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Guarulhos ‘esconde’ obra de Tarsila do Amaral

Edison Veiga

07 Junho 2013 | 00h01

Pintado em 1931, quadro fica em uma caixa dentro de prédio da Secretaria de Segurança municipal
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Um quadro de Tarsila do Amaral que pertence à Prefeitura de Guarulhos fica escondido dentro de um prédio da Secretaria de Segurança Pública do município. Datado de 1931, Padre Bento mede 89 cm por 105 cm e desde 2002 está guardado no Centro de Formação da Guarda Civil Municipal (GCM).

O Estado recebeu uma foto em que o quadro aparecia apenas apoiado sobre uma mesa, sem maiores cuidados. Na quarta-feira, a reportagem foi até a unidade da GCM, com a intenção de checar a manutenção. Apesar de aguardar durante quase 4 horas na frente do endereço – e nesse meio tempo solicitar autorizações de entrada tanto para a GCM quanto para a Secretaria Municipal de Cultura –, a reportagem foi impedida de entrar no prédio e verificar como a obra é mantida. Em nota, a Prefeitura de Guarulhos afirmou que a tela “está armazenada em uma caixa de MDF, com tampa de madeira furada presa à parede, aproximadamente a 3 metros do chão”.

Para mostrar que Padre Bento está em boas condições, a Prefeitura de Guarulhos preferiu armar uma operação e levar o quadro até a sede da Secretaria de Cultura, a 15 minutos de lá. Oito funcionários e três carros foram mobilizados – a picape levou o quadro escoltada. No local, o secretário de Cultura do município, Edmilson Souza, não julgou relevante a foto recebida pelo Estado. Exibindo a mesma em seu tablet, ele afirmou que a imagem foi “irregularmente divulgada”. “Trata-se de uma rotina normal, para controle interno. Periodicamente, esse quadro é visitado por uma equipe, é apoiado sobre uma mesa e fotografado”, diz o secretário. Questionado sobre não ter permitido que a reportagem entrasse no local, ele argumentou que “mostrar o tipo de armazenamento” facilitaria uma eventual quebra na segurança.

Histórico. Padre Bento foi uma homenagem de Tarsila do Amaral (1886-1973) ao sacerdote Bento Dias Pacheco (1819-1911), amigo de sua família e conhecido por amparar hansenianos – em uma época em que esses doentes viviam marginalizados. A obra foi doada ao Sanatório Padre Bento, que funcionava em Guarulhos. Com o fim da internação compulsória dos hansenianos, nos anos 1960, o sanatório foi transformado em hospital. “E o quadro acabou desaparecendo”, relata o secretário de Cultura.

Só foi encontrado alguns anos depois, perdido – e danificado – em um almoxarifado. Encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no Rio, a tela passou por um restauro que levou alguns meses, em 1972. Concluído o trabalho, ninguém da prefeitura de Guarulhos foi buscá-lo de volta.

A obra retornou à cidade no início da década de 1980. Passou a decorar o gabinete do prefeito. Em 2002, quando Edmilson Souza foi secretário de Cultura pela primeira vez, ele encomendou um estudo de autenticidade da obra. E determinou que ela saísse do gabinete. “Havia uma frequência muito grande de pessoas. Não era seguro”, explica. Depois, o quadro passou a ser guardado na GCM. “Encomendamos um estudo da possibilidade de um local que tenha segurança e climatização para a tela ficar permanentemente exposta”, diz.

A pedido do Estado, o galerista Victor Hugo Rosa analisou a obra. “É maravilhosa, mas com um tema muito específico”, pondera. “Em um eventual leilão, seria avaliada em R$ 800 mil de lance inicial.” Já o secretário da Cultura prefere não discutir valores. “Já houve quem dissesse que o quadro vale R$ 10 milhões”, comenta.

Versão ampliada de reportagem publicada originalmente na edição impressa do Estadão, dia 7 de junho de 2013

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