“O legado urbanístico de uma Olimpíada depende de uma boa gestão”
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“O legado urbanístico de uma Olimpíada depende de uma boa gestão”

Em entrevista ao blog, responsável pela reestruturação de Barcelona nos anos 1990 traça um paralelo entre a cidade espanhola e o Rio

Edison Veiga

07 Dezembro 2015 | 00h55

Foto: Divulgação

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Entre os convidados do Congresso Internacional de Paisagem Urbana, está o economista Ferran Ferrer Viana, mestre em urbanismo comercial e presidente da empresa de consultoria World Trade Technical Consulting. Viana, que concedeu entrevista blog, foi gerente do Instituto Municipal de Paisagem Urbana e Qualidade de Vida de Barcelona e, com o objetivo de preparar a cidade para os Jogos Olímpicos de 1992, idealizou aquela que é considerada a maior campanha de embelezamento da cidade espanhola.

Em sua opinião, quais as principais semelhanças e diferenças entre Rio e Barcelona, e de que maneira isso pode ser aproveitado considerando os Jogos Olímpicos do ano que vem?

Ferran Ferrer Viana: A resposta para esta questão é bastante longa. Em fevereiro de 2012, tive a honra de me reunir com o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Ele havia dito reiteradamente: ‘Barcelona é nossa inspiração e Maragall, o prefeito da Barcelona olímpica, é meu ídolo’.

Passamos algum tempo revendo o projeto da paisagem urbana da cidade de Barcelona. Nessa reunião, ficaram claras as semelhanças entre as duas cidades, a começar por sua relação com o mar e seguindo por suas aspirações a sediar grandes eventos. O paralelo se repete: após a Copa de 2014, Rio sediará a Olimpíada de 2016; na Espanha, o Mundial de futebol foi em 1982 e os Jogos Olímpicos, em 1992.


A atenção do Rio de Janeiro por Barcelona vem de longe, especialmente desde que o arquiteto Luiz Paulo Conde, conhecedor apaixonado de Barcelona, atuou como arquiteto no Rio junto ao prefeito Cesar Maia (foi secretário de Urbanismo entre 1993 e 1997) e, depois, como prefeito (entre 1997 e 2001). Foi quando se lançaram planos urbanos modelos na capital fluminense, cuja remodelação do espaço público era inspirada em Barcelona.

Se existem semelhanças, é certo também que são muitas as diferenças. A mais óbvia é a estrutura insuficiente do Rio para o tráfego e a escassez de transporte público – inclusive, sem metrô para lugares estratégicos, como o aeroporto e os terminais marítimos. Esperamos que os Jogos Olímpicos tragam soluções para este e para outros problemas do espaço público e das relações da sociedade com ele. O Rio é um exemplo de boas condições climáticas e paisagísticas; agora tem de aproveitar a Olimpíada para torná-las sustentáveis – e se tornar uma cidade inclusiva e não fragmentada.

Qual o principal legado urbanístico deixado por uma Olimpíada?

F.F.V.: A regra 14 da Carta Olímpica estabelece o objetivo de “promover um legado positivo dos Jogos Olímpicos para as cidades-sede e os países anfitriões”. Mas a verdade é que tal legado depende de uma boa gestão: é preciso encarar a Olimpíada como uma desculpa para construir uma nova realidade urbana por meio da participação coletiva dos cidadãos.

Sem entrar em detalhes, há cidades que fizeram isso bem; outras, não. Em Barcelona, os Jogos Olímpicos serviram para consolidar um plano de reabilitação urbana que vinha sendo pensado por quase 150 anos, com a recuperação da orla costeira da cidade. Ali, o evento deixou um legado para o espaço público e para a mobilidade de todos os seus habitantes.

De que maneira cidades que não são a sede dos Jogos, mas que também terão alguns eventos, como São Paulo, podem se aproveitar, urbanisticamente, dos Jogos Olímpicos?

F.F.V.: Li que o estádio Arena Corinthians será sede de dez partidas de futebol durante a Olimpíada. Em todo caso, na minha opinião, São Paulo será uma referência apenas temporária – em um estádio recém-construído, que não espera qualquer processo de renovação urbana ou outra participação coletiva.

No caso de Barcelona, a marca urbana da cidade é outra após 1992…

F.F.V.: Evidentemente, graças aos Jogos Olímpicos, Barcelona consolidou uma marca própria, algo de que não dispunha anteriormente. Hoje, Barcelona é uma marca global, com grande capacidade de sedução. Os 7,5 milhões de turistas que visitaram a cidade durante o último ano são a maior prova disso.

Mas Barcelona não é apenas um destino turístico de ordem mundial. A cidade é também reconhecida como um local dinânimo e vibrante, inovador e criativo. Muito embora a percepção superficial ainda se centre no patrimônio arquitetônico de Gaudí, felizmente recuperado, ou no futebol do Barcelona.

A campanha ‘Barcelona, posa’t guapa’, sobre a qual conversaremos no congresso em São Paulo, foi criada há 30 anos, com base nos esforços coletivos de cidadãos, empresas, mídia, associações, etc. Mas o “bonito” de seu slogan não deve induzir a erro.

Se Barcelona continua a ser uma cidade cívica, plural e verdadeiramente harmoniosa, e começa a perder-se em sua pequenez de todos os dias, pode terminar se convertendo em outra cidade mais “bonita”. Com todos os inconvenientes que a massificação turística começa a trazer consigo.

Barcelona é uma cidade vista como criativa e plural, mas é também um local com caráter fortemente cívico; é uma cidade responsável e respeitosa, uma cidade que soube atuar na recuperação de sua paisagem urbana e de seu espaço público, por meio de uma parceria público-privada exemplar.