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Luz em chamas: repercussões de uma tragédia

Especialistas em história e arquitetura comentam o incêndio que devastou o Museu da Língua Portuguesa

Edison Veiga

24 Dezembro 2015 | 11h58

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

“É a definição de tragédia, do ponto de vista urbanístico e histórico”, afirma o arquiteto e urbanista Valter Caldana, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A Estação da Luz é o principal marco da virada de São Paulo, de província para metrópole; o Museu da Língua, um marco contemporâneo.”

Foi a segunda vez que um incêndio de grandes proporções atingiu o histórico prédio da Estação da Luz, inaugurado em 1901 e tombado pelos órgãos municipal, estadual e federal de proteção ao patrimônio (Conpresp, Condephaat e Iphan). “Parece ironia, mas em ambos os casos, o fogo destruiu a mesma ala, este setor onde onde está instalado o Museu da Língua Portuguesa”, comenta a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, professora de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

O incêndio anterior, ocorrido em 6 de novembro 1946, destruiu toda a fachada da Avenida Tiradentes. “Muitos acreditam que aquele tenha sido criminoso, já que o fogo extinguiu todos os livros contábeis da companhia”, diz o historiador Carlos Dias, coautor do livro Jardim da Luz – Um Museu a Céu Aberto, lançado em 2011. “De qualquer forma, ver o prédio queimar novamente hoje é uma lástima muito grande. Um patrimônio histórico e cultural assim deveria ser melhor protegido para que coisas assim não aconteçam.”


Do fogo de 1946, o prédio foi reerguido, em obras de 1947 a 1951, com um pavimento a mais. “Naquele, desabou todo o vão livre e os danos foram imensos”, pontua o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, professor da FAU-USP.

Estilo. A professora Beatriz ressalta que o prédio da Estação da Luz, construído de 1895 a 1901, é único por ser a “primeira estação da grande porte, em que a composição como um todo fica nela abrigada” em São Paulo.

“Trata-se ainda de um exemplar muito significativo para a história da arquitetura porque tem um ecletismo vitoriano que, ao mesmo tempo, procura dar uma unidade a um conjunto pelo uso de materiais como tijolo, ferro e vidro e também usa, de uma maneira inteligente, elementos arquitetônicos que provém de épocas distintas, como as mansardas, mais ligadas ao classicismo francês, e o ritmo das janelas inspirado em tratados italianos”, analisa a arquiteta. “A mistura dos estilos é uma característica da arquitetura paulistana desta época.”