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Nome mais comum, Vila batiza 455 condomínios
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Nome mais comum, Vila batiza 455 condomínios

Cidade registra curiosidades, como o Edifício Arrastão, e homenagens a nobres

Edison Veiga

20 Novembro 2016 | 05h01

cida26

Em parceria com DANIEL BRAMATTI

Fosse São Paulo um balneário de pescadores, talvez ninguém interpretasse de outra forma: arrastão é um tipo de pesca com rede em forma de saco, puxada rapidamente. Mas o paulistano, infelizmente, se acostumou a chamar de arrastão uma tática de roubo coletivo em prédio. E é essa a piada que Reginaldo dos Santos Oliveira mais ouviu nos últimos três anos, desde que se tornou zelador do Edifício Arrastão, prédio erguido em 1986 em Santana, na zona norte.

“É a brincadeira que todo mundo faz”, afirma. “Felizmente, nunca houve arrastão por aqui. Foi um morador quem me explicou o significado do nome do prédio. Admito que, quando comecei no emprego, achava muito esquisito.”

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

A estranheza já foi até eternizada em livro – pelo escritor e designer Gustavo Piqueira. Lançado em 2013, Iconografia Paulistana (WMF Martins Fontes, 320 págs., R$ 49) tem um engraçado enredo de ficção costurado a partir de 5 mil fotografias reais que o autor fez pelas ruas da cidade. Sua preocupação foi escancarar situações paulistanas que beiram o nonsense.

Além do Arrastão, Piqueira destacou outra peculiaridade dos batismos condominiais paulistanos: as pequenas variações em torno do mesmo tema. De homenagens monarquistas – King Arthur, Príncipe de Navarra e Marquês de Valença – a versões em torno de um mesmo nome próprio, como Firenze, Florenza, Florença e Florence.

Repetições. O levantamento feito pelo Estado mostra que, considerando os termos isoladamente, o que mais aparece nos nomes de prédios de São Paulo é “Vila”: são 455 menções nos 10.415 edifícios lançados nos últimos 30 anos. O segundo posto do ranking é ocupado pela variação Villa, com 251 menções.

Na sequência surgem Parque, em 184 prédios; Jardim, em 183; e Park, 180. Há diversos termos em inglês que aparecem com recorrência. Residence, por exemplo, está no nome de 147 condomínios. Home, em 121; Village, em 96; Club, em 81; Garden, em 77. O artigo definido The está nas fachadas de 107 condomínios.

Na outra ponta da estatística, os ineditismos. Palavras como Win, End, Wall, Full, Picture, Pool, Work, Wave, Trip e Cup (todas do inglês), ou mesmo Chá, Cervo, Galo, Águas e Poema, aparecem apenas uma vez cada.

Renomear é possível.Quem está descontente com o nome do prédio onde mora pode se apoiar numa complicada possibilidade. E preparar energia para a campanha de convencimento dos demais moradores, porque a decisão tem de ser unânime.

“É extremamente complicado e trabalhoso alterar o nome de um condomínio”, avalia a especialista Angelica Arbex, gerente da Lello Condomínios e blogueira do portal Estadão.com.br. “É necessário convocar uma assembleia com finalidade específica para isso e que tenha a participação da totalidade dos condôminos. E a aprovação tem de ser por unanimidade”, afirma.

Só isso não basta. “Depois de aprovado, precisa mudar a documentação no cartório de registro de imóveis, na prefeitura e na Receita Federal, entre outros órgãos. É bastante burocrático, principalmente nos condomínios maiores, com muitos moradores, e pode levar muito tempo”, explica Angelica.

Gênero. O machismo está no nome dos condomínios de São Paulo. Enquanto a maior parte dos prédios batizados em homenagem a homens eterniza figuras importantes com nome e sobrenome – Solar Carlos Drummond, José Antonio Alpiovezza, Salvador Dalí –, no caso das mulheres, a referência não costuma ser específica. Há seis prédios com o nome de Ana Paula e 26 que homenageiam Mariana – de Mariana Residence a Mariana Hill, além de simplesmente Edifício Mariana.

Latim? Há sete nomes de prédios com o termo studium, que parece fazer referência arquitetônica a “estúdio”. A palavra em latim, porém, significa “estudo”.

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