O político fracassado que fui
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O político fracassado que fui

Trânsito caótico, criminalidade em alta, sem água, sem luz - minha carreira chegava ao fim

Edison Veiga

15 Janeiro 2015 | 00h01

Imagem: Reprodução

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Aos 12 anos, me tornei um político fracassado. Com consciência. Aos 12 anos, percebi que eu era um fracasso de gestão pública, um desastre político-administrativo.

Como toda criança, pensei em ser muita coisa quando crescesse: astrônomo, geneticista, engenheiro nuclear, médico veterinário – especializado em peixes de aquário; nada de bichos peludos que fedem por aí! –, professor, ator, fotógrafo de natureza… Em algum momento, cogitei me tornar um político de verdade, sem saber ao certo se um vereador lá na minha querida interiorana Taquarituba, ou se presidente da República.

Mas aí, aos 12 anos, ganhei meu primeiro computador. (Na verdade, quem ganhou foi minha casa. Naquela época, um computador era tão “da família toda” como uma geladeira o era. Não tinha esse negócio de cada qual com seu laptop, cada qual com seu tablet, cada um no seu quadrado.) Para uma criança de 12 anos – hoje, com 12 anos, se é adolescente; mas pelo que me lembre eu era uma criança mesmo – o fascínio que o Pentium 100 off-line, aquela maravilha tecnológica ultramoderna, despertava muito se devia aos joguinhos.

E pencas de joguinhos eram contrabandeados nos corredores da escola, em dúzias de disquetes zipados (ou arjeados). Um Doom por um Jazz Jackrabbit, um Prince of Persia por um Carmen Sandiego, e por aí vai. Mas vício mesmo conheci quando me deparei com o SimCity – a versão original, de 1989, precursora das inúmeras variantes que existem hoje.

O jogo rodava em MS-DOS e, portanto, era graficamente bem precário. Mas ali eu era o urbanista, o arquiteto, o prefeito, o governador, o manda-chuva. Brincava de ser Deus, em suma. Gastava horas imaginando cada esquina de minha cidade. Mentalmente, batizava cada rua, criando eixos temáticos perfeitos: um bairro só com nomes de times de futebol, outro homenageando escritores brasileiros, um reservado a seres mitológicos, etc.

Desmatava sem dó nem apreço ecológico o verde para dar lugar à rodovia. Moldava a reserva de água ao bel-prazer para facilitar o abastecimento de meu povoado. Criava espaços com facilidades para a instalação de indústrias, pensando no dinheirinho que iria pingar no fim de cada ano – impostos, impostos, impostos. Em suma, não era muito diferente dos políticos que existem por aí, por aqui, por acolá.

Mas o vício do SimCity não sobreviveu muito. Não precisei de opinião pública para constatar que era um desastre administrativo.

Minhas cidades sempre entravam em colapso alguns anos depois.

Não sei onde errava. Não estou nem me referindo aos episódios de força maior previstos no jogo – como o terrível “ataque de monstros” a que estávamos suscetíveis.

Quando minhas cidades cresciam, alguma coisa não ia bem. E era uma tragédia desencadeando outra, até eu perder totalmente o controle da população ensandecida – e com razão.

Geralmente, o trânsito se tornava caótico. A criminalidade subia. Começava a faltar luz. Começava a faltar água. As árvores só não caíam porque não existia essa possibilidade no limitado jogo.

Aos 12 anos, me tornei um fracasso de gestão pública. Para o bem da humanidade, minha carreira política estava encerrada.

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