Vandalismo contra a arquitetura histórica
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Vandalismo contra a arquitetura histórica

Arquiteto e urbanista da USP lamenta que professores em greve tenham depredado edifício histórico da Praça da República

Edison Veiga

27 Abril 2015 | 14h58

Foto: JF Diorio/ Estadão

Foto: JF Diorio/ Estadão


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Por Benedito Lima de Toledo*

O Edifício Caetano de Campos, fora de dúvida, constitui um patrimônio histórico dos mais respeitáveis na história da educação de São Paulo. Sua implantação, face à Pátria da República, constituía um “cartão postal” dos mais característicos da cidade. Em certa época, por necessidade de ampliar sua capacidade educacional, foi-lhe acrescentado um pavimento, obra realizada com maestria por integrar-se com naturalidade ao prédio, sem descaracterizar sua arquitetura.

O edifício, na década de 70, sofreu uma terrível ameaça, a saber, deveria ser demolido para ceder lugar a uma linha de metrô. Houve prontamente uma reação dos órgãos de proteção do patrimônio, a exemplo do Condephaat, de antigos alunos, como o professor Modesto Carvalhosa, arquitetos e a população habituada a conviver com a imagem daquele conjunto – edifício e Praça da República.

Como conselheiro do Condephaat, participei de reunião com os engenheiros do metrô, visando a buscar alternativas que poupassem o Caetano. Depois de vários encontros de trabalho, a equipe de engenheiros do metrô dirigida pelo Engenheiro Plínio Assman acolheu a ideia de se refazer o processo de implantação da nova linha.

Arquiteto fez projeto de restauração

O edifício estava abandonado e com alguns danos explicáveis por seu intenso uso. Fui contratado para fazer o projeto de restauração e fiscalização de sua execução. Pude constatar a admirável solidez daquelas paredes e seu primoroso acabamento. Antes do início dos trabalhos, as esculturas que ornam o prédio foram “encaixotadas”, isto é, recobertas com madeira para proteção. Observando a caixilharia, pode-se notar sua excelente qualidade devido ao fato de ter sido executada pelo Liceu de Artes e Ofícios.

Enquanto se desenvolviam as obras de restauração, nos deparamos com outro problema: onde relocar os alunos ali matriculados. Tomei a liberdade de sugerir ao Secretário de Educação, José Bonifácio Coutinho Nogueira, a utilização da sede do Colégio Alemão, na Praça Roosevelt, uma vez desocupado, dada a sua transferência para novas instalações, e mais, poderia também ser restaurado. O problema era: haveria tempo? Pois o trabalho de restauração foi executado em três turnos, e até à noite trabalhava-se intensamente. Em condições de uso, o edifício da antiga Escola Alemã, passou a acolher normalmente os alunos.

Foto: JF Diorio/ Estadão

Foto: JF Diorio/ Estadão

Esses episódios vêm-me à mente quando vejo nos jornais os que deveriam ser educadores investindo com paus e pedras contra aquele patrimônio da cidade, que atualmente abriga a Secretaria da Educação.

Por mais justas que sejam as reivindicações desses vândalos, o ato é inqualificável. Olhando as agressões contra aquelas portas de ferro, com a qualidade reconhecida das obras do Liceu de Artes e Ofícios, não encontro palavras para exprimir minha decepção e a falta que faz a civilidade.

* O arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).