Shoppings de SP: o ‘teste do trocador’
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Shoppings de SP: o ‘teste do trocador’

Edison Veiga

03 Maio 2014 | 18h59

FOTO: DÉBORA KLEMPOUS/ ESTADÃO

As facilidades vendidas sob o pacote shopping center se tornam muito mais atrativas quando se experimenta a paternidade (ou a maternidade). Com bebê de poucos meses, coisas a que antes o cidadão nem dava tanto valor assim como “estacionar já dentro do local, sem precisar tomar chuva ou vento” fazem todo sentido. Para colaborar ainda mais com esse espírito, virou praxe esses estabelecimentos oferecerem um rol de mimos às pessoas nessa situação.

Não, não estamos falando de massagens relaxantes nem de descontos imperdíveis. A coisa mais incrível que pais e mães de bebês imaginam para garantir um passeio sem sustos ou tropeços é um trocador limpinho, um carrinho prático e um espaço de amamentação confortável. Esse conjunto geralmente é batizado pelos marqueteiros que organizam os shoppings centers como “Espaço Família”.

Conceito apresentado, a reportagem foi às ruas – ou melhor, aos shoppings paulistanos. Nos últimos dois meses, em dias esporádicos e, em alguns casos, visitando o mesmo estabelecimento mais de uma vez, o Estado testou os serviços de dez dos principais shoppings da cidade: JK Iguatemi, Iguatemi, Cidade Jardim, VillaLobos, Vila Olímpia, Eldorado, Morumbi, Pátio Paulista, Center Norte e Leste Aricanduva.

Reprovados, reprovados mesmo, somente o Morumbi e o Leste Aricanduva. Quando a reportagem esteve no primeiro, na manhã do dia 3 de abril, foi de cara surpreendida com a informação de que o shopping, ao contrário da imensa maioria, não oferece carrinho de bebê como cortesia. Ao cliente com bebê restam, portanto, duas opções: ou levar o trambolho no porta-malas do carro ou locar (R$ 7 por dia) em uma empresa interna, indicada pelo serviço de informações do shopping. O trocador era um espaço improvisado dentro de um banheiro feminino. Ou seja, um pai desacompanhado da mulher não teria como trocar as fraldas do filho. Não havia sala de amamentação; para quebrar o galho, estava disponível uma cadeira para isso também dentro do banheiro feminino, contrariando normas de higiene.

Já no Leste Aricanduva, visitado em 21 de abril, as agruras começaram já no empréstimo do carrinho. Foi o único estabelecimento em que a reportagem pegou fila para isso – no caso, 11min48s de espera. Depois, a surpresa com as regras: ali, o empréstimo não é para o dia todo – precisa ser “renovado” a cada 3h. De quebra, o carrinho estava sujo: aparentemente, tinha restos de comida no cinto. Na hora do pit stop para troca de fraldas e amamentação, mais duas desagradáveis surpresas. A primeira: os trocadores não estavam cobertos com forro de proteção descartável no momento em que utilizamos o serviço (por volta das 15h40), mesmo com pelo menos três bebês sendo trocados àquela hora. A segunda: o micro-ondas fica dentro da sala de amamentação, onde, é claro, o acesso é restrito a mulheres. Como um pai desacompanhado da mãe faz para esquentar mamadeira ou papinha para o filho? Por último, eram visíveis os danos às poltronas de amamentação, com alguns rasgos.

Os demais todos passaram no teste, alguns com poucos reparos. No Vila Olímpia, o Espaço Família – ao menos no dia 23 de março, quando a reportagem lá esteve – era dominado por uma intermitente música infantil em alto volume, capaz de assustar os bebês mais sonolentos. Na sala de amamentação, esse era o comentário das mães – que só queriam um pouco de sossego. No Center Norte, a ressalva está na localização do espaço. O recinto fica em área externa do shopping – o que pode causar algum desconforto sobretudo em dias de chuva ou vento forte.

Por falar em sala de amamentação, talvez seja importante explicar as diferenças entre tais recintos. Como muitas mulheres preferem intimidade nesse momento, cada shopping resolve a questão de um jeito. A maioria cria um espaço, ao lado dos trocadores com uma divisória de alvenaria ou de vidro – com cortinas. No caso do VillaLobos, a cortina que garantiria essa privacidade estava faltando em uma das laterais. O Pátio Paulista, assim como o Leste Aricanduva, também deixa o micro-ondas dentro da sala de amamentação – criando um certo constrangimento a um pai desacompanhado da mãe.

Comodidades. A retirada e a entrega do carrinho, em geral, é feita nos tais Espaços Família. Não havíamos nos incomodado com o fato de ter de se deslocar, muitas vezes por três ou quatro pisos, até o tal local com o bebê no colo até nos depararmos com a comodidade do JK Iguatemi. Logo na entrada do shopping, diante da costumeira pergunta – “em que andar fica o Espaço Família?” – a resposta do concierge foi: “o senhores desejam um carrinho? pois aguardem que eu trarei em um minuto”. E pronto. Depois, ao fim do passeio, era só devolver a qualquer um dos seguranças em qualquer andar. O JK foi o único dos shoppings visitados, aliás, que não exigiu um cadastro para o uso do carrinho ou do Espaço Família. Confiança total na idoneidade do usuário.

Nos trocadores, é comum que os shoppings disponibilizem fraldas aos esquecidos ou desprevenidos. Pomada anti-assaduras, lencinhos umedecidos, cotonetes e algodão nem sempre ficavam à vista. Na estrutura básica do Espaço Família, todos – com exceção do Morumbi – ofereciam um micro-ondas e um bebedouro d’água.

Mas se estamos falando em comodidades, os melhores dentre os visitados são Iguatemi e JK Iguatemi. Esqueça a ideia de trocadores coletivos, um ao lado do outro. Esqueça a preocupação com a intimidade na sala de amamentação. Nesses dois shoppings, há pequenas salinhas individuais. Entrou, fechou a porta e lá dentro há um trocador e uma poltrona de amamentação – no caso do JK, ao menos no dia da visita, ainda havia uma garrafinha de água mineral já no braço da poltrona, prontinha para a mamãe tomar enquanto amamenta.

Shoppings. Todos os dez shoppings visitados foram contatados antes da publicação desta reportagem. O Morumbi explicou que o improviso se deve a uma obra de melhorias do espaço, com previsão de término em maio. E o carrinho sempre foi e deve continuar sendo cobrado. O Leste Aricanduva disse que recebe 4,5 milhões de pessoas por mês e, em dias de grande fluxo, “pode acontecer uma pequena espera” na retirada do carrinho. O shopping também lamentou o fato de algumas poltronas de amamentação estarem danificadas e informou que iria repará-las imediatamente. A administração também informou que as funcionárias estão orientadas a forrar os trocadores durante todo o funcionamento do fraldário e são treinadas a “dar suporte aos pais” no caso da necessidade de usar o micro-ondas que fica em local de acesso restrito a mulheres.

O VillaLobos informou que o espaço passa por reformas e que as cortinas do recinto de amamentação já haviam sido recolocadas em 17 de abril. O Pátio Paulista explicou que quando um pai precisa utilizar o micro-ondas na sala de amamentação, funcionárias instalam um biombo para proteger a privacidade das mães que estiverem amamentando. O Eldorado informou que obras de revitalização do espaço estão previstas para iniciar em julho.

Pediatra. O Estado procurou a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para expor os problemas encontrados. “No caso de bebês de até 1 ano, é muito arriscado utilizar os carrinhos disponibilizados pelos shoppings”, argumentou a pediatra Renata Dejtiar Waksman, do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da entidade. “Não sabemos como é a higienização e muitos deles têm uma estrutura instável.”

A pediatra considerou inadmissível que um espaço de amamentação seja improvisado em um banheiro. “Um banheiro é local contaminado, frio, úmido e de grande movimento de pessoas. Totalmente o inverso do que precisa ser um espaço de amamentação”, comentou.

Renata disse que o ideal seria que os espaços de amamentação e trocador fossem individuais – que a mãe e/ou o pai pudessem entrar, fechar, tomar as providências ali dentro, com conforto, sossego e privacidade – situação esta que a reportagem encontrou apenas nos shoppings JK Iguatemi e Iguatemi.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 4 de maio de 2014

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