A Copa e as lembranças de Fiori, Saldanha e Thomaz Mazzoni

Geraldo Nunes

17 Maio 2014 | 06h43

Recordações me vieram à mente quando soube que na madrugada do sábado, 9 de maio, o ex-jogador Yeso Amalfi tinha morrido e pensei comigo, copa é um momento de alegria e pessoa nenhuma deveria morrer nessa época. Yeso nunca foi dos mais citados nos bate papos de futebol ou programas esportivos que costumam recordar craques do passado, embora tenha sido ele um dos primeiros brasileiros a jogar no futebol europeu, atuando por Mônaco, Nice, Olympique de Marselha e Torino, além de, no futebol sul – americano, ter brilhado com a camisa do Boca Juniors e do Peñarol.

Depois que parou de jogar, tornou-se reservado, era pouco afeito aos repórteres, e sua trajetória acabou não sendo muito divulgada. Tentei entrevistá-lo algumas vezes, mas ele se recusava a me atender. Soube que ele garantia ter namorado celebridades do cinema, como as atrizes Sophia Loren e Brigitte Bardot. Diziam que certa vez Brigitte veio ao Brasil e o procurou, mas o ele pediu para dizer que não estava. Pensei, se ele não atendeu nem a Brigitte Bardot, por que deveria me atender? E me conformei. Aos apelos da Rede Globo, entretanto, Yeso se dobrou em 2010 e não escondeu o seu lado boêmio, dizendo que era amigo do príncipe Rainier ao qual apresentou Grace Kelly, uma das musas de Hollywood, nos anos 50. Também me disseram que teve amizade com o pintor Pablo Picasso.

 Yeso Amalfi iniciou a carreira de jogador no São Paulo sendo o destaque do time conhecido por Expressinho Tricolor, onde foi o artilheiro daquela equipe pentacampeã do Campeonato Paulista de Aspirantes (1943, 1944, 1945, 1946 e 1947).  No time principal, sagrou-se campeão paulista em 1945 e 1946, acumulando entre 1943 a 1948 um total de 78 jogos com a camisa tricolor onde obteve 50 vitórias, 15 empates e somente 13 derrotas. Marcou 30 gols e vhegou a jogar como companheiro de ataque de Leônidas da Silva. Depois passou pelo Palmeiras e posteriormente seguiu para o exterior para brilhar na Europa. Yeso Amalfi faleceu aos 90 anos.

Fiori e João Saldanha

Outra perda antecedendo essa Copa do Mundo foi a do locutor esportivo Luciano do Valle, mas além dele outras figuras do meio esportivo partiram em dias que antecederam outras copas. Fiori Gigliotti era considerado o “locutor da torcida brasileira” e antes das jornadas apresentava um programa de reminiscências pelo rádio, “Cantinho de Saudade”.  Narrou dez copas do mundo, entre 1962 e 2002,  pelas rádios Panamericana, Bandeirantes e Super Tupi.  Para tristeza geral morreu bem na véspera da abertura da copa na Alemanha, em 9 de junho de 2006.  Naquele mundial, onde o Brasil foi eliminado pela França nas quartas de final, também perdemos o comediante Cláudio Besserman Viana, o Bussunda, que estava em Munique. Embora não ligado diretamente ao esporte, seguiu para gravar scatchs sobre a seleção que entrariam durante a programação da Globo. Ele se vestia com a camisa 9 da seleção e imitava de maneira engraçada os modos do atacante Ronaldo, o Fenômeno, nos programas de TV.

Na Copa do Mundo da Itália, em 1990 morreria João Saldanha, na capital daquele país, Roma. Saldanha, embora cronista, chegou a ser técnico da seleção porque antes havia dirigido o Botafogo. Mas ao deixar o cargo, virou comentarista e anos depois foi chamado para comandar a seleção canarinho nas eliminatórias para o mundial de 1970.  Formou um time arrasador que seus colegas de imprensa apelidaram de “as feras do Saldanha”, mas não durou no cargo sendo substituído por Zagalo dias antes do embarque da equipe para o México. A equipe trouxe o tricampeonato e a Taça Jules Rimet (de triste destino) em definitivo.  Saldanha retornou à cronica esportiva e sua audiência aumentou tanto que a Rede Globo resolveu dar a ele dois minutos da programação antes do início do Jornal Nacional. Eu pergunto, alguém hoje em dia, seria capaz de obter da Rede Globo dois minutos do horário nobre da emissora bem depois da novela para falar de futebol? João Saldanha tinha esse tempo e ninguém mais repetiu a façanha.

Thomaz Mazzoni

Quem não pôde assistir João Saldanha na TV foi Thomaz Mazzoni, verdadeiro mito entre os jornalistas e falecido a 14 de janeiro de 1970.  Foi Mazzoni quem deu apelidos aos principais clássicos do futebol paulista, Choque Rei para Palmeiras x São Paulo; Derby Corinthians x Palmeiras e Majestoso: São Paulo x Corinthians.

Aos três grandes da capital também bolou clichês elogiosos como Clube da Fé, para designar o São Paulo; Mosqueteiro, Corinthians e Campeoníssimo, Palmeiras. Além de Moleque Travesso, ao Juventus, e Nhô Quim, ao XV de Piracicaba e Vovô da Colina, ao Ypiranga por ser este o mais antigo dos clubes de futebol da capital, tendo disputado o campeonato paulista até 1954.

Tommaso “Tomás” Mazzoni, nasceu em Polignano a Mare, região de Bari, na Itália, em 1900 chegando ainda criança ao Brasil nove anos depois junto com toda a família. Morou no Brás, na Rua do Gasômetro, reduto dos bareses até hoje. São eles quem promovem todos os anos a festa de São Vito Martir. Dizem que Mazzoni foi bom jogador atuando de ponta-esquerda no “Polignano a Mare FC”, “Eduardo Prado” e no “São Cristóvão”, times da várzea paulistana.

 Seu primeiro trabalho como jornalista esportivo foi no bissemanário São Paulo Esportivo, em 1920 e a partir de 1925 tornou-se gerente desta publicação. Ao longo da década passou por outras folhas: O Combate; São Paulo Jornal; Diário Nacional, além de se tornar diretor de outro semanário, o Estampa Esportiva.  Esta primeira etapa da carreira de Thomaz Mazzoni chamou atenção do empresário e proprietário de A Gazeta, Cásper Líbero, que o levou para o seu jornal em 1928 onde consolidou a carreira de jornalista se tornando responsável pelo suplemento que viria a ser A Gazeta Esportiva, mais tarde um jornal independente. Sua grande marca, era a coluna “Olimpicus”, que saía todos os dias na primeira página, com escrita simples, repleta de gírias e expressões populares.

Em 1938 publica o livro “O Brasil na Taça do Mundo”, cheio de crônicas saborosas sobre os diversos aspectos que cercaram a campanha da seleção brasileira no mundial da França, naquele ano. Nos dois anos seguintes publica, em sequência, “Problemas e aspectos do nosso futebol” e “Flô, o melhor goleiro do mundo”, primeiro romance que tratou especificamente do futebol em nosso país. Quatro anos depois ganha o “Concurso Literário do SPFC”, publicando uma compilação de crônicas que abordavam os mais diferentes aspectos do esporte brasileiro, além de outra obra, “Histórico do S. Paulo FC”. Durante o Campeonato Sul-Americano no Chile, publicou “O Brasil no campeonato Sul-americano de futebol”, com o “histórico da participação da seleção brasileira no torneio continental”. Com um apetite literário interminável, publicou nos anos 40 mais duas obras: “Histórico do Ypiranga” e “Histórico do Corinthians”. No ano de 1947, Thomaz Mazzoni passa a trabalhar no mais novo periódico esportivo da capital paulista, a Gazeta Esportiva, onde, como redator-chefe, continuou publicando a coluna “Olimpicus”, ajudando a fazer deste o jornal esportivo de maior tiragem da capital paulista nas três décadas seguintes. Sua melhor obra publicada em livro foi “História do Futebol no Brasil 1894 – 1950”, uma referência até hoje para jornalistas, acadêmicos e aficionados de uma maneira geral. Esperamos que a perda de figuras ilustres do esporte, em época de copa, termine aqui e  todos  possamos assistir ao futebol cada vez mais alegres e com menos saudade.