“Toda criança está conectada com as coisas simples da vida”
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“Toda criança está conectada com as coisas simples da vida”

Grupo Triii lança livro-CD com 30 canções infantis no próximo domingo, em show no Auditório Ibirapuera

Edison Veiga

23 Abril 2015 | 07h19

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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– Você precisa conhecer o Grupo Triii – disse-me Bia Reis, do necessário blog Estante de Letrinhas, alguns meses atrás.

– Como é? Grupo Trim? – perguntei, entre o ignorante e o debochado.

– Não, não. É Triii, com três is. Procure aí no YouTube.

Foi assim, num diálogo despretensioso, que fiquei sabendo do trabalho de Estêvão Marques, Marina Pittier e Fê Stok. A partir de então, foram raros os dias em que não ouvi ao menos uns 15 minutos de músicas desse grupo infantil – sou pai de um moleque de 1 ano e 5 meses.

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No mês passado, encantei-me e vi meu filho se hipnotizar com um show do trio, em um espaço na Vila Madalena. No meio do espetáculo, eles anunciaram uma nova apresentação, desta vez no Auditório Ibirapuera – com o lançamento de um livro-CD em que resgatam 30 canções infantis tradicionais.

Ótimo, pensei. Era a chance de entrevistá-los, contar um pouco da história deles aqui no jornal.

A conversa, muito agradável, aconteceu na casa de Estêvão Marques, no Butantã, em uma tarde de quinta-feira. No dia seguinte, para minha surpresa, o próprio Estêvão me enviou um e-mail – intitulado “Olê, Olá” – com perguntas e respostas de uma saborosa autoentrevista em que ele explicava um pouco sobre o processo criativo que culminaria no livro Brasil For Children: 30 Canções Brasileiras Para Brincar e Dançar. Não posso deixar de compartilhar, abaixo, o conteúdo desse e-mail.

A reportagem foi publicada na última terça – e está disponível neste link.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Brasil for Children reúne 30 canções brasileiras – tradicionais, adaptadas e criadas. Este baú do tesouro guarda trinta pedrinhas de brilhantes, trinta canções que fazem parte da infância dos nosso avós, músicas que vieram de outros países e foram temperadas com os ritmos do Brasil, cantigas que nossos filhos transformaram em brincadeiras, canções de ninar que nossas mães cantavam, melodias que proporcionam o encontro de muitas gerações.

Como surgiu a ideia de adaptar essas canções tão tradicionais para o universo infantil atual?
Tudo começou com uma ideiazinha dançando no pensamento. Como surgiram as canções folclóricas que são tão lindas? De onde vieram? Quem fez? E assim começou esta grande brincadeira. Descobrimos que muitas músicas e historias são passadas de boca a boca desde muito tempo. E muitas vezes vieram de bocas de outros países. Por exemplo: a história do meu vovô que nasceu na Europa e veio morar no Brasil quando ainda era pequenininho. Ele veio cantando um monte de canções que estava em outra língua. Depois que nasceram seus filhos, que passaram a falar o português, vovô traduziu as suas músicas de infância e ensinou para os filhos, que por sua vez ensinaram para os amigos, que cresceram e também ensinaram para seus filhos… E assim, de boca em boca, foi surgindo uma tradição musical. Muitas músicas do folclore infantil brasileiro são canções tradicionais de outros países, que chegaram aqui e acabaram ganhando um tempero especial, um jeitinho brasileiro de brincar e cantar. Essas músicas sempre são revisitadas ao longo dos anos, pois fizeram parte da infância de quase todos os brasileiros. Fizemos uma mirabolância musical com instrumentos normais e outros bem diferentes com sons engraçados. Toda música tem uma brincadeira sonora para você se divertir com os amigos e a família. Os arranjos sonoros são recheados com ritmos e melodias de outros países. A música quebra fronteiras e se comunica com todas as línguas. Acreditamos que uma criança que mora em um país muito distante possa se divertir e conversar com uma brincadeira tradicional brasileira.

Quais foram as principais dificuldades durante o processo de criação para alinhar a simplicidade das brincadeiras antigas com a rotina das crianças de hoje?
Estas músicas estão vivas até hoje porque no fundo toda criança sempre está conectada com as coisas simples da vida. A tecnologia e as cantigas de roda podem conviver e interagir harmoniosamente. Hoje, muitas crianças estão aprendendo músicas e brincadeiras simples pela internet, smartphones, aplicativos… Ficamos sempre atentos para esta cooperação entre a tradição e as novas tecnologias. Em uma mesma música você vai ouvir o som de colheres, copos, percussão corporal conversando com as guitarras elétricas e samplers.

Quanto tempo durou o processo de produção da obra?
Seis anos.

Quais são os principais cuidados que devem ser tomados durante a criação de canções para crianças em idade de descobrir o universo ao seu redor?
Quando ficamos próximo de uma criança, conseguimos ver a força das coisas simples: uma pedrinha no chão, uma colher de pau, um copo de plástico, uma florzinha que acabou de abrir no jardim, uma formiguinha levando uma folha… São essas coisas simples que traduzem o funcionamento do mundo para a criança. Essas coisinhas explicam muito sobre quem somos, de onde viemos, e o porquê das coisas. Aliás… Você já parou para pensar que o tomate pode ser primo do caqui?

Qual foi o seu maior desafio neste trabalho?
Selecionar apenas 30 canções de um repertório imenso, belíssimo e essencial.

O livro também pode ajudar aos adultos a enxergarem o mundo das crianças e relembrarem sua infância durante a mediação?
Este é um livro para a família e os amigos. Eu aprendi muitas músicas com a minha avó e com o meu pai. Depois de tanto ouvir músicas, comecei a inventar também. É isso que uma família faz: ensina o filho e o neto, mexe, remexe e a criança inventa e reinventa. “A criança aprende a imitar. Imitando, aprende a inventar. Inventando, aprende a conhecer”, diz Chico dos Bonecos. O meu sonho é que este livro proporcione um momento de reunir a família para brincar juntos e criar as suas próprias brincadeiras.