol. O bairro foi se desenvolvendo ao redor do parque e se tornando eminentemente residencial, mas a partir de 1970, a expansão imobiliária fez surgir muitos edifícios, marcando a verticalização do bairro, o aumento da população e o consequente crescimento do comércio.

No decorrer da década de 1980, a associação dos moradores do bairro e dos defensores do parque, juntamente com entidades ecológicas, mobilizaram-se e conseguiu o tombamento do Parque da Aclimação, feito pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico. Mesmo com todas as transformações, as antigas casas continuaram  dando lugar às torres residenciais, mas apesar das mudanças a Aclimação ainda é símbolo de tranquilidade, mas fiz questão de enfatizar a menino, só não se sabe até quando.