O maior buraco de São Paulo
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O maior buraco de São Paulo

CRÔNICA

Edison Veiga

12 Setembro 2017 | 07h04

Foto: Paulo Liebert/ Estadão

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As infinitezas de São Paulo não se resumem ao edifício alto do centro, ao trânsito inveterado das artérias viárias, aos assassinatos ocorridos e potenciais, aos malucos que insistem em atropelar ciclistas, aos políticos a atrapalhar a vida. Também não estão apenas nas enormidades das obras de arte espalhadas pelas ruas, grafitadas ou pichadas, nem na irreverência e irritação da música que brotou (e brota) nessas mesmas ruas.

São Paulo tem uma cratera.


Sim, cratera. Há 20 milhões de anos, um objeto vindo do espaço abriu um buraco de 3,6 quilômetros de diâmetro em um pedaço de terra que fica onde hoje é zona sul da cidade. Eram os deuses astronautas? Em minhas insônias, cultivo a fantasia de que o dito cujo não tenha sido um meteoro, mas sim uma estrela.

Bobagem, poesia barata.

Para ser sincero, em minhas insônias, imagino é que tenha sido um objeto voador não identificado. Com extraterrestres. Os homenzinhos verdes desceram ali, só viram mato. Sem disfarçar a decepção, mandaram uma mensagem para a base.

Acabaram ganhando três dias de folga.

– Pô, se pelo menos houvesse uma praia… – lamentaram.

Então mataram uma capivara ou uma anta ou algum outro bicho mais carnudo. Fizeram uma fogueira. Estava inventado o churrasco.

Ainda faltava muito: a farofa, o vinagrete e, principalmente, a cerveja. Mas o churrasco já havia.

Para chegar à Cratera de Colônia, no extremo sul da cidade, de ônibus é preciso umas 2h30 a partir da Sé. São 40 quilômetros. Em uma das vezes que lá estive conversei bastante com alguns moradores. Não sei como está a situação hoje, mas em 2011 não pegava celular de nenhuma operadora e asfalto, só mesmo nas ruas principais.

Oficialmente, o bairro se chama Vargem Grande. Nele vivem 35 mil pessoas. A aglomeração é resultado de um loteamento irregular e surgiu em 1987, depois que a União das Favelas do Grajaú rateou entre 3 mil pessoas a chácara comprada do alemão João Rinsberg. Sim, alemão. Sim, já havia cerveja.

O relevo é peculiar. Um buracão, uma cratera. Tanto que quando conversei com Emerson Reimberg, um dos quatro carteiros que atendiam à região, ele me revelou uma estratégia peculiar:

– Não vou ficar subindo e descendo as ruas com 8 quilos diários de cartas… Deixo parte do material em pontos estratégicos, e pego depois para continuar o trabalho. Aqui é tão tranquilo que não tem problema nenhum…

O Google me confirma que ainda existe por lá a pizzaria dos irmãos Cratera, como são conhecidos Alessandro, Gilmar e Roberto Almeida Alencar.

Entre poeira e buracos, a poesia insiste nas plaquinhas de endereço. Lá atrás, a Associação Comunitária Habitacional de Vargem Grande rechaçou que o bairro tivesse nomes de figurões e afins em suas ruas. A norma, então, passou a ser batizar as vias em homenagem a flores, árvores e aves. Tem a Rua Bálsamo, a Rua Coruja, a Rua Flor de Maracujá, a Rua Palmeiras. E a minha preferida: a Rua Dama da Noite.

Os ETs nunca mais voltaram. Mas, vale registrar, ninguém tem certeza se foram mesmo embora.