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Som ao redor

CRÔNICA

Edison Veiga

29 Agosto 2017 | 01h05

Foto: JB Neto/ Estadão

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A Teodoro Sampaio era cheia de lojas de instrumentos musicais. Agora rareiam estes estabelecimentos, não sei se pela concorrência com o comércio eletrônico, não sei se pela barateza dos produtos chineses, não sei se porque São Paulo está mais chata, menos musical, mais silenciosa nos barulhares apenas de carros-passos-ônibus-vendavais-britadeiras.

Desconfio que por tudo isto.

Pensei que o canto mais musical de São Paulo fosse a Vila do Sol Nascente, a 35 quilômetros da Praça da Sé, pertinho do Pico do Jaraguá. Ali fica a Rua Noel Rosa. A Rua Dalva de Oliveira. A Rua Adoniran Barbosa. E as ruas Clara Nunes, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Luiz Gonzaga Jr., Carmen Miranda, Cazuza, Tom Jobim, Francisco Alves e Raul Seixas.

Nada.

A Vila do Sol Nascente é mais uma prova incontestável de como a cidade tem se especializado em materializar distopias. Formas que não combinam com o conteúdo. Endereços que não reverberam a plaquetinha.

A toponímia não solfeja.

Quando lá estive fui muito bem recebido pelo Mundinho, apelido do comerciante Raimundo Rodrigues Soares, que então tinha 53 anos, dono do boteco mais movimentado dos arredores todos. “Freguês educado não cospe no chão, não pede fiado e não diz palavrão” – eis os dizeres de um aviso em caixa alta, letras brancas, fundo azul claro, afixado no balcão.

– Aqui é assim, desde sempre. Só nome de cantor que já morreu – disse-me, com a autoridade de quem foi dos primeiros moradores da vila, mais de vinte anos atrás.

Mas, ao contrário da minha fantasia, em nenhuma das 12 ruas havia uma banda passando cantando coisas de amor. Não existia ali orquestra alguma, violeiro solitário, quiçá um cantor de karaokê. Talvez alguém arrisque uma palinha sob o chuveiro – não cheguei a essas intimidades para conferir. Talvez haja um forró nas noites de sábado. Talvez alguma criança curiosa, ao perceber que mora na Rua Clara Nunes, resolva digitar no Google. E depois saia cantarolando assim, YouTube ao fundo:

“A estrela d’alva/ No céu desponta/ E a lua anda tonta/ Com tamanho esplendor/ E as pastorinhas/ Pra consolo da lua/ Vão cantando na rua/ Lindos versos de amor.”

(E quando esta noite acontecer, acredito que o céu estará mais bonito.)

Mundinho garantiu que a ideia de homenagear ícones da MPB partiu dos próprios habitantes. Melhor, fez questão de frisar, do que ficar deixando espaço para vereador fazer média com amigo. Ou pior, complementou, ter um endereço com nome de qualquer político que jamais nem ouviu falar do nosso bairro, dos nossos vizinhos – e só porque morreu já pode ir assim batizando rua aqui e rua acolá.

Mundo, mundo, vasto mundo. O boteco do Mundinho, anote aí, situa-se à Rua Noel Rosa.

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