Em memória das cordas
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Em memória das cordas

Precioso acervo de Ronoel Simões é recuperado

Edison Veiga

05 Março 2016 | 02h19

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão


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Para ele, interessavam apenas canções tocadas ao violão, dedilhado, sem palheta. Cordas de nylon. O violão como personagem principal. A obsessão do músico, radialista e colecionador Ronoel Simões (1919-2010) finalmente está aberta ao público no Centro Cultural São Paulo (CCSP). E, mais de cinco anos após a morte do colecionador, seu acervo volta a ser um porto seguro para pesquisadores e entusiastas da música.

“É um recorte em que o violão é o protagonista”, explica o diretor da Divisão de Acervos do CCSP, Eduardo Niero. Os cerca de 50 mil itens acumulados ao longo de 59 anos por Simões – entre partituras, discos, DVDs e fitas K7 e VHS – foram adquiridos pela Prefeitura por R$ 130 mil. De 2011 até o início deste ano, o acervo ficou guardado sem uma definição de onde seria abrigado – havia quem defendesse a Praça das Artes, equipamento cultural próximo ao Teatro Municipal. Foi quando decidiu-se, finalmente, pelo CCSP.

Nos últimos seis meses, uma equipe de quatro técnicos foi encarregada de preparar o material. “Isso significa higienizá-lo, catalogá-lo e organizá-lo, para só então ele se tornar acessível para consulta”, afirma Jéssica Barreto, coordenadora da Discoteca Oneyda Alvarenga, do CCSP. Neste primeiro estágio, 5 mil discos – dos cerca de 8 mil existentes – já estão prontos. Ficarão para um segundo momento as partituras, a parte mais deteriorada da coleção.

“O material ficava no porão da casa dele, no Bexiga, e é por isso que a parte documental não está em boas condições. Estava tudo acondicionado em uma estante de madeira, muito úmida”, conta o técnico de audiovisual Antonio Dantas, que visitou a casa de Simões quando a coleção estava sendo adquirida pela Prefeitura. O CCSP está aberto para patrocinadores que ajudem a viabilizar esse restauro.

Preciosidades. Na coleção de Simões estão todos os grandes nomes do violão. Há gravações de Djalma de Andrade – o Bola Sete (1923-1987) –, Baden Powell (1937-2000), Dilermando Reis (1916-1977), Américo Jacomino – o Canhoto (1889-1928)… De Heitor Villa-Lobos (1887-1959), duas unidades de um raríssimo disco dele executando violão: os choros número 1 e 2. De Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto (1915-1955), são 38 discos, muitos gravados exclusivamente para Simões. “Ele tocando ‘The Man I Love’, de George Gershwin, por exemplo, é uma verdadeira relíquia”, comenta o músico Jefferson Motta, também da equipe do CCSP.

Nas capas dos discos há autógrafos – como em um do Villa-Lobos – e, em alguns casos, observações datilografadas. “O melhor é o do disco 39-A. Nesta gravação o violão tinha pouco baixo”, é o comentário escrito no disco 30 da coleção Garoto – no caso, ele estava se referindo à gravação do choro Gracioso, no lado B. “Estamos digitalizando o material, com cuidado, sem interferências ou remasterizações, justamente para manter o valor histórico”, afirma o bibliotecário Aloysio Nogueira.

Ouça uma das faixas recuperadas:

Repercussões. Desde o mês passado, o CCSP recebe interessados em pesquisar na coleção de Ronoel Simões. Neste primeiro momento, entretanto, é necessário agendar – pelo telefone (11) 3397-4095 ou pelo e-mail discoteca@prefeitura.sp.gov.br. A intenção dos gestores do CCSP é abrir oficialmente a coleção em julho, com um seminário sobre música instrumental.“Trata-se de um acervo único no mundo. Não existe nada igual a isso”, exalta o diretor do CCSP, Pena Schmidt.

“Espero que a vigilância sobre o manuseio desse material seja rigorosa”, diz o musicólogo e crítico de música Zuza Homem de Mello. “Os materiais que pertenceram a Ronoel Simões, sobretudo as gravações exclusivas, são um verdadeiro tesouro da área. Ele era reconhecido mundialmente como autoridade no assunto.”

Um dos idealizadores do documentário, em produção, ‘Garoto, o Gênio das Cordas’ – ao lado do jornalista Rafael Veríssimo e do pianista Henrique Gomide –, o jornalista Lucas Nobile recebeu com entusiasmo a notícia da reabertura do acervo de Simões. “Não fossem as gravações obtidas e mantidas por ele, a gente conheceria menos ainda do grosso da obra do Garoto para violão”, afirma. “É uma coleção de importância intangível para a cultura e para a memória da música brasileira.”

Veja como os discos são higienizados: