Nuances de um passado incômodo
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Nuances de um passado incômodo

ARTIGO

Edison Veiga

29 Janeiro 2017 | 18h36

Foto: Acervo Maria Luiza Tucci Carneiro

Foto: Acervo Maria Luiza Tucci Carneiro

Por Maria Luiza Tucci Carneiro*

A data de 27 de janeiro – Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto instituída pela ONU por meio da Resolução 60/7 – lembra que neste mesmo dia em 1945, os prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polônia) foram libertados pelas tropas soviéticas. O major ucraniano Anatoly Shapiro, primeiro oficial do Exército soviético, foi quem abriu os portões do campo principal e, junto com o seu batalhão, libertou os primeiros 500 prisioneiros. Em 2005, alguns meses antes de sua morte, o oficial Shapiro, durante uma entrevista concedida para o New York Daily News assim descreveu o horror que presenciou:

“havia um cheiro tão forte que era impossível aturar por mais de cincos minutos… Mas tínhamos uma missão a cumprir. Entramos ao amanhecer de 27 de janeiro. Vimos algumas pessoas de pé em roupas listradas – eles não pareciam humanos. Eram pele e osso, somente esqueletos. Quando dissemos a eles que o Exército soviético os havia libertado, eles sequer reagiram. Não conseguiam falar ou mesmo mexer a cabeça. Não tinham calçados. Seus pé estavam envoltos em trapos. Era janeiro e a neve estava começando a derreter. Até hoje não sei como conseguiram sobreviver”

Setenta e dois anos apos a abertura dos portões dos campos de Auschwitz-Birkenau, ainda não conseguimos digerir este passado indigesto que, exatamente por ser incômodo, pode contribuir para o esquecimento. E esquecimento – pelo simples fato de “não querer lembrar” – abre fissuras no campo da memória favorecendo o avanço do negacionismo, e o retorno da violência física e simbólica. Este esquecimento ou silêncio proposital tem sido, muitas vezes, sustentado pelas nações pró-nazismo e, até mesmo pelos sobreviventes do Holocausto cujas cicatrizes ainda sangram por terem vivenciado “in loco” este genocídio. O perigo está em favorecer (pela deturpação, silêncio ou omissão) o avanço de grupos extremistas que têm interesse em negar o Holocausto enquanto crime contra a Humanidade. Portanto, a data de 27 de janeiro deve ser rememorada como um momento para a reflexão seguido de ações transformadoras pautadas em políticas públicas no campo da Educação em Direitos Humanos.

Importante ressaltar que, apos a Segunda Guerra Mundial quando baixaram as cinzas exaladas pelas chaminés dos campos de extermínio nazistas, o mundo já não era o mesmo. A palavra Auschwitz entrou para o nosso vocabulário como o símbolo do maior genocídio da Historia, enquanto que Hitler e o nazismo projetaram-se como metáfora do Mal. No entanto, o ser humano (incluindo homens e mulheres) não aprendeu a lição. Lúcifer continua solto ! Muitos de nossos jovens mal conseguem escrever Auschwitz, palavra que não cabe no WhatsApp pois fica difícil abreviar tamanha catástrofe. Nas escolas, a data de 27 de janeiro nem precisa ser rememorada pois todos estão “em férias”. Cabe à comunidade judaica dizer o Kadish para invocar o luto engrandecendo o nome daqueles que foram exterminados por não considerem com os ideais de um Estado totalitário.

Hoje, fica evidente que a violência e a intolerância sem limites persistem demonstrando que o Mal não virou cinzas. Não devemos nos acostumar com a rotina da maldade e, muito menos, com a robustez dos líderes nacionalistas que continuam ativos. Mais um razão para ouvirmos e registramos as vozes dos últimos sobreviventes do Holocausto que, assim como outras vítimas de genocídios, devem revisitar seu passado ajudando-nos a compreender os erros e acertos de uma geração. Este é (e sempre será) o legado dos sobreviventes do Holocausto, transformador na sua essência.

Aliás, nenhum país tem revisitado tanto o seu passado como a Alemanha, apesar deste ser indigesto, amargo. Através dos seus memoriais e museus à céu aberto, literatura, teatro e cinema , por exemplo, os alemães têm proposto reflexões sobre o período nazista. Têm resgatado vestígios históricos da violência perpetrada contra os milhões de judeus e outras tantas minorias étnicas, alem de marcarem seus espaços com as pedras de tropeço (Stolpersteine) criadas pelo artista alemão Gunter Demnig, que servem para nomear as vítimas do Holocausto. Lembro também o filme Amnésia, do diretor Barbet Schroeder (Festival de Cannes 2015) que revisitou três gerações de alemães editando nuances de um passado incômodo.

Enfim, precisamos falar sobre os males para expurgar nossos fantasmas e, a partir daí, voltar nosso olhar para a capacidade que a educação tem de transformação desde que usada para o Bem. Onde estão nossos vestígios, marcas e sinais? Fica aqui um convite à reflexão seguida de ações transformadoras.

* A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro é coordenadora do projeto Vozes do Holocausto/Arqshoah- USP.