O resgate arqueológico da história de Paranapiacaba
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O resgate arqueológico da história de Paranapiacaba

Escavações foram iniciadas como parte do processo de restauro da vila, que é candidata a Patrimônio da Humanidade

Edison Veiga

19 Março 2016 | 18h50

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão


_____________________
Paulistices no Facebook: curta!
E também no Twitter: siga!
_____________________

Escondida sob a terra, parte da história da vila inglesa de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC paulista, começa a ser revirada por dois arqueólogos e dois geógrafos. Ao longo dos próximos oito meses, eles devem escavar diversos setores do povoado em busca de fragmentos que ajudem a detalhar como era o dia a dia dos primeiros moradores da região, no século 19. Há também a expectativa de que sejam encontrados indícios de uma antiga rota indígena que passava pelo local, ligando o litoral ao planalto paulista.

O trabalho de arqueologia vem sendo feito como exigência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão federal de proteção ao patrimônio. Isso porque, desde o meio de 2015, a vila passa por obras de restauro. Candidata a Patrimônio da Humanidade, Paranapiacaba vem sendo preparada para receber, no futuro, vistoria da Unesco, o órgão da Organização das Nações Unidades (ONU) que pode lhe conferir esse título. Para tanto, a vila recebeu R$ 41 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas, do governo federal. Pelo cronograma, as obras deveriam ser concluídas em três anos – ou seja, até 2018.

Mas, como a reportagem do Estado conferiu, tudo parece atrasado. Das 242 casas históricas, por exemplo, apenas oito já passam por restauro – e devem ser entregues em maio. “Certamente o contrato terá de ser revisado. Precisamos de cerca de cinco anos”, estima o engenheiro civil Wanderlei Felipe Silva Júnior, responsável da empreiteira contratada para desempenhar o serviço.
A prefeitura diz que o cronograma original vai ser respeitado. O Iphan, que acompanha os trabalhos, não vê problemas em um eventual atraso. “São processos complicados”, avalia um dos arquitetos do órgão, Mauro David Artur Bondi. “Devagar e sempre, para dar tudo certo. Não é uma obra comum, é obra de restauração.”

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Fragmentos. As prospecções arqueológicas ainda estão em fase inicial. “Mas já encontramos componentes das antigas locomotivas, como carvão mineral”, afirma o arqueólogo David Lugli Turtera, que capitaneia os trabalhos. De acordo com registros históricos, nas primeiras décadas de funcionamento da ferrovia não era usado combustível vegetal. “Também identificamos o que chamamos de ‘tralha doméstica’, fragmentos de porcelana e de frascos que podem ajudar a reconstituir o dia da dia dos primeiros moradores”, completa o arqueólogo.

Após o trabalho de coleta, todo o material será catalogado e analisado. O plano é que passe a integrar o acervo do Museu de Santo André – mas, em um primeiro momento, ficará sob a guarda temporária do Museu de Arqueologia de Iepê, município do oeste paulista, que tem a melhor estrutura para acondicionar esse tipo de item.

Entre os materiais mais curiosos já coletados está uma garrafa de elixir produzida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, por João da Silva Silveira, entre o fim do século 19 e os anos 1940. “Era indicado para combater a sífilis”, comenta Turtera.

Também foram encontrados uma seringa de vidro da marca Becton, Dickinson Ind. Cirúrgicas, a primeira a ser fabricada no Brasil, entre os anos 1950 e 1970, em Juiz de Fora, Minas, e um copo americano personalizado com o nome da tradicional Confeitaria Colombo, fundada em 1894, no Rio. Assim, em paralelo a obras que deixam Paranapiacaba “novinha em folha”, o passado ganha cores e detalhes graças à arqueologia.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

PARA LEMBRAR

Início das obras foi em 2015
Desde maio do ano passado, obras de restauro tomam conta da pacata vila ferroviária de cerca de mil habitantes, fundada no século 19. Devem passar por melhorias, por exemplo, as 242 casas históricas da parte baixa da vila. Os imóveis, que pertencem à prefeitura de Santo André, são locados a interessados em residir neles – no papel, esses moradores são permissionários e pagam, em média, R$ 300 mensais. Também estão no cronograma do restauro o antigo almoxarifado da São Paulo Railway – que deve ser transformado em restaurante –, o campo de futebol e a garagem das locomotivas, entre outras construções.

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão

Foto: Gabriela Bilo/ Estadão