Eu confesso: já manuseei um incunábulo
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Eu confesso: já manuseei um incunábulo

CRÔNICA

Edison Veiga

11 Abril 2017 | 07h41

Foto: Eduardo Nicolau/ Estadão

Foto: Eduardo Nicolau/ Estadão


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Durante duas semanas, eu rodeei o Mosteiro de São Bento, refúgio sacro e silencioso no coração histórico de São Paulo. Era como se eu descascasse uma cebola do jeito errado: as camadas de proteção do claustro iam cedendo e, a cada dia, eu conhecia um pouco mais daquele precioso lugar, das instituições mais antigas da cidade, dos organismos mais preservados de nossas tradições – desde 1598, monges beneditinos residem ali, no mesmo endereço, no mesmo ponto; apesar, é claro, de a construção atual não ser original.

Era fevereiro de 2007. O Vaticano já tinha confirmado que o papa Bento 16 viria ao Brasil e, em São Paulo, se hospedaria ali, na clausura que honra o seu onomástico, São Bento. Repórter da revista Veja São Paulo, acabei imbuído da missão de descobrir quem eram e como viviam os 35 monges que seriam anfitriões do sumo pontífice católico.

No primeiro dia, apenas observei o lugar.

Caminhei pelo Largo São Bento, desci as escadarias do Metrô, cruzei o viaduto da Santa Ifigênia.

Dia seguinte, fui recebido pelo então prior – uma espécie de vice-abade –, João Evangelista Kovas. Lembro-me que ele me atendeu em uma sala de reuniões, destinada a contatos com leigos, e se prontificou a responder todas as minhas perguntas.

Mas colocou uma barreira.

Pelo que ele estava entendendo, dali eu não passaria. Como se eu pudesse escrever a reportagem deste modo, apenas me baseando no que ele me contasse.

Confesso – primeira das confissões desta crônica – que fiz a lição de casa. Na véspera, tinha lido os 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550. Sabia o nome do abade. Tinha comido um dos pães da famosa padaria. Havia memorizado datas históricas da abadia.

Fiz de tudo para demonstrar a ele, em nossa longa conversa de mais de quatro horas, que eu estava pronto para dar mais um passo.

– Amanhã você volta e iremos lhe mostrar a capela que restauramos para a visita do papa – sentenciou, para minha alegria.

E foi assim. Em um dia a tal capela, no outro o jardim do claustro, no seguinte a biblioteca, mais um tempo e a cozinha, depois a cela – como eles chamam os quartos – preparada para o papa… Duas semanas depois, em uma sexta-feira, eu jantei com os monges. Uma experiência única.

Para os beneditinos, ler é oração. E o hábito da leitura é cultivado até durante as refeições. Enquanto os outros comem, em um silêncio que é quebrado apenas no Natal, na Páscoa e no dia de São Bento, um monge é designado para recitar textos bíblicos ou trechos de livros de história. O almoço e o jantar são completos: há entrada, prato principal, sobremesa e café. Às sextas, nada de carne. Durante a Quaresma, eles se abstêm também às quartas-feiras. Para acompanhar, água e suco. Aos domingos – conforme me contou Kovas na época -, eles tomam cerveja: um copo cada um.

A devoção à leitura tem explicação. Está no capítulo 48 da Regra de São Bento que os religiosos precisam se entregar diariamente ao trabalho e aos livros. Isso faz com que todo mosteiro nasça com uma coleção de obras. Ou seja: muito provavelmente, a biblioteca dos beneditinos é a mais antiga de São Paulo.

Mas, e aqui vai mais uma confissão, o ponto alto do périplo sacro para mim foi a vetusta biblioteca. Confissão esta que vai depor contra mim, atiçando ânimos dos restauradores e conservadores de livros raros: eu manuseei um incunábulo, aqueles livros rudimentares, dos primórdios da imprensa, que mesclam o manuscrito com os tipos móveis – a biblioteca do mosteiro tem seis deles.

Da primeira vez que entrei ali, ciceroneado pelo monge e artista plástico Carlos Eduardo Uchôa, só observei, atônito, as estantes de madeira que guardam os 120 mil livros. Destes, 581 foram publicados entre os séculos 15 e 18. Nunca me esqueci desta visitinha ao Paraíso.

Menos de dois anos depois, retornei a este refúgio literário onde poucos pisaram – o acesso é livre somente aos monges que vivem ali. Já era repórter daqui do Estadão e queria escrever especificamente sobre a biblioteca – ah, os pretextos que arrumamos para desfrutar dos lugares que amamos! Desta vez, quando Uchôa me mostrou o exemplar romeno de 1500 com a coleção de sermões de Pelbarti de Themefwar, um pregador húngaro, não resisti a folheá-lo, chance única e rara de manusear um incunábulo.

Torno aqui público, portanto, meu pecado contra a bibliofilia; com a legítima ressalva de que o fiz com extremo cuidado e zelo, como se aquelas páginas fossem a pele de um recém-nascido. Se da primeira vez eu visitei o Paraíso, desta era como se eu tivesse uma audiência particular com São Pedro – ou, talvez, São Bento, já que estávamos em terras beneditinas.

Eu pisaria ainda duas outras vezes na biblioteca dos beneditinos, então conduzido por João Baptista, o atual monge bibliotecário. Voltei a ver incunábulos, mas jamais quis tocar um deles novamente.

P.S.: Durante as duas noites e os três dias em que foi hóspede dos beneditinos, Bento 16, o papa que ali esteve em maio de 2007, não foi conhecer a maravilhosa biblioteca. Em sua cela – depois preservada como um memorial –, 30 livros ficaram à disposição. O acervo foi pensado como uma miscelânea de obras religiosas, culturais, artísticas, literárias e históricas. A maioria procurava mostrar ao líder católico um pouco do panorama brasileiro. Bento 16 pôde ler, por exemplo, os sermões completos de Padre Antônio Vieira em alemão. Ou se divertir com a prosa de Machado de Assis, com os livros Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Ressurreição e A Mão e A Luva.

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