Com dois papas, Igreja abre Ano Santo católico
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Com dois papas, Igreja abre Ano Santo católico

Ao lado de Bento XVI, Francisco lembrou os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II; Jubileu foi antecipado em uma década

Edison Veiga

09 Dezembro 2015 | 01h12

Foto: Angelo Carconi/ EFE

Foto: Angelo Carconi/ EFE


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Ao abrir, na terça (8), o Ano Santo católico, o papa Francisco lembrou do papel do Concílio Vaticano II, encerrado exatamente 50 anos antes, em 8 de dezembro de 1965. “Hoje (ontem), aqui em Roma e em todas as dioceses do mundo, ao cruzar a Porta Santa, queremos também recordar outra porta que, há cinquenta anos, os padres do Concílio Vaticano II escancararam ao mundo”, afirmou o sumo pontífice. “Esta efeméride não pode lembrar apenas a riqueza dos documentos emanados, que permitem verificar até aos nossos dias o grande progresso que se realizou na fé. Mas o Concílio foi também, e primariamente, um encontro; um verdadeiro encontro entre a Igreja e os homens do nosso tempo.” (Confira a íntegra do pronunciamento neste link.)

Forte, a citação é uma demonstração clara do caráter impresso pelo papado de Francisco. “Ele quer colocar em pratica aquilo que foi visado e previsto por João XXIII, quando inaugurou o Concílio”, analisa o teólogo Francisco Catão, autor do livro ‘Catecismo e Catequese’, entre outros. “Na abertura do Concílio, João XXIII declarou que em face do mundo moderno a Igreja precisava mudar de atitude e deixar de querer corrigir o mundo, mas sim empregar o remédio da misericórdia, compreender as fraquezas e dificuldades e ser uma mãe cuidadosa. Francisco retomou essa bandeira, desde sua eleição em 2013.”

Para Catão, João 23 fez um projeto que se efetivou muito discretamente; o atual papa está colocando-o em prática. Por isso, aliás, o Ano Santo foi aberto agora, extraordinariamente, uma década antes do convencional. Com o mote da misericórdia.

Tradição iniciada no ano de 1300, com o papa Bonifácio VIII, o Jubileu ou Ano Santo costuma acontecer a cada 25 anos. O último foi em 2000, ainda com o papa João Paulo II. A última vez que houve um extraordinário foi em 1423, justamente para celebrar a restauração pós-Cisma do Ocidente.

Durante o Jubileu, conforme a tradição católica, aquele que passa sob a porta de uma igreja recebe a indulgência, ou seja, o perdão dos pecados. Ao final da missa de terça, na Basílica de São Pedro, o papa, após uma breve oração, subiu os degraus em silêncio e com três toques abriu a Porta Santa, oficializando o início do Ano da Misericórdia. Francisco foi o primeiro a atravessá-la, seguido pelo papa emérito Bento 16.

Foto: Massimo Sestini/ Polícia Italiana/ EFE

Foto: Massimo Sestini/ Polícia Italiana/ EFE

Diálogo. “Estamos em um momento que o mundo todo precisa de diálogo, do Oriente Médio até Brasília. Em todos os lugares encontramos confrontações que necessitariam de diálogo para serem resolvidas”, explica o biólogo e sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Na experiência católica, o diálogo sempre pressupôs a capacidade de perdão mútuo.”

Papa Francisco anunciou o Jubileu extraordinário em abril. Na bula publicada à época já enfatizava a importância da misericórdia, sobretudo em razão do cinquentenário do Concílio Vaticano II. Na semana passada, surpreendeu a muitos ao afirmar que até casos considerados muito graves pelo catolicismo, como o aborto, devem ser perdoados por um sacerdote durante o Ano Santo. “Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha sofrida e dolorosa”, disse Francisco, orientando os padres a receber essas pessoas “sabendo conjugar palavras de acolhimento genuíno”.

“Com isso, ele quis deixar um sinal forte da existência da misericórdia”, comenta Ribeiro Neto. “O papa demonstra que a misericórdia é para valer.”

Ribeiro Neto ainda pontua outra decisão que vigora durante o Jubileu: o fato de que, para os presidiários, cruzar as portas das celas também garante a indulgência, conforme quer o papa Francisco. “Isso significa que aquele criminoso, se arrependido, tem mais chances de atingir a indulgência do que qualquer outra pessoa. É um gesto emblemático”, aponta.

Se este é um inédito Ano Santo aberto por dois papas, Francisco e Bento, já houve um em que não havia sumo pontífice no Vaticano. Foi no exílio da França que Clemente VI abriu e assistiu ao Jubileu de 1350, o único ocorrido no período da Igreja conhecido como Cativeiro de Avignon – entre 1309 e 1377 –, em que a residência papal foi alterada para a cidade do sul francês.

O Jubileu da Misericórdia vai até 20 de novembro do ano que vem.