Sobre máquinas de escrever
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Sobre máquinas de escrever

Memórias de uma escola de datilografia dos anos 1990 - que, óbvio, cheirava à decadência

Edison Veiga

12 Abril 2015 | 17h07

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Nota preliminar: esta máquina que aparece na foto acima, da marca Adler, é a que foi utilizada por Jack Torrance, personagem vivido por Jack Nicholson no clássico filme O Iluminado, de 1980, dirigido por Stanley Kubrick. Ela esteve em exposição em São Paulo, em mostra do Museu da Imagem e do Som.

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Eu tinha 11 anos e o Windows já existia na casa de muita gente quando me matriculei, um tanto contrariado, em um curso de datilografia. Era 1995 e, idiossincrasia de meu pai, eu só ganharia meu primeiro computador se, primeiro, aprendesse a digitar – ou melhor, datilografar. Com ambas as mãos. Com todos os dez dedos. Sem olhar para o teclado, nem para a folha de sulfite no rolo. De preferência, com agilidade – o teste final daqueles longos seis meses era algo como “datilografar um texto de tantas mil palavras em 10 minutos”.

Chamava-se Remington, a escola. Desconfio que não tinha qualquer relação com a célebre marca de máquinas de escrever, era uma homenagem mesmo, ou uma apropriação indébita de nome e tipografia no letreiro da fachada. Ficava em uma das ruas mais importantes de Taquarituba, a Doutor Ataliba Leonel, em uma movimentada esquina.

Mas cheirava à decadência.

Os alunos eram raros e descompromissados. Lembro-me que poucos aceitavam usar aquela tábua que tapava as teclas. E a professora costumava lixar as unhas durante as aulas, de modo que não era uma bedel lá muito atenta à aplicação daqueles jovens datilógrafos em formação.

Eram nove máquinas de escrever, dispostas em três fileiras de três. Nem todas eram da marca que emprestava o nome à escola. Havia algumas Olivettis também – e eu me lembro que as achava mais charmosas, mas isso se devia, muito provavelmente, menos ao design italiano e mais ao fato de que em casa havia uma dessas, de cantos arredondados, azulzinha.

As aulas, de uma hora cada, eram diárias

Como tinha um objetivo muito claro à frente – o tal computador –, me dediquei com devoção àquelas torturantes aulas. Que, salvo algum lapso de minha memória, eram diárias, uma hora por dia. A duração do curso era consonante à agilidade em passar aquelas lições todas da apostila, de modo que eu gostaria muito de resumir meu curso em um mês – tarefa impossível, evidentemente, já que o programa havia sido planejado para um semestre. Desconfio que terminei, glorioso, em cinco meses e meio, coisa assim.

Ganhei diploma do curso de datilografia. Tenho-o até hoje.

Ganhei o computador, o primeiro de alguns até chegar ao atual.

Mas, o mais importante, aprendi a digitar com razoável velocidade e destreza – e esta habilidade, nunca perdi.

***

Meses após a conclusão de meu curso, a escola Remington fechou as portas de vez. Nem o imóvel existe mais – hoje ali funciona um supermercado. Taquarituba ainda teve uma outra escola do gênero, que tentava soar mais contemporânea, substituindo as máquinas de escrever por computadores não lá muito novos e o termo “datilografia” por “digitação”. Claro que não deu certo – as aulas de ASDFG HJKLÇ eram em um processador de texto do Windows 3.11 e a molecada conseguia se distrair com o Paintbrush e outros programinhas da vida em vez de percorrer as páginas de letrinhas da apostila.

Em casa, a Olivetti ainda ocupou um nobre espaço – mais decorativo do que útil – na biblioteca, ao lado do computador, por muito tempo. Talvez porque a faxineira estivesse cansada de limpar a poeira acumulada nela, talvez desta vez por idiossincrasia de minha mãe, um belo dia a máquina foi transferida para um quartinho dos fundos. Para o adolescente obcecado pelas letras que eu era, a máquina era um símbolo do escritor, ou pelo menos do jornalista, que eu sonhava me tornar. Aquele charme romântico.

Um escorregão e um tombo: escoriações leves na Olivetti

Um belo dia, idiotamente, corri pra desenterrar a velharia. Na volta, escorreguei no tapete e levei um tombo fenomenal: Olivetti e eu sofremos escoriações leves, mas suficientes para que eu entendesse que o Word do computador era bem mais prático para minhas primeiras aventuras com as palavras.

Profissionalmente, jamais utilizei uma máquina de escrever. No primeiro jornal em que trabalhei, a partir de meus 14 anos, ainda existiam resíduos de uma imprensa analógica – como o past-up -, mas os textos que recortávamos para diagramar manualmente, montando com cola bastão na página, eram redigidos em Word, já na colunagem pré-definida.

Não tenho a menor ideia do que aconteceu com minha professora de datilografia. Apenas a certeza de que ela mudou de profissão.