Olga e o milagre de São Joaquim
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Olga e o milagre de São Joaquim

Como o sistema de segurança do Metrô salvou a vida de uma linda moça que tentava se suicidar

Edison Veiga

13 Janeiro 2015 | 13h43

Por Laurindo Martins Junqueira Filho*

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Olga era linda! Olga era linda de morrer… Era assim que alguns dos operadores do metrô se referiam a essa usuária toda especial… Esse nome de mulher – Olga – era muito badalado, então, talvez por causa da história tão trágica de Olga Benário, a dirigente política de origem alemã que vivia no Brasil e que havia sido assassinada nas câmaras de gás de Hitler.

A Olga de nossa história frequentava as estações do Metrô, onde, estranhamente, ao invés de embarcar, permanecia parada na plataforma, como que olhando os trens passarem. Claro que havia passageiros que, quase em estado de graça, ficavam admirando o ir e vir contínuo e rápido daquele enorme carrossel, tido então (e até hoje) como maravilha da tecnologia mundial de metrôs. Mas os operadores do metrô de SP haviam aprendido com seus colegas do metrô do México que era preciso observar com muita atenção os passageiros com aqueles hábitos incomuns de Olga. O ar contrito da moça e a beleza que a ornava, entretanto, chamavam à atenção os operadores dos vários centros de controle que observavam os passageiros com hábitos estranhos pelos circuitos internos de TV. No caso de Olga, os trens paravam, abriam portas, subia-se e descia-se nos carros… e nada: Olga ali ficava, mais prostrada do que postada, como que no mundo da Lua…

Quando Ismália enlouqueceu ela viu a Lua no mar – diz, hoje, o poema estampado nas paredes de concreto de Paraíso.

Sempre havia algum curioso que agia dessa forma curiosa, meio que extasiado com o excesso de modernidade presente nos túneis do metrô. Mas Olga fazia isso não como voyeur, como quem flana despreocupada pelos espaços, mas sim de modo contrito e contumaz. E foi isso que começou a causar dúvida sobre quais seriam de fato as suas verdadeiras intenções. Com a repetição do comportamento, da dúvida para a certeza, foi apenas um passo.

Há, nos consoles de imagem dos centros de controle, o hábito de os operadores prestarem atenção extra nos passageiros que agem desta forma tão curiosa. Embora intencional, isto é, decorrente dos treinamentos recebidos, na verdade essa atitude é quase que espontânea, como se instintivamente o cérebro dos seres humanos controladores de metrô conduzisse a isso. Em outros países, nos centros de controle mais avançados, já há softwares ditos “de reconhecimento de formas”, os quais são capazes de alertar os operadores para situações anômalas desse tipo, isto é, comportamentos que fogem ao hábito quase ritual de ir e vir sem parar, quase como formigas, tão comum na verdadeira azáfama dos moradores das grandes cidades. Nos anos 1970, em que a história de Olga se deu, a Inteligência Artificial ainda não existia, de molde que incumbia aos operadores estarem adestrados para tais situações.

Foi dessa forma que Olga tentou suicidar-se dezessete vezes no metrô. Ela era linda, diziam. E os mais abusados diziam mais: ela era linda de morrer… Essa brincadeirinha nada tinha de inocente, mas gerava uma espécie de competição saudável pela defesa da vida de Olga, entre todos os agentes do metrô que puderam ter contato com ela. Àquela época, casos semelhantes ainda eram muito raros e o metrô de SP podia se orgulhar – e foi assim durante muitos anos – por ter índices de suicídio 50 vezes menores do que os de outros metrôs do mundo.

Desde o momento em que entrava “no sistema”, a presença de Olga passou a ser imediatamente notada e toda uma imensa máquina humana de proteção se colocava em alerta. Sua compulsão por se matar fez dela um alvo das atenções do Centro de Controle Operacional do metrô, por meses a fio. Tantas tentativas foram e tão atraente era ela, que sua chegada ao metrô era prontamente advertida e um “alarme” informal se propagava pelas estações: “Olga entrou no sistema!”. De fato, preocupados com a vida dos usuários, já muitas vidas haviam sido salvas pelo olhar atento daquele verdadeiro “big brother” que todos sabem que existe, mas que ninguém conhece. Ninguém queria que Olga viesse a dar fim à sua vida, ainda mais ali, dentro do metrô. Afinal, ao menos na fama… tão bela era ela!

Na décima sétima vez, quando a mensagem operacional crítica “Olga entrou no Sistema” foi dada pelo CCO do metrô, uma dupla de segurança locomoveu-se diligentemente para São Joaquim, estação onde ela havia sido localizada. Todas as câmeras focavam Olga na plataforma de embarque. Como sempre, ela repetia a mesma dinâmica, cruel para ela e para quem a assistia remotamente. Postava-se na extremidade, onde a velocidade dos trens era maior, e aguardava o próximo chegar… O vento gerado pelo efeito pistão soprava seus cabelos longos, encobrindo seu rosto e dificultando ver suas expressões. O barulho das rodas nos trilhos, aço contra aço, com o trem descendo a rampa máxima do metrô, e o zumbido fino dos freios, fazia Olga antever que a oportunidade que tanto almejava estava cada vez mais perto. Quando a enorme massa de aço se aproximava com seus dez metros por segundo de velocidade, ela se dirigia diligente até a borda da plataforma, com a evidente intenção de vir a consumar o mesmo ato insano que matou a personagem principal de Tolstói em Anna Karênina.

Olga havia sido salva dezesseis outras vezes exatamente por esse seu comportamento vacilante, que era revelador de quão frágil era a sua constituição psíquica. No limiar da saúde e da doença, ora um, ora outro comportamento prevalecia… Como todo e qualquer suicida, ela também vacilava ante o presumido e doloroso fim. Detectada a sua vacilação, as câmeras de CFTV acabavam por permitir advertir os controladores do CCO e da SSO sobre a presença de uma pessoa com “comportamento atípico e crítico na plataforma”… O sinal de que havia um suicida em potencial dentro “do sistema” implicava uma série de procedimentos sequenciais e a consequente mobilização imediata de agentes treinados para conter suicídios, ou para restabelecer a operação. O procedimento era claro: impedido o ato mortal, encaminhar a vítima para atendimento psiquiátrico. Essa era uma constante nesses casos: quando a vítima se salvava, o metrô cuidava para que ela viesse a ser tratada e não viesse a tentar outra vez; em qualquer situação, salvando-se ou não a vítima, o operador do trem é quem tinha que receber atenção médica extrema…

Na décima sétima vez, na estação São Joaquim, Olga foi abordada mais uma vez, por coincidência, por uma mesma dupla de agentes de segurança que já a havia atendido em outra ocasião… Ela havia esperado pelo primeiro trem. Ele abriu portas e todos embarcaram. Mas Olga não… Os agentes, treinados para identificar anomalias, redobraram a atenção. O circuito fechado de TV da extremidade da plataforma focalizava bem Olga. O segundo trem chegou. Olga também não subiu nele… Todos os recursos operacionais já haviam sido mobilizados para impedir que Olga se antecipasse à chegada do próximo trem e pudesse consumar o ato. Todos foram advertidos para a iminência do acidente. O operador do trem foi avisado. Os agentes de estação e de segurança, treinados para tais situações extremas, correram para o local. Uma ambulância foi acionada. Olga aproximou-se mais uma vez da borda da plataforma, olhou primeiro para o tem e depois para os trilhos, em meio aos quais, na Linha Azul, ficava o chamado “vão do suicida”. O operador do trem chegou a ver seus lindos olhos fixos naquele imenso robô automático aproximando-se célere…

Uma mesma dupla de agentes de segurança que já havia abordado Olga anteriormente, chegou correndo, plataforma afora, esbaforida… Olga foi finalmente agarrada antes que pulasse nos trilhos. O mecanismo de segurança que desliga a energia da via e do trem (SPAP) já havia sido acionado pelo CCO. Mas a inércia do trem, mesmo sob frenagem máxima de emergência, iria levá-lo à frente por dezenas de metros ainda.

Contida mais uma vez, Olga foi encaminhada para tratamento, de novo… Também o operador do trem teve que ser atendido, em estado de choque. Quanto aos agentes de segurança, bem…, a história tomou outros rumos…

A linda Olga dos cabelos compridos veio a enamorar-se pelo agente que a salvou duas vezes. Casaram-se. Ele teve que ser demitido do metrô por proceder a um ato de assédio considerado como impróprio, proibido por regulamento interno do metrô e do cargo. Ele perdeu o emprego ao qual se dedicava com zelo. Quanto a Olga, jamais seu “comportamento atípico e crítico” foi notado no metrô. Seu problema, ao que parece, havia sido resolvido. Há os que dizem que não ela, mas sim ele, o agente do metrô, é quem passou a andar, depois disso, meio gauche na vida… Mas isso é coisa das más línguas, certamente! Só sei que diziam que Olga era linda.

*Laurindo Martins Junqueira Filho é funcionário do Metrô desde 1973.

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