Os homens comuns da guerra paulista
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Os homens comuns da guerra paulista

Após a Revolução de 32, eles viraram jogadores, servidores e até dono de vinhedo

Edison Veiga

09 Julho 2015 | 00h01

Foto: Reprodução

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Acabou a Revolução Constitucionalista de 1932 e, poeira baixada, aqueles que lutaram e sobreviveram também precisavam seguir a vida. Teve quem voltasse a ser jogador de futebol e até quem foi tentar a sorte com um vinhedo na Argentina. Em comum, além do orgulho dos descendentes, está a chamada “última morada”: as cinzas de 720 deles repousam no subsolo do Obelisco Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 1932 – conhecido como Obelisco do Ibirapuera –, reaberto ao público em dezembro.

Foto: Arquivo de Família

Foto: Arquivo de Família

Paulo Lobato Giudice (1906-1996) (foto acima) fez carreira no Instituto Biológico, centro de pesquisa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. “Fui descobrir muito tarde sobre a participação de minha família na Revolução”, conta a neta, Camila Giudice. “Esse assunto não era comentado, mas outras realizações eram, das quais também temos muito orgulho.” No caso, a carreira do avô como servidor público do instituto, onde trabalhou no controle de pragas de gafanhotos em cafezais.

“Hoje, conto e perpetuo a história de heróis paulistas de 1932”, afirma Camila. “Fiz um retrato (uma pintura) do meu avô, que se encontra em acervo permanente no Tribunal de Justiça de São Paulo.”

São muitos os que, após as batalhas, assumiram ou reassumiram suas vidas civis – e, na morte, ganharam a homenagem no Obelisco. “Jogador de futebol, locutor de rádio, farmacêutico… Tem de tudo”, diz o publicitário Ricardo Della Rosa, neto de veteranos por parte de pai e de mãe e autor do blog Tudo Por São Paulo 1932.

Do esporte. Paulista de Santos, chamado por alguns cronistas esportivos contemporâneos de “Neymar dos anos 1920”, Araken Patusca (1905-1990) (foto abaixo) – nascido Abraham Patusca da Silveira – foi desses que interromperam a vida normal, em 1932, impelidos pela convocação revolucionária. “O campeonato estadual seguiu até o começo de julho, interrompido pelos primeiros movimentos da Revolução Constitucionalista, deflagrada naquele histórico 9 de julho”, conta o coronel Mário Fonseca Ventura, presidente da Sociedade Veteranos de 32-MMDC.

Foto: Reprodução

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Patusca trocou as chuteiras pelas trincheiras. Já era jogador consagrado. Em 1927, o meia-esquerda havia integrado o primeiro esquadrão famoso do Santos – aquele dos cem gols no Paulista; 31 dos quais anotados por ele. Na primeira Copa do Mundo da história, em 1930, era o único paulista no escrete canarinho que decepcionou no Uruguai – estava em campo na estreia, quando o Brasil perdeu para a Iugoslávia por 2 a 1.

Segundo Ventura, os voluntários esportivos, vindos de 60 clubes da capital e interior, chegaram a 1,4 mil homens. “Depois de duas semanas de treinamento e de manobras militares realizadas no campo do São Paulo da Floresta, o 1.º Batalhão Esportivo embarcou de trem, em 2 de agosto, com 800 voluntários. Após escala em Mogi Mirim, o batalhão seguiu até Eleutério, na divisa com Minas, onde se concentravam os embates mais cerrados. O 2.º Batalhão esportivo dirigiu-se à região da Mogiana, também na fronteira.”

Para o vinho. A memória da Revolução de 1932 está impressa até em rótulos de vinhos produzidos na região de Mendoza, na Argentina. A premiada Bodega Goulart homenageia o militante constitucionalista Gastão Goulart (na foto que abre esta reportagem, ele é o de bigode, que usa casaco preto). Desde 1997, a vinícola é conduzida por sua neta, Erika Goulart. “Meu avô morreu em 1964 e eu nasci em 1972. Aprendi sua história e seus ensinamentos com o meu pai.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Chamado de Marechal Goulart – por isso, um dos rótulos da vinícola leva o nome de Marshall –, ele foi capitão da Legião Negra, que reuniu afrodescendentes na luta contra o governo Getúlio Vargas. Com a derrota dos revolucionários, o avô de Erika acabou preso pelas tropas governistas – ficou detido no presídio de Ilha Grande.

Anos mais tarde, exilado na Argentina, comprou um vinhedo em Mendoza para recomeçar a vida. Nesse cenário, ele escreveu um livro de memórias: As Verdades da Revolução Paulista. Goulart ainda voltaria ao Brasil, onde morreu, em 1964. “Meu avô cultivava valores como humildade, amor ao próximo e igualdade”, conta Erika.

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