Cultura em estado de graça. Gratuita mesmo.

Fábio Bonini

06 Dezembro 2011 | 17h03

No ano passado, o IPEA divulgou um estudo bastante completo sobre a visão que a população brasileira tem dos serviços de utilidade pública e seu grau de importância para a sociedade. Entre os temas estudados estava a cultura. O resultado da pesquisa me intrigou: os preços altos são obstáculo ao acesso à oferta cultural para 71% dos entrevistados. E é realmente impressionante olhar para os valores cobrados por aí: ir a um show pode custar centenas de reais, o cinema chega a R$ 50 em algumas salas de São Paulo, o ingresso para o fantástico Cirque de Soleil é impraticável para a maioria da população, boas peças de teatro também custam caro.

O resultado: 78% dos entrevistados afirmaram assistir televisão ou DVD todos os dias – este hábito foi citado como atividade cultural. Programas como teatro, exposição, circo e shows estão fora de questão para 59,2%, que disseram nunca ir, e 25,6% afirmaram ir raramente. Visitas a museus e centros culturais foram citados por apenas 4,2%, que freqüentam estes locais pelo menos uma vez por mês. Mas, paulistano que sou, quero aqui lembrar que temos muitas opções culturais gratuitas ou quase de graça. E não estou falando de TV.

Alguns exemplos: até Janeiro de 2012, é possível conferir uma mostra sobre Mário de Andrade no Museu da Língua Portuguesa, com entrada gratuita aos sábados. No teatro Cacilda Becker, o excelente ator Gero Camilo, apresenta monólogo sobre o sonho de Van Gogh de organizar uma comunidade de artistas no sul da França, por R$ 10. E, quem gosta de cinema e história pode assistir gratuitamente durante o mês de outubro a mostra de filmes “Conflitos Mundiais” na biblioteca pública Roberto Santos, que exibe produções sobre os conflitos armados das últimas décadas.

Pesquisando mais, outras opções aparecem. O que quero dizer é que o preço alto pode até ser impeditivo para quem quer ir ao show do Erick Clapton, mas outros músicos estão se apresentando por aí. Infelizmente, existem preços abusivos quando se fala de cultura. E, felizmente, existe muita gente boa e interessante mostrando seu trabalho, a preços acessíveis ou de graça mesmo. Talvez falte divulgação, talvez falte disposição. Mas o que não falta é programa bacana e barato para se fazer em São Paulo. Até shoppings centers andam realizando mostras de fotografias e pinturas de graça. Fica o convite para quem quiser prestigiar a democratização cultural.

Uma coisa é fato: O preço não pode ser a desculpa dos cidadãos para não terem acesso à cultura, pode?

Confissões de rodapé: Apesar de reconhecer o carisma do atleta Anderson Silva, ainda tenho dúvidas se o tal AMM (artes marciais mistas) é um esporte.