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“A instituição nunca esteve fechada”, diz diretora do Museu do Ipiranga

Em entrevista ao Estado, historiadora comenta sobre trabalhos que têm sido desenvolvidos mesmo com o edifício interditado há três anos

Edison Veiga

07 Setembro 2016 | 00h02

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

À frente do Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, deste junho deste ano, a historiadora Solange Ferraz de Lima conversou com a reportagem sobre a situação atual da instituição, cuja sede está fechada ao público desde agosto de 2013. Confira entrevista:

> Leia mais: a programação do museu neste 7 de Setembro.

A senhora assumiu o museu em meio a uma situação sem precedentes, que culminou com o fechamento das portas da própria instituição. Qual a prioridade de sua gestão?
A sua pergunta já coloca uma prioridade da minha gestão – incrementar a divulgação das atividades do Museu Paulista, instituição que não está fechada, no período em que a visitação pública ao edifício-monumento estiver suspensa em virtude das obras de restauração e modernização. A instituição nunca esteve fechada, mas é compreensível que nossas atividades se confundam com o espaço que as sediam, o edifício-monumento, em virtude de sua expressiva carga simbólica.
A visitação pública ao edifício-monumento foi suspensa em virtude dos riscos de desabamento dos forros de cinco salas, conforme laudos técnicos elaborados em meados de 2013. As equipes foram deslocadas para um imóvel que já mantínhamos alugado nas imediações e nossas rotinas foram totalmente alteradas, como você pode imaginar. Assumi a direção do Museu Paulista em junho deste ano, três anos após o Edifício-Monumento ter sido fechado para a visitação pública.
A situação já é bem distinta. Desde 2015 as atividades acadêmicas e educativas (que nunca cessaram) estão acontecendo em nova sede, localizada na Avenida Nazaré. Após o escoramento de todas as salas que ofereciam perigo e a proteção das coberturas do edifício para evitar a entrada das águas da chuva, o edifício tornou-se provisoriamente estanque, o que permitiu que parte das equipes pudesse retornar com o propósito de preparar os acervos para a sua transferência para outros espaços.
Desde 2014 o acervo do Museu Paulista vem sendo mobilizado em exposições fora do edifício-monumento, como a exposição USP 70 anos (MAC-USP), Coleções em diálogo: Museu Paulista e Pinacoteca de São Paulo’, (Pina, 25 de janeiro de 2015 a 30 de janeiro de 2017), Moedas da Antiguidade Romana nos Acervos da USP – Museu Paulista (MP) e Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) (hall do edifício da Reitoria, cidade universitária, março-maio de 2016). As atividades envolvidas nos empréstimos de peças para integrar exposições diversas, no Brasil e no exterior, continuaram acontecendo e mobilizando parte das equipes dedicadas à sua preparação (laudos, pequenos reparos, embalagem, documentação para seguro etc).
O que pretendemos incrementar agora, com resultados já para o próximo ano, é a comunicação digital. Já estamos nas redes sociais, e os sites do Museu Paulista e do Museu Republicano Convenção de Itu serão reformulados. Nossa intenção é potencializar a interação com o público pesquisador e também visitante, com exposições virtuais, distribuição de material didático, filmes, além do nosso catálogo online, que hoje vem atendendo as demandas mas ainda sem um design amigável.

Quais os principais desafios de sua gestão?
A data símbolo do bicentenário da Independência do Brasil tornou-se um marco para os objetivos assumidos pela Universidade de São Paulo para com a recuperação e modernização do edifício-monumento. Esse desafio não é só da direção do Museu, mas sobretudo da Universidade.
Mas que museu de história abriremos em 2022?
Durante os próximos quatro anos de minha gestão essa pergunta terá que ser respondida.
Temos pela frente o desafio de fazer um balanço da atuação do Museu Paulista desde que ele se tornou um museu dedicado exclusivamente ao campo da História e Cultura Material (1990). A reflexão se faz necessária, pois ela alimentará a elaboração do novo Plano Museológico.
Quero que esse processo seja compartilhado com parcelas da sociedade, pretendemos realizar seminários e oficinas para discutir os programas integram um plano museológico – educativo, expositivo, conservação e pesquisa etc. Alguns projetos do Serviço Educativo já apontam para essa direção, com ênfase na educação patrimonial, por meio do mapeamento de referências urbanas/afetivas, por exemplo.
Já temos acumulado uma considerável fortuna crítica em torno do papel dos museus não só de história, mas também de história da arte e de antropologia na contemporaneidade, reflexões advindas dos campos da Museologia, História, Antropologia, Sociologia e Educação, bem como do papel das curadorias, em exposições presenciais e virtuais. E essas reflexões certamente alimentarão o nosso processo de trabalho até 2020.
O desafio será tornar este museu um museu de história na e para a cidade de São Paulo, que não só acolha a sua diversidade social, mas que a discuta, de uma perspectiva crítica e histórica, com exposições dinâmicas e com atividades educativas pautadas pela acessibilidade e pelas facilidades do ambiente digital e interativo.
Por outro lado, ser um museu ao mesmo tempo da e para universidade, o que significa consolidar práticas interdisciplinares que promovam as áreas de pesquisa aplicada à conservação e documentação de acervos, ampliando as parcerias com unidades de ensino e institutos de pesquisa da USP, com programas de estágios que ofereçam oportunidade de qualificar profissionalmente os alunos e alunas de diversos cursos da USP e programas de pós-doutorado voltados para a produção de conhecimento e para a qualificação de nossos acervos. Já temos feito isso com a colaboração de docentes da área da Física Aplicada (IF-USP), por exemplo, engajados nas análises ópticas de objetos.
Por fim, outro desafio importante refere-se à gestão do Museu Paulista e sua sustentabilidade econômica. É preciso investir em um planejamento estratégico, que leve em consideração possibilidades de captação de recursos perenes, que não se restrinjam ao patrocínio eventual uma exposição, mas que possam garantir programas educativos, e pesquisa e culturais de maior fôlego.

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Foto: Gabriela Biló/ Estadão

Ao público externo, o que do museu está funcionando normalmente? Como fazer para utilizar?
O atendimento aos pesquisadores internos e externos foi reaberto a consulta dos seus acervos no dia 1º de setembro de 2016. As consultas serão realizadas às sextas, das 9h às 16h30, mediante agendamento por telefone ou email. A biblioteca continua os atendimentos aos pesquisadores de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, com agendamentos pelo telefone (11) 2065-8012 ou pelo e-mail biblmp@usp.br. Os usuários das bibliotecas USP e de outras instituições podem solicitar obras de circulação normal pelo serviço de empréstimo entre bibliotecas.

Em que pé está o projeto de recuperação do edifício monumento? O que está sendo feito atualmente?
Em novembro de 2015 a USP publicou o edital para convidar empresas a realizar o diagnóstico estrutural do edifício. Na concorrência na modalidade técnica e preço venceu a proposta do escritório Falcão Bauer, no valor de R$ 1,5 milhão. O contrato será assinado em setembro e a empresa tem dez meses para apresentar o laudo sobre o estado do prédio, do ponto de vista de sua estrutura. Até junho de 2017, o laudo estará concluído.
Do resultado do laudo depende o dimensionamento preciso dos projetos de restauração e modernização do edifício em todas as suas fases.

Há um orçamento atualizado de quanto custariam as obras?
Ainda não, seria prematuro, justamente por não termos ainda as respostas do diagnóstico estrutural.
Mas já temos claro que a USP e o Museu Paulista não podem arcar com o custo integral do restauro e da modernização. Necessitaremos de apoio e captação de recursos junto à iniciativa privada.
Em 2015, o Grupo Mulheres do Brasil (GMdB), associação sem fins lucrativos, se dispôs a participar do esforço. E as tratativas seguem nessa direção.

Depois daquele levantamento de patologias realizado logo após o fechamento do prédio, o que mais foi feito em termos de obras?
O escoramento de todas as salas e a proteção das coberturas, de modo a evitar infiltrações e tornar o edifício estanque foram ações concomitantes ao diagnóstico das fachadas.
Os acervos precisam estar protegidos antes do início de qualquer obra. E isso leva tempo e exige cuidados. Assim, desde 2014, nos concentramos em esvaziar as salas expositivas, desmontando as exposições e deslocamos acervos das salas mais comprometidas. Os acervos estão sendo preparados para serem embalados e transferidos, como disse, e esse processo foi iniciado com o acondicionamento das grandes telas de pintura histórica, localizadas a sua maioria no pavimento térreo. Elas já se encontram devidamente embaladas e protegidas.
Parte dos livros da Biblioteca foi transferido de um mezanino para uma sala no andar térreo, para aliviar a sobrecarga de peso e foram instaladas bandejas de proteção no forro da Biblioteca, com o uso de uma estrutura metálica, para proteção dos livros que ali ainda se encontram.
As atividades de conservação preventiva junto ao edifício e aos acervos continuaram: em março de 2014, por exemplo, os pisos do edifício receberam tratamento, com a recomposição de ladrilhos hidráulicos do século XIX para evitar infiltrações.
As ações relativas ao edifício foram realizadas sob a supervisão direta dos arquitetos da Superintendência do Espaço Físico da USP.
Em janeiro de 2016, criou-se junto ao gabinete do Vice-Reitor o Grupo de Trabalho Museu Paulista 2022, com a missão de garantir o planejamento e a execução das centenas de ações necessárias para que o Museu reabra no Bicentenário da Independência renovado. O Grupo de Trabalho reúne membros da Superintendência do Espaço Físico, da Pró Reitoria de Cultura e Extensão e da Vice-Reitoria.