Um manual para fazer seu próprio cerrado
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um manual para fazer seu próprio cerrado

Em dois terrenos e em livro, artista plástico resgata ‘natureza selvagem’ de São Paulo

Edison Veiga

30 Janeiro 2017 | 03h00

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Em parceria com TIAGO QUEIROZ

Guia de Campo dos Campos de Piratininga ou O Que Sobrou do Cerrado Paulistano ou Como Fazer Seu Próprio Cerrado Infinito (La Luz del Fuego, 182 pág., R$ 48) é o nome do livro que o artista visual Daniel Caballero acaba de lançar. Mas o seu percurso para resgatar a “natureza selvagem” – como ele gosta de falar – de São Paulo transcende as páginas da obra: está na trilha com cerca de 40 espécies vegetais do cerrado que ele plantou na Praça da Nascente, na Pompeia, zona oeste paulistana, a poucos quarteirões de sua casa; está no terreno da Escola Estadual Jardim das Camélias, na Vila Jacuí, zona leste, onde ele está recriando o cerrado com a ajuda de alunos em mutirões semanais.

Caballero, 44 anos, faz questão de lembrar que não é ativista. Que não é ambientalista. “Sou artista: quero criar atritos e fazer minha arte”, diz. A botânica e a obsessão com o cerrado vem desde os 10 anos de idade, quando ele se encantou com o livro de código 581.981 J75c das estantes da biblioteca pública da Lapa. Conheça a Vegetação Brasileira, de Aylthon Brandão Joly – em edição de 1970 – nunca mais foi devolvido e é livro que ele ainda se encanta ao manusear, carimbinho da biblioteca estampado na folha de rosto, em seu ateliê.

Mas a sacada de usar o tema como matéria-prima para sua arte veio em 2008, quando ele fazia uma trilha com jipeiros e teve a epifania: a vegetação nativa paulistana, aquela encontrada na Piratininga dos jesuítas e dos índios, era muito mais cerrado do que Mata Atlântica. De lá para cá, quadros do artista têm seus desenhos de plantas baixas e árvores de galhos retorcidos, exposições já contaram com terrários com espécies autóctones e cada expedição por terrenos baldios de São Paulo tem um caderno e canetas pretas a tiracolo. “Mais recentemente, também não saio sem meu iPhone. Fotografo tudo”, diz.

As ilustrações de Caballero são sempre sem cores, traços negros. Culpa da memória da infância: para ele, o cerrado sempre vai se assemelhar às fotos em P&B do velho livro de Joly. “Vai ver, eu fiz um livro desses de colorir”, brinca ele, aludindo à mania que tomou conta do mercado editorial recentemente.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Praça. Quando notou que, um ano e meio atrás, a vizinhança estava empenhada em arregaçar as mangas para melhorar a Praça da Nascente, viu nisso a oportunidade de trazer mudas de suas expedições e montar ali uma amostra da São Paulo que havia. Era o embrião do projeto artístico batizado por ele de Cerrado Infinito. “A trilha criada aqui continua em outro ponto da cidade, no caso, na escola da zona leste. Mas pode estar conectada também com outro cerrado feito por outra pessoa em outro ponto. Estamos desenhando uma trilha imaginária”, explica.

E é claro que houve atrito. “No começo, havia os que achavam que o que eu plantava era ‘só mato’. E também os que queriam adubar a terra, cuidar das plantinhas como se fossem bebês, sem entender que cerrado é o solo pobre”, relata. Aí Caballero tinha de voltar a contar toda a história de sua epopeia, lembrar da Piratininga do Anchieta, etc. etc. etc. Com o tempo, parece que deu certo. Afinal, a trilha da Pompeia já tem 150 metros, plaquinhas com informações das plantas – dá bem uns cinco ou seis minutos de passeio, com calma.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

O trajeto foi definido de forma orgânica. A cada sábado, Caballero e os voluntários que apareciam faziam um trechinho. “Ah, aqui não pode porque tem o parquinho das crianças; então a gente faz uma curva. Aqui tem uma pedra, vamos contornar…”, conta.

No meio do caminho, uma professora da escola estadual da Vila Jacuí apareceu e o convidou para levar seu cerrado para lá. “Nas primeiras vezes, os alunos não pareciam muito interessados. Depois acabamos reunindo um grupo de uns 40”, diz ele, que vai para lá semanalmente, sempre às quartas.

No livro, há fichas descritivas de 50 espécies da flora do cerrado paulistano – elegante, dormideira, juqueri, cipó-de-são-joão, sena empenada, fedegoso, murici, araçá, sumaré, batata-de-perdiz… Mas apesar das informações precisas – tudo checado com botânicos –, não é só isso. Também há um relato afetivo do artista sobre o encontro de tal e tal planta. E os desenhos, é claro.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão