Por trás da greve que parou o Jockey Club por duas semanas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por trás da greve que parou o Jockey Club por duas semanas

De acordo com o sindicato, foi a primeira vez que não houve páreos por duas semanas seguidas

Edison Veiga

05 Março 2016 | 17h00

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão


_____________________
Paulistices no Facebook: curta!
E também no Twitter: siga!
_____________________

Nos dois últimos sábados e nos dois últimos domingos, cavalo nenhum correu no Jockey Club de São Paulo, quebrando uma tradição de 140 anos. Dos 370 funcionários da instituição, 250 estavam em greve. O motivo, quatro meses de salários atrasados, escancarou mais uma vez a crise financeira que acomete a agremiação desde a última década do século 20.

A paralisação dos funcionários durou do dia 19 à noite da última quarta, 2. “A greve foi suspensa, mas podemos retomá-la a qualquer momento se o acordo não for cumprido”, promete Ricardo Mauricio Camargo, presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Hípicos no Estado de São Paulo. Por acordo, entende-se o pagamento, em datas combinadas até o fim deste mês, dos valores pendentes de novembro e dezembro; e a fixação de prazos e o cumprimento do pagamento do restante em abril.

“Eles estão no direito deles. Compreendo perfeitamente”, afirmou ao Estado o presidente do Jockey, Eduardo da Rocha Azevedo, horas antes da assembleia dos funcionários decidir pela retomada das atividades. Ex-presidente da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e fundador da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o empresário assumiu a administração do clube em 2011 com a promessa de colocar em prática uma rígida gestão financeira. A um ano de concluir seu segundo e último mandato, considera que, a despeito dos problemas, tem sido bem-sucedido.

“Não fosse o nosso trabalho, a dívida do Jockey hoje estaria na casa dos R$ 600 milhões. Conseguimos reduzir para R$ 200 milhões, que é bem menos do que o nosso patrimônio”, diz. “Vendemos um prédio e fizemos acertos com a Prefeitura e com a Receita Federal. Do total devido, R$ 50 milhões é em curto prazo, o restante são parcelamentos que estamos cumprindo.”

O prédio vendido foi a antiga sede social do clube, no centro – um edifício de 16 andares que foi arrematado por R$ 90 milhões. Azevedo sonha em conseguir que os sócios aprovem, em assembleia, a venda de outros imóveis do clube. Principalmente o Hipódromo de Campinas. “Uma área de 380 mil metros quadrados, às margens da Rodovia Anhanguera, e só dá prejuízo…”

Pelas suas contas, para deixar o clube novamente em superávit, é preciso perder os anéis para manter os dedos. “Se tivermos de abrir mão de patrimônio para preservar isso aqui, o Hipódromo da Cidade Jardim, temos de fazer isso”, resigna-se.

História. Fundado em 14 de março de 1875, sob o nome Club de Corridas Paulistano, o Jockey nasceu com 73 sócios, todos da elite paulista da época. A primeira corrida oficial aconteceria apenas em 29 de outubro de 1876, no Hipódromo da Mooca, na Rua Bresser. Foram apenas dois cavalos inscritos, Macaco e Republicano – o páreo foi vencido pelo primeiro.

Foto: Acervo Estadão

Foto: Acervo Estadão

Episódios prosaicos não faltam à história da agremiação. A primeira vez que um cavalo cujo dono era uma mulher venceu uma corrida, por exemplo, foi em 1877. Corisco, o ganhador, pertencia à Maria Domitila de Aguiar Castro, neta da Marquesa de Santos, a mais famosa amante de d. Pedro I.

Em 21 de abril de 1912, foi do Hipódromo da Mooca que decolou o avião pilotado pelo comandante Edu Chaves, com destino ao Rio de Janeiro – um marco da história da aviação. Em 1968, quando a rainha Elizabeth II visitou o Brasil, o Jockey Club foi uma de suas paradas.

Se a agremiação já havia nascido como ponto de encontro, lazer e entretenimento da elite, os anos mais gloriosos viriam após a inauguração do Hipódromo Cidade Jardim, a partir de 25 de janeiro de 1941. O terreno, de 600 mil metros quadrados, foi doação da Companhia City, com o intuito de valorizar “o outro lado do rio”, onde ela então começava a empreender loteamentos.

Crise. Com o passar dos anos, as festas regadas a champanhe, o charme dos apostadores de chapéu e o peso político dos associados participantes foi dando lugar a um cenário de crise econômica, que começou a ser escancarado em 1995. Impostos pendentes, taxas em débito e contas que não se fechavam mais eram problemas empurrados de uma administração a outra. Ninguém parecia enxergar com clareza os problemas – tampouco buscar soluções.

Exemplos são dados pelo próprio presidente. “Atualmente, a corrida de cavalos é deficitária, não só aqui, mas em todo o Brasil. Trata-se de um esporte que está em baixa, as pessoas perderam interesse nas apostas”, afirma. “O custo de montar é maior do que a arrecadação. O turfe dá um prejuízo de R$ 18 milhões por ano ao Jockey de São Paulo.” Com o fim da paralisação dos funcionários, as provas serão retomadas normalmente, com páreos aos sábados e domingos, a partir das 14h.

A planilha dos associados é outro problema. Quem se detém a analisá-la, em um primeiro momento, pensa estar olhando para um rombo previdenciário de país com população de idosos maior do que de jovens. São 1 mil pagantes (R$ 495 por mês). E 900 isentos. “E é um clube muito mais frequentado por jubilados do que por pagantes”, alfineta o presidente. “É uma coisa inacreditável: na maioria dos clubes, o sócio é jubilado quando completa 50 anos de contribuição e tem pelo menos 75 de idade. Aqui, o sujeito que faz 35 anos como sócio não paga mais… Temos jubilados de 40 anos de idade.”

O título do Jockey custa R$ 5 mil, mas há uma taxa de transferência de R$ 25 mil. A inadimplência é baixa, na casa dos 8%. São R$ 6 milhões por ano de arrecadação via associado. Para a atual administração, interessante mesmo é explorar o espaço com eventos. A expectativa orçamentária de 2015 era arrecadar R$ 15 milhões com isso. Por uma série de entraves burocráticos e embargos, conseguiram apenas R$ 2 milhões. “Tudo isso foi nos sufocando”, comenta Azevedo, em relação à crise atual.

A meta é enxugar mais os gastos para “equilibrar o clube operacionalmente até janeiro de 2017”. Para isso, o presidente quer diminuir o número de funcionários – que, no passado, já foram mais de 1 mil – dos atuais 370 para cerca de 200. “Sem prejuízo das atividades do clube”, gosta de ressaltar.

E, além do projeto de vender mais imóveis, Azevedo quer promover, o mais rapidamente possível, um leilão de obras de arte, mobiliários, talheres e afins, com o objetivo de sanar as despesas mais imediatas. A ideia é aprovar isso em assembleia ainda neste mês de março e, em seguida, promover um leilão. A administração do clube não quis dar exemplos de quais ou quantas obras irão para o martelo, tampouco divulgou uma estimativa de arrecadação. Entre funcionários, entretanto, comenta-se que a expectativa é que o pregão obtenha de R$ 5 milhões a R$ 8 milhões.

Em comunicado enviado pela presidência do clube aos associados no mês de fevereiro, além dos débitos salariais com funcionários, informou-se uma dívida de R$ 9 milhões na quitação de prêmios a proprietários e criadores, “além de débitos crônicos com prestadores de serviços, provedores de água, luz e telefonia, fornecedores e impostos correntes”. “Um quadro de colapso iminente, praticamente insolúvel, que só terá chance de superação por meio do comprometimento e da firme participação dos associados do clube”, frisou o documento.

No tête-à-tête, o discurso do presidente é outro, é otimista. “Com esses enxugamentos que estamos promovendo e a receita de shows e eventos, o Jockey Club é muito viável, apesar de todos os problemas”, diz Azevedo. Seu páreo é duro: ele corre contra o tempo porque quer entregar o clube no superávit antes de tirar o cavalinho da chuva, em março de 2017. Ao encerrar o segundo mandato, pelo estatuto do clube, não pode mais ser reeleito. “Ainda bem”, comenta, bem baixinho.