Papa Francisco e os gays: lições de acolhimento para um mundo cheio de ódio
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Papa Francisco e os gays: lições de acolhimento para um mundo cheio de ódio

CRÔNICA

Edison Veiga

08 Agosto 2017 | 15h21

Foto: Reprodução

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A esta altura, a internet já fez o favor de tornar fortemente pública a notícia de que o papa Francisco enviou uma carta abençoando uma família formada por um casal gay e seus filhos no Paraná. Toni Reis e David Harrad adotaram três crianças e tomaram a decisão de batizá-los na Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em Curitiba.

Após a cerimônia religiosa, Toni decidiu enviar uma carta ao Vaticano, comunicando o ocorrido. Lembrou ele que era uma alegria poder ter os filhos inseridos na Igreja, a mesma que já teve um tribunal de inquisição que, no passado, queimou homossexuais.


A resposta do papa, mais do que um corajoso ato de progressista acolhimento em tempos tão nebulosos e perigosamente retrógrados, tem uma novidade: deve ser a primeira vez na história que um pontífice da Igreja Católica refere-se a uma união homoafetiva utilizando o termo “família”.

Isto é importante. Papa Francisco, como o faz desde o início do seu pontificado, é hábil em demonstrar, com palavras e gestos, que o amor é mais importante do que os rótulos. Que o abraço fraterno e a acolhida devem superar o ódio e a intolerância.

Ele pode não mudar as leis do jogo – de uma catequese conservadora cujas regras vêm sendo escritas há quase 2 mil anos. Mas cria jurisprudências. Com seus atos, acaba influenciando positivamente todo o clero e, por consequência, os leigos também. Com suas palavras, cria salutares precedentes de acolhimento que reverberam em pequenas e grandes comunidades espalhadas por todo o mundo.

Não é a primeira vez que Francisco dá declarações reconhecendo a dignidade dos homossexuais. No recém-lançado ‘Quem Sou Eu Para Julgar?’ (Ed. Leya), um compilado de trechos de diversos discursos e documentos assinados pelo pontífice, um capítulo todo é dedicado ao tema. Ele diz que “desejamos, antes de mais nada, reiterar que toda pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com repeito, tomando-se o cuidado de evitar qualquer rótulo de discriminação injusta e, particularmente, qualquer forma de agressão e violência”.

Francisco também conta que, quando cardeal Jorge Bergoglio em Buenos Aires, costumava receber cartas de pessoas homossexuais que lhe diziam que a Igreja os havia sempre condenado. “Feridos sociais”, é como o papa os chama. “Mas a Igreja não quer fazer isso”, afirma o sumo sacerdote. “Se uma pessoa homossexual tem boa vontade e está à procura de Deus, não sou ninguém para julgá-la.”

As sábias, equilibradas e acolhedoras palavras de Francisco sobre os homossexuais ecoam em outros campos. É o mesmo papa que pede respeito às mulheres, historicamente vítimas de séculos e séculos de cultura machista. É o mesmo papa que clama por dignidade aos imigrantes, tão maltratados em nosso tempo. É o mesmo papa que lembra que precisamos cuidar da nossa casa, no caso, o planeta Terra – em uma periclitante época em que efeitos do aquecimento global são sentidos diuturnamente.

Instigante um tempo em que a voz progressista, transformadora e próxima do que se espera de uma contemporaneidade vem justamente do líder da tradicionalíssima Igreja Católica – de onde o natural parece sempre ser a tônica conservadora. Triste um tempo em que o reacionarismo e o risco de retrocesso emana de líderes de democracias, de onde o sensato seria esperarmos avanços.

Enquanto temos um papa que acolhe os homossexuais, há Donald Trump – o presidente dos Estados Unidos recentemente proibiu transexuais nas Forças Armadas, por exemplo. Enquanto temos um papa que busca compreender e exaltar o papel da mulher na sociedade, há Michel Temer – o presidente do Brasil em uma desastrada declaração em março deu a entender que o papel da mulher é fiscalizar os preços do supermercado. E exemplos assim, infelizmente, parecem pulular em todos os cantos da política mundial.

Domingo é Dia dos Pais. Hoje cedo, ao olhar para meu filho, fiquei imaginando que, quase quatro anos atrás, quando ele nasceu – coincidentemente, no mesmo ano em que Bergoglio se tornou Francisco – o mundo parecia mais promissor. Francisco nasceu em um cenário global de otimismo. Havia uma sensação de que caminhávamos ao encontro de mais tolerância, de mais liberdades, de menos opressão.

Aquele rascunho de futuro, infelizmente, não foi adiante. Acabaram sendo desenhados projetos de muros, grades, proibições, cerceamentos. Espero que a voz de Francisco, o papa, seja mais ouvida. Espero que Francisco, meu filho, sempre possa ser quem ele quiser, o que ele quiser. E jamais sofra preconceitos por suas escolhas e identidades, em todos os campos, em todos os espectros, sejam quais elas forem. (A exceção que confirma a regra é o time de futebol: o Palmeiras lhe foi imposto sem questionamentos ainda na maternidade.)

Foto: Fábio Motta/ Estadão

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