Vidraças: as predadoras invisíveis das aves urbanas
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Vidraças: as predadoras invisíveis das aves urbanas

Pesquisa do Instituto Passarinhar registra 1.011 impactos em 7 meses; prédio baixo é ‘mortal’

Edison Veiga

03 Setembro 2016 | 16h05

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Nas janelas de grandes prédios, em pontos de ônibus e em painéis, o vidro é um grande (e invisível) predador de aves urbanas. De acordo com levantamento do Instituto Passarinhar, 77% dessas colisões terminam em morte imediata do animal. “E muitos ainda morrem em consequência do choque, ainda que bem depois”, afirma o biólogo Sandro Von Matter, diretor da instituição, pesquisador em conservação da biodiversidade e consultor do Earthwatch Institute no Brasil e do Escritório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente no Brasil (PNUMA).

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Foto: Sergio Castro/ Estadão

Von Matter começou a observar cientificamente esse problema em 2013. No início deste ano, entretanto, lançou uma plataforma colaborativa para coletar informações de incidentes do tipo em todo o País. De janeiro a julho, obteve 1011 registros de impacto, em 561 municípios de 21 estados brasileiros. A maior parte das vítimas foram aves que costumam viver em ambientes urbanos – sabiás (21%), beija-flores (15%) e rolinhas (13%). “Mas foram registradas diversas ocorrências para espécies de aves presentes na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais das espécies ameaçadas”, cita o pesquisador. Exemplos são o papagaio-galego, a jandaia-de-testa-vermelha, o corocoxó e o beija-flor-rajado.


Pequenas alturas. Ao analisar os registros obtidos pelo estudo, é possível compreender que, ao contrário do que parece, os grandes edifícios não são os maiores vilões dos passarinhos. Isto porque 85% dos impactos ocorrem em alturas de até 3 metros do solo – sendo 32% em estruturas de vidro ao nível do solo, como pontos de ônibus e painéis; e 53% em residências de até três andares. Os outros 15% dos acidentes foram registrados em edifícios de 4 a 11 andares. Arranha-céus são tão exceção que sua ocorrência é desprezível na amostragem.

“Evolutivamente, as aves no meio urbano preferem áreas mais baixas”, explica Von Matter. “Isto porque, ‘escondidas’ pelo anteparo formado pelos prédios, elas se sentem protegidas. Em áreas abertas, voando mais alto, elas estariam vulneráveis a um eventual predador.” Também há a questão da busca pelo alimento que, no ambiente urbano, em geral costuma ser obtido no solo ou próximo dele.

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

No Brasil não há nenhuma estimativa abrangente de quantas aves morrem no vidro. “Nos Estados Unidos, calcula-se que sejam 988 milhões de mortes por ano, sendo que lá existem apenas 844 espécies de aves. Aqui são 1.919 espécies”, comenta Von Matter.

Alternativas. Von Matter tem apresentado seu projeto – com os primeiros resultados – à comunidade científica. Em 2 de agosto, este foi o tema de um dos painéis do Congresso Brasileiro de Ornitologia, em Pirenópolis, Goiás. “Temos uma das maiores biodiversidades do mundo, vivemos em um momento de verticalização das cidades, e só agora um estudo desse começa a ser feito”, comenta a bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto Arara Azul.

Para diminuir essa colisões, há soluções – embora nem sempre esteticamente interessantes. O jeito mais utilizado no mundo é adesivar as janelas com uma silhueta de um animal maior, um predador. “Pelo que vi, isso funciona por pouco tempo. Até que a ave percebe que aquilo não é um predador de verdade”, diz Von Matter.

Ele sugere uma medida mais radical. De acordo com seus estudos, as aves calculam o espaço mínimo para passar batendo as asas. “Se aquele espaço é menor do que a abertura das asas, elas não passam”, explica. Ele chegou às medidas de 10 cm por 5 cm como ideais.
“Uma tela com essas medidas resolveria. Uma adesivação, mesmo com fita, nesses ‘quadradinhos’ seria eficiente”, comenta. “O problema é que não fica visualmente agradável para as pessoas.” Ele conta que está em conversas avançadas com uma equipe de desenhistas industriais para chegar a um produto que seja harmônico à arquitetura.

Von Matter, entretanto, acredita que as construtoras poderiam dar uma mãozinha. “Elas poderiam priorizar materiais que fossem menos transparentes, quando possível. Alternativas com vidro fosco, sobretudo em painéis térreos. E evitar os espelhados – o bicho entende que é uma continuidade do espaço exterior e se choca facilmente”, adverte.

Quem testemunhar alguma colisão de aves com vidros pode participar do levantamento por meio do www.colisoesdeaves.com.

Foto: Clayton de Souza/ Estadão

Foto: Clayton de Souza/ Estadão

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