Papa Francisco e os avanços da Igreja em 2014
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Papa Francisco e os avanços da Igreja em 2014

A convite do Estado, analistas do catolicismo comentam as ações do sumo pontífice ao longo do último ano

Edison Veiga

01 Janeiro 2015 | 18h38

Foto: Fábio Motta/ Estadão

Foto: Fábio Motta/ Estadão

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Um papa que fala ao mundo todo – não só aos católicos –, quer uma Igreja mais acolhedora e não tem medo de mudanças. Em síntese, é assim que Francisco vem sendo visto por analistas do catolicismo, ao término de 2014 – primeiro ano civil completo de seu papado.

As transformações que o sumo pontífice buscava imprimir à Igreja, desde março de 2013, quando assumiu o trono de Pedro, se consolidaram como processos em 2014. “A toada continua. Portanto, ele mantém o ritmo daquilo a que se propôs quando (de cardeal argentino Jorge Bergoglio) se tornou Francisco”, comenta o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer, professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“Só podemos fazer uma avaliação positiva e surpreendente do trabalho do Papa Francisco em seu primeiro ano de pontificado. Tudo o que ele mostrou com gestos proféticos e palavras desde seu aparecimento diante da Praça de São Pedro vem sendo realizado em todos os campos de sua atuação como chefe de Estado do Vaticano e como líder espiritual do mundo católico”, completa o padre Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC. “Porém ele é um papa que fala ao mundo inteiro e não se restringe aos católicos apenas. Nessa linha a sua postura diante dos pobres e oprimidos tem sido uma marca muito presente.”

Costa enumera questões como “a condenação e a preocupação com os problemas internos da Igreja em relação aos escândalos, que criam uma chaga que sangra impiedosamente, mostram sua coragem e seu sofrimento”, “a condenação e o esforço para conter a sangria dos escândalos financeiros do Instituto para as Obras de Religião (o banco do Vaticano)” e a “sua visão de Igreja pobre com os pobre e seus apelos contra o carreirismo eclesiástico”.

De acordo com a avaliação do diretor da Faculdade de Teologia, isto tem criado outra mentalidade na Igreja. “O ecumenismo e as relações inter-religiosas tiveram um grande salto de qualidade, com sua abertura de coração e visitas ao mundo oriental. Por fim, a busca de um tratamento pastoral para as questões que afligem a Igreja, como as novas concepções de família, mostram que o Papa Francisco é um pastor que cuida das ovelhas feridas com ternura”, diz ainda. “Ele é um papa da paz. Desejo que consiga avançar e tenha tempo e apoio para aprofundar todas as reformas que iniciou em apenas um ano de pontificado.”

Auge. A realização do sínodo extraordinário sobre a família, em outubro, foi considerado o momento mais importante do pontificado de Francisco até o momento. “Não houve retrocesso, entretanto, acabou não ocorrendo o avanço que se esperava. Pretendia-se um discurso mais generoso (aos homossexuais e aos divorciados)”, lembra o teólogo Altemeyer. “Mas isto é porque ele quer o consenso, ‘ou vamos todos juntos ou vamos discutir mais’. Não vai impor mudanças de cima para baixo.”

“A postura dele é de acolhimento. Francisco mostra que o catolicismo precisa estar preparado para essas situações”, afirma a antropóloga e historiadora Lidice Meyer Pinto Ribeiro, professora de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A Igreja não está acostumada a lidar com questões como o divórcio e a homossexualidade. E isso tem machucado e afastado muitas pessoas.”

Vigário regional do Opus Dei no Brasil, o monsenhor Vicente Ancona Lopes lembrou que, no evento, Francisco “encorajou os bispos a falarem com plena liberdade sobre a crise e dificuldades da família monogâmica”. “Como o papa enfatizou, não se colocaram em discussão as verdades doutrinais fundamentais do matrimônio, e sim a necessidade de uma abordagem pastoral mais incisiva e proativa para resgatar e reaproximar católicos que, ao não conseguirem levar adiante seu casamento, afastam-se da Igreja”, pontua o sacerdote, que também frisa a facilidade como o sumo pontífice se comunica com os povos. “É admirável o carisma midiático e a simpatia que a figura do papa continua despertando também entre não católicos”, elogia.

“Importante também a viagem à Terra Santa no sentido do apoio aos esforços do Estado de Israel pela paz na região”, complementa Lopes. “Na viagem à Turquia foi veemente o apelo em defesa das minorias cristãs diante dos ataques de radicais islâmicos em vários países.”

Politicamente, Francisco vem preparando terreno para prosseguir com as reformas que tem em mente dentro da Igreja. “Em fevereiro, ele tem a chance de eleger mais 14 cardeais. Isso propicia que ele vá alterando o quadro, ganhando um ventinho para respirar”, explica Altemeyer. “O importante é que ele está dando um passo por vez, lentamente, porém seguro e firme e sem se desviar 1 milímetro da rota originalmente proposta.”

O teólogo aposta em uma aproximação entre o Vaticano e as igrejas ortodoxas. “No fundo, ele pretende uma viagem a Moscou. E vai ser muito simbólica”, arrisca Altemeyer. “Francisco está querendo fazer uma unidade gigante, o que seria realmente inédito.”

A antropóloga e historiadora Lidice também lembrou da postura agressiva de Francisco no combate à pedofilia na Igreja. “As investigações estão mais profundas e ele demonstra ousadia de mexer no vespeiro”, comenta ela, que avalia que o contexto contemporâneo das comunicações, com o fenômeno das redes sociais, tem ampliado o carisma natural de Francisco. “O que ele fala acaba refletindo muito mais nas pessoas do que gestos de papas anteriores muito populares, como o próprio João Paulo II”, compara. “Ele usa palavras simples, se comunica com facilidade – mas tudo repercute muito mais por conta das mídias sociais”.

ALGUMAS FRASES DE FRANCISCO

“O que está acontecendo nos corações dos homens? O que está acontecendo no coração da humanidade. É hora de parar.”
Em 1º de janeiro de 2014, sobre os conflitos bélicos no mundo.
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“Causa horror pensar nas crianças que nunca poderão ver a luz, vítimas do aborto.”
Em 13 de janeiro, qualificando o aborto como consequência da “cultura do descarte”.
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“Manter diálogo significa crer que ‘a outra parte’ tem algo valioso a dizer. Dialogar não significa renunciar às nossas ideias, mas à pretensão de que são elas as únicas válidas.”
Em 23 de janeiro.
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“Hoje convido-vos a rezar juntos comigo por Sua Santidade Bento XVI, um homem de grande coragem e humildade.”
Em 11 de fevereiro, exatamente um ano após a renúncia de seu predecessor.
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“Pintar o papa como se fosse uma espécie de Superman, uma espécie de astro, é ofensivo. O papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos, como todos. É uma pessoa normal. Não gosto das interpretações ideológicas, de uma certa mitologia do papa Francisco. Sigmund Freud dizia, se não estou errado, que em toda idealização há uma agressão.”
Em 6 de março.
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“O ladrão que todos temos em nós me veio à mente.”
Em março, ao revelar que, nos anos 1990, furtou do caixão de um padre amigo argentino a cruz do rosário que ele tinha nas mãos.
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“Deixem de fazer o mal, convertam-se. O poder e o dinheiro que vocês têm agora, de tantos negócios sujos, um dinheiro ensanguentado, um poder ensanguentado, não poderão levá-los ao Paraíso. Ainda há tempo para vocês se converterem e não terminarem no inferno.”
Em 21 de março, aos mafiosos italianos.
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“Quando cheguei ao Brasil, no meu primeiro discurso oficial, disse que queria ingressar pelo portal do imenso coração dos brasileiros, pedindo licença para bater delicadamente à sua porta e passar a semana com o povo brasileiro. Porém, ao término daquela semana, voltando para Roma, cheio de saudades, dei-me conta de que os cariocas são uns ‘ladrões’! Sim, ‘ladrões’, pois roubaram o meu coração! Aproveito a presença de vocês, hoje, para agradecer-lhes por este ‘roubo’: Muito obrigado por terem me contagiado com o entusiasmo de vocês lá no Rio de Janeiro e por me ajudarem, hoje, a ‘matar’ as saudades do Brasil.”
Em 7 de abril.
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“Eu me sinto compelido a pedir pessoalmente perdão.”
Em 11 de abril, referindo-se aos atos dos padres que abusaram sexualmente de crianças
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“Alguns são mais papistas que o papa. Vá a outra paróquia e se confesse, que não há problema.”
Ao ligar para a argentina Jaquelina Lisbona, proibida por um padre na cidade de San Lorenzo de comungar por ser casada com um homem que já tinha sido casado. Jaquelina escreveu uma carta ao pontífice para saber o que deveria fazer.
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“Se, por exemplo, uma expedição de marcianos aparecer e um deles vir até nós e pedir para ser batizado, o que aconteceria? Quem somos nós para fechar as portas?”
O papa disse que batizaria, lembrando a conversão dos primeiros pagãos ao cristianismo.
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“A porta está sempre aberta. Eu farei o que o Senhor me disser para fazer: orar e buscar a vontade de Deus. Creio que Bento XVI não seja um caso único. Haverá outros ou não? Só Deus sabe, mas essa porta está aberta.”
Sobre se um dia renunciaria ao pontificado, como seu antecessor.
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“Para vencer, é preciso superar o individualismo, o egoísmo, todas as formas de racismo, de intolerância.”
Em mensagem enviada por conta da abertura da Copa.
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“Felicidades! O primeiro gol contra deve ter sido difícil de engolir.”
Disse ao arcebispo de Salvador, d. Murilo Krieger, no dia 14 de junho, sobre o gol contra do lateral brasileiro Marcelo na estreia da seleção brasileira na Copa, no dia anterior.
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“Quem escolhe este caminho de maldade, como os mafiosos fazem, não está em comunhão com Deus. Eles estão excomungados.”
Em visita à cidade de Cassano all’Ionio, na região da Calábria.
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“De modo especial, saúdo os campeões da América, a equipe do San Lorenzo, que está aqui presente e é parte de minha identidade cultural.”
Parabenizando, em 20 de agosto, os campeões da Libertadores da América, o time de seu coração.
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“Que ninguém se considere a ‘armadura’ de Deus enquanto planeja e executa atos de violência e opressão. Que ninguém use a religião como pretexto para ações contra a dignidade humana.”
Em 21 de setembro, em crítica aos radicais islâmicos.
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“Que ninguém diga ‘isso não se pode dizer… Fulano pensará isso ou aquilo de mim’. É preciso dizer tudo o que se sente, a verdade sem temores.”
Na abertura do Sínodo Extraordinário sobre a Família, em 6 de outubro.
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“Deus não teme coisas novas. É por isso que ele está continuamente nos surpreendendo, abrindo nossos corações e nos guiando em caminhos inesperados.”
No encerramento do Sínodo, em 19 de outubro.
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“Os Estados devem se abster de punir criminalmente as crianças que ainda não completaram seu desenvolvimento em direção à maturidade e, por tal motivo, não podem ser imputáveis. Eles (os menores), ao contrário, deveriam ser os destinatários de todos os privilégios que o Estado está disposto a oferecer, tanto no que diz respeito a políticas de inclusão quanto em práticas orientadas a aumentar seu respeito pela vida e pelos direitos dos outros”
Sobre a redução da maioridade penal, em 23 de outubro.
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“Quando lemos no Gênesis (primeiro livro da Bíblia) sobre a criação, corremos o risco de imaginar que Deus tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas. Mas não é assim.”
Em 27 de outubro, em discurso em que reconheceu as Teorias do Big Bang e da Evolução como corretas