Por título mundial, Paranapiacaba restaura patrimônio
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Por título mundial, Paranapiacaba restaura patrimônio

Candidata a ser reconhecida pela Unesco como bem da humanidade, vila ferroviária recebeu R$ 41 milhões do PAC para recuperar prédios históricos

Edison Veiga

25 Julho 2015 | 15h41

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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São 15h de quinta-feira, a neblina ocupa as estreitas ruas de Paranapiacaba, e 20 metros adiante nada mais se enxerga. Forasteiros, como a reportagem do Estado, têm dificuldades para se localizar. “Aqui é assim: em minutos a névoa toma conta de tudo”, comenta o arquiteto e urbanista Aguinaldo Gonçalves, gerente de projetos da Secretaria de Gestão dos Recursos Naturais de Paranapiacaba e Parque Andreense.

É ele quem nos guia pela pequena vila ferroviária, construída na segunda metade do século 19 por ingleses da São Paulo Railway, situada no município de Santo André, no ABC paulista. Mostra o conjunto histórico que, tombado pelos órgãos municipal, estadual e federal de proteção ao patrimônio, agora quer ganhar visibilidade mundial: se for bem-sucedida, em breve Paranapiacaba vai se juntar ao clube de 19 outros locais brasileiros – entre os quais, a cidade de Brasília, o centro histórico de Salvador e as paisagens do Rio – que detêm o título de Patrimônio da Humanidade da Unesco, a Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura. Caso tenha sua candidatura aprovada, será o único representante do Estado de São Paulo.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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O pleito foi apresentado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no fim de 2013. Menos de seis meses depois, veio a confirmação da Unesco: a candidatura havia sido homologada. “Agora, precisamos preparar um dossiê detalhado, justificando as nossas peculiaridades e a nossa relevância mundial”, afirma o secretário de Gestão dos Recursos Naturais de Paranapiacaba e Parque Andreense, Ricardo Di Giorgio.

Para isso não há prazo. Mas a entrega de tal documento sinaliza à Unesco que o local está pronto para ser analisado e vistoriado. “E, sabemos, do jeito que está não seríamos aprovados. Portanto, só daremos o próximo passo depois de concluídas as obras de restauro”, complementa Di Giorgio.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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Verba federal.O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas, do governo federal, destinou a Paranapiacaba R$ 41 milhões. Desde maio, o silêncio cotidiano da pacata vila de cerca de mil habitantes vem sendo interrompido por britadeiras, pás, carrinhos de mão e 30 operários. Ainda é só o começo de obras que vão se arrastar por, no mínimo, dois anos e meio.

Devem passar por melhorias, por exemplo, as 242 casas históricas da parte baixa da vila. Os imóveis, que pertencem à prefeitura de Santo André, são locados a interessados em residir neles – no papel, esses moradores são permissionários e pagam, em média, R$ 300 mensais.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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Para viabilizar essas obras sem deixar ninguém desabrigado, a administração municipal adotou uma estratégia: nos últimos anos, quando uma casa ficava vaga, não entrava no mercado. “Hoje temos um estoque de cerca de 50 residências, que serão escalonadas durante as obras, para que ninguém tenha de sair da vila”, diz Gonçalves.

Também estão no cronograma do restauro o antigo almoxarifado da São Paulo Railway – que deve ser transformado em restaurante –, o campo de futebol, a garagem das locomotivas (leia mais abaixo) e outras construções.

Com intervenção mais simples, a biblioteca é o único prédio concluído. Em 2005, o imóvel, possivelmente erguido em 1915, foi destruído por um incêndio. Acabou reconstruído dois anos mais tarde, mas com a fachada em desacordo com o desenho original. “Portanto, agora foi feita essa adequação pontual”, afirma o arquiteto.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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Galpões. No momento, as obras se concentram nos galpões das oficinas. Erguidos em 1901 para dar manutenção às locomotivas, eles vão recuperar, de forma simbólica, suas funções. “Aqui, o plano é criar um centro de referência em restauro e conservação, com cursos e oficinas”, antecipa Gonçalves. Nesta primeira fase, os operários estão mais atentos em destruir do que em restaurar. Explica-se: a preocupação é a retirada de todo o material que não tem relevância histórica porque foi ali agregado ao longo de reformas posteriores à construção original.

Quando estiverem prontos, os galpões terão importância central na histórica vila. Restauração será a peça-chave nesses dois anos e meio. Mas só com a conservação constante Paranapiacaba será visível para o Brasil e para o mundo. Com ou sem neblina.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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Trem turístico. “É uma situação triste: Paranapiacaba, apesar de vila ferroviária, não tem trem”, comenta o arquiteto e urbanista Aguinaldo Gonçalves, funcionário da prefeitura de Santo André. Atualmente, cruzam o povoado apenas locomotivas de carga. Passageiros, como os de antigamente, somente no concorrido trem turístico da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), três domingos por mês.

Os embarques e desembarques desse programa são feitos em um ponto improvisado. Com as obras em andamento, uma nova estação deverá ser inaugurada a poucos metros desse ponto, no histórico prédio datado de 1868, que outrora funcionou como garagem das locomotivas.

Ali, o restauro ainda não começou. Mas, na cabeça dos envolvidos, a imagem do futuro próximo já está nítida. “A estrutura deve ser mantida e os portais de madeira que existiam, de acordo com registros históricos, serão reconstruídos”, conta Gonçalves.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

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O bilhete do Expresso Turístico custa R$ 36. O programa é um sucesso de público – tanto que todas as passagens para os próximos dois meses já estão esgotadas.

“Neste ano, a estrutura do evento foi pensada de forma a valorizar a vila de arquitetura inglesa, que testemunhou a importante fase de expansão das ferrovias no País”, diz a companhia, em nota.

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