Testemunha da História de SP: uma cicatriz chamada Minhocão
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Testemunha da História de SP: uma cicatriz chamada Minhocão

Da janela de sua sala, ela viu o Elevado nascer - e modificar toda a paisagem do entorno

Edison Veiga

28 Abril 2015 | 17h23

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão


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A ideia era não precisar do carro. Para nada. Quando o dentista David Cartum (que morreu em 1986, aos 77 anos) e a mulher, Elca, hoje com 88 anos, se mudaram para a Rua Amaral Gurgel, no centro, ele passou a ir a pé ao consultório, diariamente. Ali perto havia escola para a filha Célia, então com 7 anos. E uma biblioteca municipal, a Monteiro Lobato. “Compramos na planta ainda, depois que vimos corretores divulgando o prédio”, conta Elca. “Eram poucos os edifícios da rua.”

Trocar a casa alugada pelo apartamento próprio era realizar um sonho e garantir a estabilidade da família. Ali nasceu o segundo filho do casal, Marcos, em 1964. Quatro anos mais tarde, na gestão do prefeito José Vicente de Faria Lima, era concebido o projeto que se tornaria pesadelo da família Cartum – e de centenas de outras que viviam naquela região. O Minhocão, sob o nome oficial de Elevado Costa e Silva, uma pista elevada de 3,4 km, seria inaugurado no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1971, pelo então prefeito Paulo Salim Maluf.

Minhocão ‘expulsou’ antigos moradores do prédio

“Foi uma debandada”, recorda-se Elca. “Antes, os 60 apartamentos do prédio eram ocupados por proprietários, muitos desde a inauguração. Quem podia, se mudou.” A família Cartum ficou. Em pleno 3º andar, ganharam a vista constante de carros na altura das janelas – e o barulho, e a fuligem, e a deterioração do entorno. Justo eles que queriam se ver livres do automóvel, tiveram o apartamento “invadido” pelos veículos, hoje cerca de 70 mil por dia.

“Passei a adolescência com vergonha do meu endereço”, admite Marcos. “Eu tinha vontade de ir embora daqui, todos os dias. Foi um trauma.” Trauma que, conta ele, acabou de certa forma definindo seu futuro. Ele se tornou arquiteto, “pelo anti-exemplo, por entender que com a Arquitetura eu poderia criar ambientes que sejam o contrário do Minhocão”.

Marcos se mudou da Amaral Gurgel em 1982. A mãe persiste no local. Quando há rumores sobre a demolição do Elevado, as opiniões de ambos são dissonantes. “É o ‘Muro de Berlim’ de São Paulo, nossa pior cicatriz urbana, uma agressão. Sou a favor da demolição, mas não é de hoje. Sou a favor da demolição desde que o vi construído, em 1971”, diz o arquiteto. “Hoje ele não me incomoda mais. Não quero que seja demolido, porque ele é útil para os carros, para a cidade. Eu, na minha idade, já não preciso mais pensar em mim”, afirma Elca.