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“Devemos ter sempre em mente a possibilidade de melhorar o espaço público”, afirma Bak Gordon

Em entrevista ao 'Estado', premiado arquiteto português comentou sobre a São Paulo atual

Edison Veiga

30 Abril 2015 | 09h00

Foto: Evelson de Freitas/ Estadão

Foto: Evelson de Freitas/ Estadão


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Quando analisa São Paulo, apenas o sotaque entrega que Ricardo Bak Gordon é estrangeiro. Aos 48 anos, o premiado arquiteto português foi um dos participantes do Seminário Internacional Tempo Livre na Cidade, promovido pela Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e pelo Sesc. “Deve ser a décima vez que venho para esta cidade”, comentou ele ao Estado.

Parceiro de Paulo Mendes da Rocha na obra do novo Museu dos Coches, que deve ser inaugurada neste semestre em Lisboa, e autor do pavilhão de Portugal na Bienal de São Paulo de 2007, Bak Gordon respondeu, a convite da reportagem, a questões formuladas por colegas arquitetos que residem na capital paulista – em ordem alfabética: Benedito Lima de Toledo, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo; Fernando Forte, do escritório FGMF Arquitetos; Henrique de Carvalho, do Tanta; Marcio Mazza, do site Arq!Bacana; Marcos Cartum, do escritório homônimo; Pedro Paes Lira, do IDOM-ACXT; e Sergio Coelho, do GCP Arquitetos.

Há em São Paulo o desejo de recuperação e ocupação do centro histórico ao mesmo tempo que a extrema dificuldade para se alcançar essas metas. Em comparação com o que ocorreu em Lisboa, como enxerga as características de crescimento de São Paulo e suas relações com a manutenção do patrimônio cultural e histórico?

Cidade não deve ser setorizada

O que aconteceu em muitas das metrópoles e seguramente aqui em São Paulo é que a cidade foi sempre crescendo excessivamente no sentido radial. As pessoas foram para a periferia, abandonando um pouco o centro e suas virtudes de uma vida plena – no sentido de que todas as atividades possam ter espaço nesse lugar, que é o espaço histórico e embrionário da cidade. Acredito que a cidade não deve ser setorizada; todos os lugares da cidade devem cultivar, de uma certa forma, as atividades do homem em sua expressão de vida cotidiana, ou seja, a residência, o trabalho e o lazer. Tudo isso deve ser um sistema de construção da urbanidade. Não podemos deixar que isso seja perdido em alguns lugares, ou precisamos fazer um esforço para trazer de volta as várias atividades do arco da vida cotidiana ao centro histórico, para que eles deixem de estar abandonados, segregados, e voltem a ganhar vida própria.

A cidade em si mesma é depositária da história, segundo Aldo Rossi. O mesmo autor propõe que o estudo pode abordar diferentes pontos de vista. O primeiro como fato material, uma construção realizada ao longo da história. O segundo se refere à história como fatos urbanos. Síntese de uma série de valores. Atenas ou Roma, por exemplo, vão além dos fatos físicos, como sua forma. São Paulo pode ser vista como uma metrópole ou mesmo megalópole, onde os rios tiveram importância fundamental. Hoje são exemplos de degradação. O mais notável rio não passa de um riacho. É o riacho do Ipiranga, cantado diariamente em todo território nacional. É de volume insignificante, porém repleto de significado histórico excepcional: em suas margens foi proclamada nossa Independência. Como podem ser considerados os símbolos urbanos notadamente em uma metrópole como São Paulo?

Muitas vezes aquilo que deu origem à coisa não mais existe como tal, mas está presente na memória e na dinâmica dos lugares e das vidas que seguem em direção ao futuro. Nesse sentido, não é diferente o que se passou aqui do que o ocorrido em todas as cidades medievais europeias. Quando se perguntam o que pode ser a imagem da cidade de São Paulo, digo que podem ser as virtudes de sua vida comunitária, ou seja, pode ser qualquer coisa que não é exatamente palpável. A rigor, é aquilo que nós consideramos que são as virtudes da vida urbana, da relação do homem da cidade com o coletivo. O Cristo Redentor e a Torre Eiffel, para citar exemplos de símbolos do Rio e de Paris, são faits divers de cidades – e não há nada assim em São Paulo, mas não é isso que nos deve preocupar.

Se o senhor fosse nomeado “diretor de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo”, com amplos poderes, por onde começaria a melhorar a qualidade da vida urbana, já perdida há mais de 50 anos?

O transporte público é um dos elementos centrais da virtude da cidade

Eu por acaso não fui nomeado para esse cargo, mas sou muito amigo de um arquiteto que agora é secretário de Desenvolvimento Urbano da cidade de São Paulo (Fernando de Mello Franco) e que tanto quanto julgo saber está exatamente a fazer um esforço imenso na convocação de transformações urbanas muito abrangentes no tecido da cidade, valorizando a estrutura de ciclovias, por exemplo, valorizando as margens dos rios para que voltem a ser canais do ponto de vista do fluxo e da fruição e da interligação entre os lugares. E finalmente com um Plano Diretor com enfoque no transporte público. O transporte público é provavelmente um dos elementos centrais da virtude da cidade. Quer dizer, ninguém pode imaginar uma cidade com tantos milhões de habitantes se não for eficaz do ponto de vista do sistema de transportes. Isso deve ser o ponto de partida. Isso se consegue com muito diálogo e equilíbrio entre várias forças, mas é papel do governante convocar as virtudes da transposição urbana a favor de todos.

Observa-se em suas obras uma plasticidade muito precisa, buscada com cuidado e afirmada. Pelo que conheceu de São Paulo, o que lhe dá vontade de projetar por aqui? Pode ser uma ideia abstrata, mais land-art, não precisa designar nenhuma função nem nada do tipo. Faço essa pergunta porque cidades sempre provocam desejos nos arquitetos.

A mim a arquitetura brasileira, e em particular a escola moderna paulista, sempre me impressionou muito, desde as primeiras vezes que vim ao Brasil. Fui sempre muito influenciado por isso. Provavelmente essas características tem a ver com duas questões fundamentais: uma é a generosidade do espaço público, uma espécie de condição que não se abre mão, que o chão da cidade é mais ou menos contínuo e é de todos e que não é passível de ser limitado; outra questão que me parece muito forte é conseguir o máximo de resultados com menos recursos. Vemos na Europa uma arquitetura muito carregada de tecnologia, de materiais variados, por ventura demasiado caros. Aqui, o que é muito fascinante é essa certa contenção visível até na própria seleção do material – condição que resulta em arquitetura de intensidade. Olhar para o Brasil, sobretudo para São Paulo, sempre me fascinou e é para mim muito inspirador.

Qual o grande nó da questão do tempo livre em uma cidade como São Paulo? Onde ele passa pela arquitetura?

O tempo livre passa pela arquitetura em muitos aspectos. Porque o arquiteto tem a obrigação de ter a consciência de que há uma espécie de lugar público a ser preservado, identificado, construído. Nesse sentido é muito importante que todos os arquitetos pensem que há um lugar público em cada projeto. Se todos partilharmos dessa ideia, a cidade vai ser mais afável a todos.

Numa cidade com escassez de espaços livres e regida pelo tempo funcional, o tempo livre não é também preenchido por atividades preestabelecidas – o que significa um outro tipo de cerceamento do ócio?

Naturalmente, com nosso trabalho de arquitetos e pessoas que atuam com aquilo que pode ser a transformação do lugar da cidade, devemos ter sempre em mente a possibilidade de melhorar o espaço público. Sou muito sensível a cidades onde há uma grande escassez de espaços públicos, mas isso é um segundo olhar sobre a cidade. Sobre o ócio, sobre o tempo livre, costumo dizer que tempo livre é mais uma questão mental, uma questão do posicionamento do homem na sua vida cotidiana na cidade, perante à cidade mas também perante à sua condição. Nesse sentido, mais do que saber que haja centros culturais ou uma série de equipamentos próprios para consumir o tempo livre, a mim interessa, primeiro e antes de mais, pensar no tempo livre como um espaço mental, e logo depois ver o que fazer com ele, como quiser e se quiser.

Numa cidade como São Paulo, sofremos um longo processo de abandono do espaço público pela população, sendo até comum a piada de que “o shopping center é a praia do paulistano”. Brincadeira à parte, na sua visão, o que deve ser feito numa cidade como essa para que sua população volte a utilizar os espaços públicos?

O shopping center é a praia de uma ditadura capitalista

Há um momento em que parece que se espera do arquiteto uma proposição quase que salvadora, que possa resgatar a condição do homem contemporâneo, mas isso é impossível. Pode haver uma contribuição, reconheço, mas é uma contribuição que só tem expressão se conseguir envolver uma série de outros parceiros. Podemos dizer assim quando se fala em ciclovias, em margens dos rios, em espaço verde, que são opções muito fortes e muito transformadoras. O shopping center é a praia de uma ditadura capitalista, que irá sempre estar presente, quanto mais se construírem condomínios privados e acabarem com o chão público da cidade – expulsando as pessoas para dentro dos únicos espaços que, aparentemente, são convidativos: os shoppings, onde elas se tornam escravas do consumismo. Os arquitetos não conseguem salvar o mundo, isto está fora de hipótese.

Em São Paulo, a proporção dos espaços livres por habitante não é adequada e frequentemente vemos parques e eventos públicos superlotados. Por outro lado, há grande pressão do mercado imobiliário em ocupar os terrenos ainda vazios. Na sua visão, é possível atingir um equilíbrio neste conflito de interesses em nossa cidade? Como?

Há duas coisas nesta pergunta que são interessantes. Por um lado a questão do Plano Diretor, que é uma questão central para poder tomar rédeas sobre a densificação e a massificação do chão da cidade – neste caso, de promover, ou deixar fazer mais ou menos iniciativas privadas, portanto, fazer desaparecer o pouco chão que ainda possa existir. Há pouco falávamos um pouco sobre a escola da arquitetura moderna de São Paulo, e devo dizer que na cidade – é óbvio que isso não se aplica às periferias, mas se aplica aos bairros do primeiro anel do município –, existe uma coisa extraordinária que é a quantidade de edifícios que libertam o piso térreo para ser um espaço de comunhão do próprio condomínio, do número de pessoas que habitam essa parcela. Isso é incrível: a consciência que de que há um espaço público para dividir com as pessoas que habitam o mesmo edifício. Trata-se de uma atitude que também promove um statement econômico, à medida que a decisão foi de não construir o térreo com mais um apartamento, deixando-o aberto para que as crianças, as pessoas do condomínio possam usar. Isso é muito raro na Europa. Sinto isso de uma forma extraordinária aqui. Em Portugal, não é comum de modo algum ter coragem de libertar o térreo – não construindo ali a favor de um espaço exterior que é de uso geral de todos.