Fé faz centenas buscarem clausura em mosteiros de SP
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Fé faz centenas buscarem clausura em mosteiros de SP

Casas religiosas já receberam papas e duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos: Madre Paulina e Frei Galvão

Edison Veiga

26 Dezembro 2015 | 16h00

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

São oásis de tradição e tranquilidade dentro da barulhenta, caótica e estressante São Paulo. Dentro das várias casas religiosas que existem na capital paulista, no total, algumas poucas centenas de paulistanos vivem, em menor ou maior rigidez de clausura. As histórias delas são únicas – duas já receberam papas da Igreja Católica, João Paulo II e Bento XVI; duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos da Igreja Católica: Madre Paulina e Frei Galvão.


Desde 1598, sempre um monge balada um sino às 5h05 da manhã no centro de São Paulo. É o começo da rotina do Mosteiro de São Bento, instituição encravada no coração da cidade. O repique tem a função de despertar os outros 41 religiosos que vivem no claustro. Em 25 minutos eles devem estar a postos no altar da ainda fechada Basílica de Nossa Senhora da Assunção, onde irão entoar o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas diariamente.

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

Foto: Rafael Arbex/ Estadão

O dia a dia dos beneditinos segue as orientações contidas nos 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550.
Os monges de São Bento têm liberdade para entrar e sair da clausura, desde que com consciência. “Não há uma pré-definição de tempo. O mosteiro é um complexo. A clausura é um espaço físico dentro do mosteiro. O importante é o equilíbrio. Em via de regra o monge deve ter consciência deste transito e movimentação que há no mosteiro”, explica o monge João Baptista. “Temos um colégio e uma faculdade aqui. Há um teatro com eventos diversos. A Igreja é uma das mais visitadas de São Paulo. Nosso mosteiro é bem diferente dos demais, por conta de todos este contexto. Há, portanto, o desafio com o silêncio dentro desta cidade barulhenta. Estamos no centrão de São Paulo – a maior cidade do país – ao lado das ruas 25 de março e Santa Ifigênia. Há o metrô que passa em baixo e diversos helicópteros que sobrevoa nosso céu. Temos todo um diálogo com esta cidade e com o povo que circula e nos procura em busca de palavras espirituais.”

Dentro do mosteiro, as funções internas são distribuídas de acordo com a vocação. “Cargos e funções vão desde o administrativo, sacristia, formação interna dos monges e aulas na faculdade e colégio, padaria, cozinha, biblioteca…”, enumera Baptista. “Os cargos são distribuídos conforme aptidão de cada um. Se entra alguém com outra formação no mosteiro, como da área da saúde, geralmente trabalhará na enfermaria cuidando dos irmãos mais idosos e doentes ou ações do tipo. Se é um advogado trabalhará na área jurídica e assim por diante.”

Foto: JF Diorio/ Estadão

Foto: JF Diorio/ Estadão

Um dos pontos altos da história de mais de 400 anos dos beneditinos em São Paulo foi a visita do papa Bento XVI – coincidentemente, um papa chamado Bento, como o fundador da ordem – a São Paulo, em 2007. Ocasião esta em que foram eles os anfitriões do sumo pontífice. O quarto onde ele ficou hospedado se tornou um memorial, preservado exatamente como naqueles dias.

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Foto: Felipe Rau/ Estadão

Vinte e sete anos antes, em 1980, quando o papa João Paulo II foi o primeiro líder máximo da Igreja Católica a visitar São Paulo, a honraria coube a outra abadia beneditina que existe em São Paulo: o Mosteiro São Geraldo, fundado em 1950 por monges beneditinos húngaros na região do Morumbi. Os aposentos que hospedaram João Paulo II também foram mantidos como um pequeno museu – uma relíquia que muito orgulha os 17 monges que vivem ali.

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

Além de papas, instituições religiosas do tipo também se tornaram conhecidas por serem residências de personalidades católicas que depois se tornaram santas reconhecidas pelo Vaticano. É o caso da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, onde viveu a religiosa Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, canonizada em 2002. Fundadora da congregação, o quarto onde ela morreu é preservado como um memorial. Atualmente, a casa abriga 12 religiosas.

“Em nossa organização interna, temos os momentos comuns para orações, celebrações, refeições, estudos, lazer, atividades diversas, onde todas são evolvidas. No que se refere a missão específica, cada Irmã tem uma área de atuação: coordenação da Congregação, animação missionária, evangelização, administração, serviços domésticos, acompanhamento as unidades educativas, centros de hospitalidade, centros de terapias naturais, santuário, serviço de assistência social e as comunidades da Congregação.”, explica Rosacy Soares Costa, vice-coordenadora geral da instituição.

Ali não há uma clausura. “Temos sim nossa privacidade, mas vivemos em uma casa normal”, conta a religiosa. “Nosso contato com o mundo se dar de várias formas, nos diversos espaços onde realizamos nossa missão tanto interna quanto externa. Também participamos de eventos sociais, como teatro, cinema, celebração de aniversário e outros. Administramos o tempo, tendo em vista os momentos comuns e as atividades individuais por meio do planejamento mensal e cronograma para facilitar a vivência comunitária e a realização da missão.”

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Já no Mosteiro da Luz, no bairro da Luz, casa fundada e construída por Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou santo em 2007, o silêncio e o isolamento são regra. As 14 religiosas que vivem ali só saem por três razões: saúde – consultas médicas e exames -, compras e um período de férias – geralmente 10 dias a cada dois anos. Mesmo assim, tudo somente sob autorização da abadessa e, geralmente, em duplas. “Também acabam sendo liberadas para participar de festas muito especiais da Igreja, como a procissão de Corpus Christi”, exemplifica o capelão do Mosteiro, padre José Arnaldo Juliano dos Santos.

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

E são pouquíssimas as pessoas, além das religiosas, que podem, eventualmente, entrar na clausura. “Autoridades religiosas, como o arcebispo, além do capelão e de um padre nomeado para auxiliá-las nas questões administrativas”, enumera padre Santos. “Outras pessoas, um médico por exemplo, apenas com autorização da abadessa.”

Mesmo o padre confessor das religiosas não entra ali. Elas são atendidas em uma sala chamada parlatório, onde ficam separadas do interlocutor por grades.

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Natal. As monjas da Luz reforçam o momento de silêncio nos dias que antecedem as festas mais importantes da Igreja Católica, a Páscoa e o Natal. Elas costumam fazer um retiro por duas ou três semanas, com jejum e muita oração, como preparação para tais datas. “Elas têm uma espiritualidade própria, fruto da ordem monástica”, diz o capelão. A ordem, no caso, é a Imaculada Conceição – por isso elas são chamadas de monjas concepcionistas -, fundada na Europa pela Santa Beatriz da Silva (1424-1492).

No São Bento, o Natal é marcado pelas antífonas especiais, entre os dias 17 e 23. “São antífonas do Hino Evangélico do Magnificat, que sempre inicia com a exclamação ‘O’, louvando a realeza de Deus que irá nascer como homem”, afirma o monge João Baptista. “No dia 24, acontece a bênção de nosso presépio que fica exposto aos fiéis até o dia 6. A missa da noite é belíssima e muito concorrida, assim como a do Dia de Natal, às 10h.”

“Internamente temos nossa ceia só com os monges”, relata ele. “No dia 26 fazemos sempre uma confraternização. Ocasião em que todos podemos nos reunir.”

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Por São Paulo, já passaram cinco santos

Ainda não há nenhum paulistano que tenha se tornado santo para a Igreja Católica. Mas alguns canonizados viveram ou pelo menos passaram pela cidade. É o caso do padre José de Anchieta (1534-1597), jesuíta espanhol que foi reconhecido como santo pelo Vaticano em 2014. Com outros religiosos, Anchieta subiu ao então Planalto de Piratininga em 1554 e, onde hoje é o Pátio do Colégio, fundou a vila que daria origem a São Paulo.

Outro muito ligado à capital foi Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou o primeiro santo nascido no Brasil. Em São Paulo, onde passou boa parte da vida, ele construiu o Mosteiro da Luz – em cuja igreja, aliás, está sepultado.

Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, nasceu na Itália mas veio para o Brasil com 10 anos. Em 1903, mudou-se para São Paulo, onde ficaria até o fim da vida, no bairro do Ipiranga, cuidando de crianças órfãs e ex-escravos abandonados.

A capital paulista também recebeu a visita dos santos Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), padre espanhol fundador do Opus Dei, em 1974; e do papa João Paulo II (1920-2005), em 1980.

São Paulo já recebeu dois papas

João Paulo II visitou a cidade em 1980, na primeira das três viagens que fez ao Brasil. E Bento XVI veio para São Paulo em 2007. Papa Francisco limitou sua primeira viagem ao País, em 2013, ao Rio de Janeiro e Aparecida.