Obra de Tomie Ohtake na Paulista é rejeitada
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Obra de Tomie Ohtake na Paulista é rejeitada

Desejo da artista, morta em fevereiro, era instalar escultura na avenida, mas pedido foi negado pela Prefeitura por razões técnicas

Edison Veiga

11 Julho 2015 | 16h00

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Em parceria com MÔNICA REOLOM

Um parecer técnico da Prefeitura pode inviabilizar um dos últimos desejos da artista plástica Tomie Ohtake: a instalação de uma escultura sua em espaço público na Avenida Paulista.

A história começou em setembro de 2013, quando a artista, então com 99 anos, viu ser inaugurada uma de suas obras, com 12 metros de altura, no Paço Municipal de Santo André, município da Região Metropolitana de São Paulo. Na ocasião, quando alguém lhe perguntou onde mais ela ainda queria ter uma escultura pública, Tomie respondeu prontamente: Avenida Paulista.

Aqui cabem parênteses. Isto porque dentre as cerca de cinco dezenas de obras públicas da artista há uma já instalada na Paulista desde 2007, uma escultura em tubo de aço na esquina da avenida com a Rua Teixeira da Silva, em frente ao Edifício Santa Catarina, projetado por um de seus filhos, o arquiteto Ruy Ohtake. Entretanto, apesar de às vistas do público e em espaço aberto, tal escultura está em terreno privado. Fecham-se os parênteses.

Dirigentes da Associação Paulista Viva souberam da declaração de Tomie e foram procurá-la com a proposta: faça um projeto e nos encarregamos de viabilizar a instalação.

Meses antes de sua morte, aos 101 anos em fevereiro deste ano, Tomie entregou a encomenda. Como costumava fazer, esculpiu a obra em uma escala reduzida – com cerca de 20 centímetros de altura –, utilizando alumínio, extremamente flexível. Um assistente encarregou-se de reproduzi-la, no mesmo tamanho, utilizando materiais mais duráveis, na cor vermelha. E ela concebeu o projeto, prevendo tamanho e demais especificações.

Tudo foi entregue, então, à Associação Paulista Viva para os trâmites necessários. A associação havia participado de reunião com a Prefeitura ainda em 2013 e, no ano seguinte, foi atrás de um patrocinador. No segundo semestre de 2014, o banco Citibank topou financiar a execução da obra e um local foi escolhido: a Praça dos Ciclistas (foto abaixo), perto do cruzamento da Paulista com a Rua da Consolação.

Foto: Alex Silva/ Estadão

Foto: Alex Silva/ Estadão

A maquete da obra chegou a ser vista enfeitando a mesa do gabinete do prefeito Fernando Haddad (PT). Para a família Ohtake, o sinal estava claro: a demanda havia sido aceita e, em breve, uma das últimas criações de Tomie ganharia visibilidade na avenida mais simbólica de São Paulo.

Entretanto, veio a negativa. Em reunião ocorrida em 19 de junho, a Comissão de Gestão de Obras e Monumentos Artísticos em Espaços Públicos, do Departamento de Patrimônio Histórico, órgão da Secretaria de Cultura do Município, indeferiu o pedido de instalação da obra de Tomie.

Em nota, o órgão explicou que a desaprovação se deu por razões técnicas. Entre elas uma diferença da localização da obra – que teria 7 toneladas – entre o croqui e a planta apresentados. Também foi argumentado que “há incompatibilidade entre a implantação da escultura e o traçado da ciclovia proposta para o local” e que “a escultura é desproporcional à dimensão do traçado urbano existente, prejudicando a leitura do eixo visual” da Paulista.

A Secretaria da Cultura também informou, em nota, que está em andamento uma “proposta de implantação de obra de arte para o mesmo local, a Praça dos Ciclistas, a ser realizada por meio de concurso público, em homenagem aos ciclistas que foram vítimas do trânsito da cidade”.

Discussões. Em reunião da Associação Paulista Viva no dia 2 de julho, a presidente do conselho deliberativo da entidade, Vilma Peramezza, lamentou a decisão da pasta. “Não tenho nada contra esse concurso mas, gente, vamos trocar a Tomie e esse seu último pedido por isso? Um pedido que ela fez em 2013, ainda antes de completar 100 anos?”, questionou Vilma.

Talvez desconhecendo ter sido essa obra imaginada pela artista justamente para a Avenida Paulista, o órgão também sugeriu, em seu parecer, “outros locais para o proponente implantar a obra artística”, entre eles a Praça Panamericana, pela proximidade do Instituto Tomie Ohtake, o Parque Vila-Lobos, os acessos às marginais do Tietê, “bem como outras localidades que o interessado poderá propor”.

Na última terça, o arquiteto e designer Ricardo Ohtake, um dos filhos de Tomie e diretor do Instituto Tomie Ohtake, reuniu-se com representantes da Associação Paulista Viva e do Citibank. “Surgiram algumas ideias de outros locais na própria Paulista, mas ainda não tomamos uma decisão”, conta Ohtake.

O vice-presidente da Paulista Viva, Antonio Carlos Franchini Ribeiro, disse que os esforços se concentram em manter a obra na Paulista. “A gente continua bastante otimista de que vai ser identificado um local (na avenida) onde a obra da Tomie possa ser exposta. Há um esforço de todos, inclusive da Prefeitura, para que essa escultura possa ser um presente não só para a Paulista mas para a cidade de São Paulo”, afirma. Paulo Sampaio, superintendente-adjunto de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade do Citibank, também concorda. “Nossa intenção é que ela fique na Paulista, pois a avenida é um importante símbolo da cidade e é também onde está a sede do Citi no Brasil”.

Em breve, um novo encontro deve selar a escolha do endereço – desta vez, com a expectativa de um referendo positivo dos órgãos municipais.

Foto: Janete Longo/ Estadão

Foto: Janete Longo/ Estadão

QUEM FOI?

Tomie Ohtake marcou a arte brasileira da segunda metade do século 20, mantendo-se ativa até o fim da vida. Nascida em Kyoto, no Japão, veio para o Brasil em 1936, com 21 anos, e acabou ficando por aqui. Casou-se, teve dois filhos, Ruy e Ricardo Ohtake. Começou a pintar tardiamente, em 1952, depois do término do casamento.

Como poucos, Tomie conseguiu romper a barreira que costuma separar a criação contemporânea do grande público, tornando-se ao mesmo tempo uma artista respeitada pela crítica e admirada e reconhecida pelo grande público e sendo referência não apenas na área da pintura, mas também dedicando-se à gravura e escultura.

A primeira realização em espaço público na carreira da artista data de 1984, quando criou um painel pintado para a empena de um prédio da paulistana Ladeira da Memória, no Anhangabaú. Desde então, ruas e edifícios de São Paulo e de localidades diversas, como Brasília, Ribeirão Preto, Curitiba e Belo Horizonte, abrigam peças de Tomie, que apenas lamentava-se, disse, de não ter um trabalho seu na Avenida Paulista.

Entre as obras públicas mais conhecidas de Tomie Ohtake em São Paulo estão o Monumento aos 80 anos da Imigração Japonesa na Avenida 23 de Maio (foto abaixo), os painéis da estação Consolação do metrô e intervenções artísticas em projetos arquitetônicos, como o teto do Auditório do Ibirapuera e a tapeçaria de parede do Memorial da América Latina, destruída no incêndio de 2013.

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

A artista morreu no dia 12 de fevereiro de 2015, aos 101 anos, vítima de complicações advindas de uma pneumonia. Admiradores e o público fizeram fila para dar o adeus carinhoso à artista, no instituto que leva o seu nome.