As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Memorial do Holocausto e a horda fascista que milita nas redes sociais

CRÔNICA

Edison Veiga

14 Novembro 2017 | 19h41

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

O fragmento de filme mostra uma mãe se despedindo de seu filho, uma criança de quatro ou cinco anos. O beijo foi o último deles, certamente. Dali, mãe foi para um lado, criança para o outro; destino provável de ambos: a morte.

Foi com um nó na garganta que saí da recém-aberta ala dedicada a relembrar o cruel genocídio judeu no agora Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, no bairro paulistano do Bom Retiro. Uma visita que provoca sinceras emoções. Porque não há como não se comover com as atrocidades do nazismo que vitimou tantos judeus em um passado não muito distante. Não há como não segurar as lágrimas por todas e quaisquer minorias que sofreram, sofrem e sofrerão crueldades impostas por intolerantes.

Tive o privilégio de ser ciceroneado pelo professor Reuven Faingold, PhD em História e História do Povo Judeu pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Enquanto ele elencava as atrocidades – e me mostrava as representações precisas e comoventes das mesmas, em exposição no museu – não pude deixar de pensar sobre o mundo atual, torcendo para que a hodierna corrida fascista seja interrompida a ponto de os estragos não chegarem nem perto do que foi o Holocausto.


Faingold foi incisivo: Holocausto só houve um, e vitimou 6 milhões de judeus. Mas completou, assentindo: “é claro que aqui estamos falando da intolerância e da xenofobia –para que perseguições assim não ocorram novamente jamais.”

Logo na entrada, já impressiona a recriação do frontão típico de um campo de concentração, com a característica expressão alemã arbeit macht frei, ou seja “o trabalho liberta”. E um detalhe. “O B está de cabeça para baixo, exatamente como o do campo de Auschwitz (na Polônia)”, pontua o historiador. No nível inferior de um piso de vidro, um homem maltrapilho está deitado com um ralo prato de comida. O visitante precisa passar por cima – e a sensação de pisoteá-lo é terrível. O soco no estômago prossegue no espaço a seguir, quando é possível ver, em reproduções idênticas ao original, cartazes da campanha nazista defendendo a segregação racial.

Então vem o impactante hall em que foi recriada a fachada de uma típica loja de comerciantes judeus na Alemanha dos anos 1930. Tudo pichado com insultos. Uma tela de TV faz as vezes de janela e as cenas de destruição são imagens reais da histórica Kristallnacht, a “noite dos cristais”, pogrom ocorrido em novembro de 1938 em que paramilitares e civis nazistas alemães destruíram lojas, sinagogas e edifícios judaicos.

Do outro lado da cenográfica rua, uma pilha de livros na fogueira. “Eles queimavam qualquer livro que tivesse ligação com judeus. Obras de Freud, Einstein, Brecht…”, enumera o historiador. Como sói acontecer, mentes totalitárias tendem a ser intolerantes intelectualmente…

Eu já estava imerso nas ilações, com um medo cru de tudo o que eu pensava. Lembrei-me do meu amigo Artur Rodrigues, jornalista da Folha, vilipendiado nas redes sociais por causa de um livro de sua estante. Sim, o fascismo de hoje em dia, representado por hordas de patrulheiros intimidadores de Facebook, é completamente acéfalo – acredito que não sabe ler, talvez vítima do descaso histórico com a Educação, talvez produto da progressão continuada. Lembrei-me de todas as censuras que a arte vem sofrendo justamente e tão-somente por ser arte, por fazer pensar, por provocar – tudo em nome de uma falsa moral, de pretensos bons costumes; tudo resultado de mentes doentias que enxergam erotismo em qualquer nudez, pensam em pedofilia só porque há corpo humano envolvido.

A comoção custa a passar. O percurso ainda tem a réplica de uma frente de locomotiva utilizada para transportar judeus e, na mais pungente parte, a recriação de um alojamento de campo de concentração, onde adultos e crianças eram amontoados e praticamente sobrepostos.

Conversei também com o rabino Toive Weitman, diretor da instituição. Ele disse que montar um memorial do gênero era encarado pela comunidade como “mais que uma obrigação”. “E estamos em um momento extremamente importante, principalmente com a turbulência pela qual o mundo vem passando, com ódio aflorando por toda a parte. Queremos provocar a reflexão. E que todos saiam deste museu conscientes da importância de respeitar as diferenças, respeitar o próximo”, complementou. Em minha cabeça, vinha a imagem de trogloditas queimando um boneco em forma de bruxa em plena rua do bairro da Pompeia, à luz do dia, em uma tola manifestação contra a existência de uma filósofa que certamente nenhum deles leu, que talvez nem saibam o nome.

Ao fim do percurso, o visitante nota um rosto que é familiar a muitos. A estudante alemã Anne Frank (1929-1945), cujo célebre diário se tornou best-seller póstumo, uma das mais conhecidas vítimas do massacre promovido pelo regime de Adolf Hitler (1889-1945). Em letras garrafais, uma frase extraída de suas anotações: “apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana”.

Eu também quero acreditar.

* Leia outras crônicas de Edison Veiga neste link.