Leitura e tecnologia convergem ou divergem?
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Leitura e tecnologia convergem ou divergem?

Edison Veiga

07 Abril 2014 | 00h29

FOTO: PAULO LIEBERT/ ESTADÃO

Por Antonio Rios*

O mês de abril traz duas datas muito importantes para a literatura infantil. No dia 2 é celebrado o Dia Internacional do Livro Infantil, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen; no Brasil, 18 de Abril é o Dia Nacional do Livro Infantil, que marca o nascimento do escritor Monteiro Lobato. O Patinho Feio e o Soldadinho de Chumbo, de Andersen e, a boneca Emília e o Visconde de Sabugosa, de Lobato, estão presentes na vida de pessoas de diferentes gerações, seja por meio das páginas dos livros ou da popularização dos personagens na televisão. Com o avanço das tecnologias e com a multiplicidade de informações à disposição, como fica o legado deixado pelos clássicos da literatura? E como alcançar os 88,2 milhões de brasileiros que não têm o hábito de ler?


Segundo a pesquisa promovida pelo Instituto Pró-Livro (IPL), “Retratos da Leitura no Brasil 3”, há diversas razões alegadas pelos brasileiros para não terem lido nos últimos meses, como a falta de tempo (53%), não ter paciência para ler (19%), ou desinteresse (30%). Os que preferem outras atividades ficam com 21%. Baseado nesses dados seria a tecnologia uma ferramenta para estimular a leitura?

Hoje, crianças têm celulares, só se fala em Facebook, Instagram, Twitter e a internet é a maior fonte de buscas. Pode parecer que o mundo analógico foi esquecido, mas, ao invés de pensar na substituição dos livros impressos pelos digitais, será que eles não podem andar juntos? O livro “de papel” não deve perder o seu valor, assim como o rádio não deixou de existir com a invenção da televisão. Recentemente um importante jornal de São Paulo fez uma matéria sobre o que as pessoas leem enquanto estão no metrô e o texto perguntava quem já não ficara curioso para saber o que a pessoa ao lado estava lendo. Muitos dos personagens contaram que estar no metrô era um momento único de leitura, do qual não abriam mão. Alguns estavam estudando em livros didáticos, outros lendo romances, ou ainda obras classificadas por eles como leves, só para relaxar no percurso. Agora, se eles estão lendo no papel ou em tablets, não importa. O importante é que estão aproveitando seu tempo para ler, já que as histórias vêm e virão em novos formatos.

Com o tamanho do Brasil e as diferentes realidades em cada região não se pode dizer que as novas tecnologias sejam uma unanimidade no país. Ainda de acordo com a “Retratos da Leitura”, 64% dos leitores que ainda não leram livros digitais podem vir a ler. Somente 20% acham que nunca farão uso. Na pergunta “se acredita que de agora em diante vai ler”, 37% disseram que lerão mais livros impressos, 34% afirmaram que lerão mais livros digitais e 23% acreditam que a leitura de ambas as formas será na mesma proporção. As próprias editoras têm apostado no mundo digital não só para chamar mais leitores, como também para fidelizar os já existentes e que já passaram a interagir com as novas tecnologias.

Experiências recentes do IPL, com instalações em Bienais do Livro, provam como a tecnologia pode despertar o interesse pela leitura. A primeira foi em 2008, com a “Biblioteca Viva”, em São Paulo. A instalação multimídia contou a história da escrita, do livro e das bibliotecas, além de promover a oficina do autor, para as crianças. Em 2009, foi a vez do Rio de Janeiro, com o patrocínio da “Floresta de Livros”, um espaço temático que contou com Árvores Falantes, Livro Mágico, Salas Secretas e a Grande Clareira. “Ler é uma Viagem” marcou a Bienal de 2010, em São Paulo. O espaço contava com tradutor de libras e monitores treinados, e englobava recursos que combinam literatura com tecnologia, chamada de mídia social imersiva. Os participantes viravam personagens da história como bruxa, princesa, sapo e até a Emília, de Monteiro Lobato. Em 2012, também em São Paulo, o IPL criou o ambiente literário interativo “Deu a Louca nos Livros”, que possibilitava um passeio por livros desconstruídos. Os brinquedos populares do Nordeste substituíram ilustrações e personagens para serem incorporados, nas histórias dos romancistas Jorge Amado e Graciliano Ramos ou nas histórias recriadas pelos visitantes. Todas as instalações estavam entre as principais atrações das Bienais com filas de ávidos interessados nas experiências no mundo dos livros.

“Assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade. (…)”. Este trecho de Antonio Candido, em O direito à literatura, sintetiza muito bem a essência da leitura. Independente de sua forma ela é uma grande ferramenta de mudança, do estímulo à criação e da esperança de dias melhores. É preciso investir, pensar diferente, despertar interesse e não deixar que os novos meios sejam um empecilho cultural, mas um instrumento favorável para o despertar da leitura.

* Antonio Rios é presidente do Instituto Pró-Livro.

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