Em Ponte Pequena, o último desejo
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Em Ponte Pequena, o último desejo

A história de Tsunori Yoshitami

Edison Veiga

22 Janeiro 2015 | 13h48

Por Laurindo Martins Junqueira Filho*

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

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Tsunori Yoshitami era um nissei de Marília. Ele havia sumido de sua cidade, em busca de alguma cidade grande, sem dar notícias à família durante algum tempo. Trabalhava em uma capital do Nordeste, na construção civil. Depois, num belo dia, voltou para São Paulo, só para passear, procurar emprego, sabe-se lá… E, curioso e orgulhoso, foi visitar o metrô, viajando daqui para acolá sem rumo nem destino. E tudo isso, durango que estava, pagando uma única passagem. Resolveu parar em Ponte Pequena, dar uma espiada na cidade vista lá de cima e esperar o trem chegar. Cansado, procurou um lugar para sentar por um minuto. A vontade de fumar era cruel, mas ali era proibido. Acostumado ao perigo que sua profissão impunha e considerando que correr o risco de cair dali era algo insignificante para ele, resolveu sentar-se na amurada da estação, que dava diretamente para a rua. Imagine só que ele iria ter paúra por causa daquela alturinha… Mas, mesmo assim, ele caiu de costas do alto da plataforma sobre o canteiro de flores, lá embaixo, na rua. Machucou-se muito. Levado às pressas para o Hospital das Clínicas, seu estado era grave. Portava documentos, mas não tinha endereço.

No centro de controle do metrô, Cristina, que fazia o acompanhamento social das vítimas de acidentes, ficou sem saber o que fazer para avisar a família de Tsunori. Recorrer a quem, para tentar identificar o endereço da vítima? Sem intenção alguma de fazer trocadilho com um caso tão sério, foi ao Ken mesmo que ela recorreu. Ken, que era da colônia japonesa e conhecia todo mundo, não somente deste mundo dos mortais comuns, mas também de outros mais, certamente haveria de dar alguma pista sobre aquele nissei acidentado.

Ken disse a Cristina que aquele nome não era estranho… Na verdade, havia tido um amigo de infância com o mesmo nome… Mas, sabe-se lá, poderia haver muitos Tsunori Yoshitami no mundo…

Indo além na investigação, Ken perguntou a Cris os nomes do pai e da mãe do acidentado. Puxa! Mas que coincidência! Pois eram os mesmos dos pais de seu amigo! Mas, enfim, há nomes que são muito comuns em japonês… Para tirar a dúvida, Cristina e Ken foram ao HC, na esperança de poder visitar o acidentado, falar com ele e, se possível, identificar seu endereço. Assim, seria possível avisar a família e coisa e tal.

Depois de circular em meio a macas que lotavam os corredores, num ambiente tétrico de gente gemendo ensanguentada, surpresa! Era ele mesmo, o japonês de Marília, amigo de infância de Ken, Tsunori Yoshitami. Todo entubado, não era possível falar com ele, disse a enfermeira. Mas ela sugeriu um expediente inesperado: Ken deveria fazer perguntas a ele e Tsunori, que estava semi-desperto, responderia piscando os olhos. E Ken fez exatamente isso.

– Tsunori! Tsunori! Sou eu, o Ken! Está lembrado de mim?

O paciente vacilou um pouco, apertou os olhos já meio fechados e deve ter pensado:

– Quem? Ken?

Ato contínuo, o paciente piscou os olhos várias vezes.

– É ele mesmo, Cris!

E Ken continuou:

– Tsunori! Fique tranquilo! Eu vou avisar teus parentes em Marília, viu!

Novamente Tsunori repetiu o gesto. Ainda tentando tranquilizar o amigo, Ken insistiu:

– Tsunori! Você precisa de alguma coisa mais que eu possa fazer?

Outra vez ele piscou os olhos. E Ken voltou a perguntar:

– Então tente me dizer o que você quer, que eu faço, cara!

O paciente, gerando dúvida e espanto em Cristina e na enfermeira, fez outro gesto inesperado: mostrou os dedos da mão esquerda em “V”. O que quereria ele dizer com aquele sinal?

Cristina achou estranha aquela mensagem. Talvez fosse um sinal de vitória dos japoneses, alguma brincadeira de criança, quem sabe ele fosse meio hippie… A enfermeira, que era evangélica, já achou que era o sinal de “Vida”, que ele estava querendo dizer que amava a vida e que queria continuar neste mundo… Ou seria uma forma nipônica de dizer que estava bem…

Ken, visivelmente nervoso com a situação do amigo, mas sabedor das coisas da infância vivida em conjunto, quando ambos se amoitavam atrás dos muros para se esconder dos pais japoneses, para surpresa geral, não teve dúvida: inveterado fumante que era, perguntou à enfermeira se ali se poderia fumar.

– Evidente, que não! O senhor não pode fumar aqui! Somente lá fora! – disse ela, com ar fulminante.

– Não, minha senhora, não sou eu que quero fumar! É ele, o paciente!!

Avisada a família, Ken e Cristina voltaram para o metrô.

No dia seguinte, Tsunori Yoshitami estava morto, sem ter fumado o seu último cigarro. Ponte Pequena, que não tinha nome de santo nem de santa, não era dada a milagres.

*Laurindo Martins Junqueira Filho trabalha no Metrô desde 1973.