Só é bom se for seguro …

Fábio Bonini

10 Julho 2012 | 16h12

Li, com muito entusiasmo, a excelente notícia de que São Paulo ganhou seu primeiro sistema de empréstimo de bicicleta em grande escala. No dia 24 de junho, dez estações de empréstimo, com dez bicicletas cada, começaram a funcionar na Vila Mariana e a previsão é que nos próximos 3 anos sejam 300 estações – um total de 3 mil bicicletas à disposição dos paulistanos. Um sistema semelhante já funciona no Rio de Janeiro e é um sucesso. As pessoas se cadastram pela internet, pagam uma mensalidade de R$ 10 e podem retirar bicicletas em uma estação, andar de graça por 30 minutos e pagar R$ 5 por hora caso excedam esse tempo. A bicicleta pode ser devolvida na mesma estação da retirada ou em qualquer outras estação do sistema.

Quando as 300 estações estiverem prontas, São Paulo vai ter uma rede e empréstimos de bicicleta que possibilitará pedaladas entre vários destinos da cidade. É uma idéia ótima. Sonho com o dia em que as bikes sejam uma opção viável de transporte. Mas a verdade é que este não é um modal seguro, pelo menos por enquanto. O próprio diretor-geral da Ciclocidade, Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo, que tem por objetivo promover a mobilidade e uso da bicicleta como instrumento de transformação assumiu, em entrevista ao Estado que, apesar da idéia ser boa é preciso investir em infraestrutura e segurança antes de “soltar” mais centenas de bicicletas nas ruas.

São Paulo precisa de mais ciclovias. Precisa também de uma campanha de educação no trânsito para que os motoristas mudem de postura em relação ao ciclista. Infelizmente o trânsito paulistano é perigoso até para quem está dentro de um carro, que dirá para uma pessoa em cima de uma bike. Repito, que sou um defensor da bicicleta como meio de transporte, mas antes de subir numa magrela quero mais ciclovias com mais segurança. Quero ter a certeza de que, indo e voltando de bicicleta do trabalho, não estarei colocando minha vida em risco. E não estou exagerando quando falo em risco de morte.

Pedalar nas vias de São Paulo é realmente arriscado: um levantamento da Secretaria de Estado da Saúde revelou que – por dia! – nove ciclistas sofrem acidentes no trânsito em São Paulo e um deles morre por causa destes acidentes. Um número assustador, principalmente quando pensamos neste novo sistema de empréstimo, o número de bicicletas nas ruas tende a aumentar.

Devemos lutar por uma cidade mais sustentável e encarar a bicicleta como um meio de transporte com certeza faz parte disso. Mas, enquanto o preço a se pagar por pedalar até o trabalho for o risco de morte, defendo o uso das bicicletas durante os finais de semana, nas ciclovias. Sou a favor das bicicletas, mas sou, antes de mais nada, a favor da segurança da população. No ano passado, quase 3,5 mil ciclistas foram internados pelo Sistema Único de Saúde. Acho muito corajoso que alguém enfrente o trânsito de São Paulo e tente por em prática um modo de vida mais saudável e sustentável no meio do caos paulistano. Mas preferia que estas 3,5 mil pessoas tivessem chegado em casa sãos e salvos.

 

Confissão de rodapé: Não entendo porque no Brasil, principalmente em São Paulo, as pessoas desconfiam tanto de serem fotografadas na rua.

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